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A Amazônia agora tem seu próprio bacalhau

Com produção tida como alternativa para desenvolvimento sustentável, pirarucu chega à mesa do Centro-Sul como o “Bacalhau da Amazônia”.

Nanda Melonio ·
10 de fevereiro de 2012 · 10 anos atrás
Esse “peixinho” é a prova de que não é preciso vir do frio pra ser bacalhau. Foto: Thiago Santos
Esse “peixinho” é a prova de que não é preciso vir do frio pra ser bacalhau. Foto: Thiago Santos
 

Maior peixe de água doce do mundo, o pirarucu chama a atenção não só pelo porte, que pode chegar a três metros de comprimento e pesar até 250 quilos, como também pelo sabor capaz de agradar os mais apurados paladares, sendo considerado uma iguaria à semelhança do bacalhau da Noruega. A partir deste ano, graças à iniciativa do Governo do Amazonas e do Grupo Pão de Açúcar, a carne do pirarucu chegará à mesa dos brasileiros com o status de bacalhau.

O bacalhau não é exatamente uma espécie de peixe. Para ser considerado como tal, o animal precisa passar pelos processos de salga e cura adequados, onde é retirada em média 50% da sua umidade. No Brasil, cinco espécies são comercializadas atualmente com o rótulo de bacalhau ─ Bacalhau Legítimo, Bacalhau do pacífico, Saithe, Ling e Zarbo ─ sendo todas da ordem dos Gadiformes e provenientes de águas profundas e geladas.

O pirarucu é o primeiro peixe com origem tropical que será comercializado como bacalhau. Embora não faça parte da ordem dos Gadiformes, sua carne se adapta muito bem ao processo de salga utilizado, o que faz com que possa ser vendido dessa forma. Na região Norte, o peixe já era salgado com a finalidade de conservação. Agora, para atender à demanda do mercado, será feita a salga do pirarucu ainda fresco.

Para a salga, o Estado e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) investiram R$ 1,5 milhão para montar uma fábrica dentro da Reserva de Desenvolvimento Sustentável de Mamirauá (RDSM). Batizada de Agroindústria de Maraã, a fábrica é a primeira indústria de bacalhau da América do Sul e funciona desde agosto de 2011. Sua produção é tida como melhor exemplo de alternativa para desenvolvimento sustentável, pois gera emprego para 80 operários locais e recebe peixes de exatos 1.001 pescadores, que têm participação nos lucros. Se considerarmos que há oito mil habitantes em Mamirauá, o número torna-se extremamente significativo, tanto no retorno econômico quanto no social, uma vez que o projeto das indústrias de salga inclui a instalação de creches para as funcionárias e pescadores que tiverem filhos, assim como a construção de áreas de lazer. Além disso, o manejo participativo do pirarucu aumenta em 425% o estoque natural da espécie na Reserva Mamirauá.

Mamirauá não foi escolhida ao acaso. A Reserva é a maior produtora brasileira de pirarucu na modalidade de manejo sustentável, e em sua área de 1, 1 milhão de hectares encontra-se o maior sistema do mundo de despesca de um peixe.

Este ano também será inaugurada outra indústria como a de Maraã, em parceria com a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa). A nova unidade será no município de Fonte Boa, também dentro da Reserva, e a capacidade de processamento das duas fábricas será de cinco mil toneladas de peixe.

Fazem parte do sucesso da cadeia produtiva do Bacalhau da Amazônia o trabalho de conscientização dos pescadores para que haja o manejo correto e as garantias de compra do produto pelo governo do Amazonas e da distribuição exclusiva do produto nas regiões Sul e Sudeste do país pelo Grupo Pão de Açúcar. A Secretaria de Estado de Produção Rural subiu o pagamento do quilo de pirarucu de R$ 3,50 para R$ 5,50, e o lucro da venda do governo para o grupo varejista é integralmente revertido para Mamirauá.
*Editado em 13/02/2012

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