Notícias

Começa a ser comercializado no Brasil calçado sustentável

No mercado europeu há 8 anos, os tênis Veja começaram a ser vendidos no Brasil em setembro, chamados de Vert - e são verdes não só no nome.

Nanda Melonio · Daniele Bragança ·
30 de setembro de 2013 · 11 anos atrás

VERT – Borracha nativa da Amazônia from VERT on Vimeo.

Qual a relação entre tênis e dois amigos de infância que resolveram tirar um ano sabático desbravando a Amazônia? Aparentemente nenhuma além de imaginarmos que este seria o calçado mais lógico para ser usado durante a aventura. Mas, na verdade, foi logo após conhecerem a floresta amazônica que François-Ghislain Morillion e Sébastien Kopp decidiram lançar uma marca de tênis – e estava claro que precisava ter o menor impacto possível.

Assim nasceram os calçados eco-friendly Veja, produzidos no Rio Grande do Sul com lona de algodão biológico do Ceará e látex nativo do Acre, além de couro com curtimento ecológico (com extratos de acácia, um tanino natural não poluente). Vendidos em 14 países da Europa há 8 anos, os tênis foram lançados no mercado brasileiro neste fim de semana com o nome Vert (verde, em francês).

A empresa usa a cadeia de borracha do estado do Acre. Para isso, em 2010 foi criado o comitê gestor para a implementação de Projeto de Parceria com o Setor Empresarial (PSE), formado por associações de seringueiros, a Vert, além da WWF-Brasil, GIZ, UICN e Governo do Acre.

Quando o projeto foi criado, a empresa só usava o látex vindo da Reserva Extrativista Chico Mendes, em Assis Brasil, no Acre. Agora, a empresa trabalha com 3 associações de seringueiros.

Desafio do preço justo

Um dos principais desafios do mercado eco friendly diz respeito ao preço, seja o que é pago ao produtor pela matéria-prima, seja o do produto final a ser adquirido pelo consumidor. Na verdade, é quase o dilema do ovo e da galinha: muitos consumidores não exigem produtos mais sustentáveis porque têm preço elevado, e têm preço elevado possivelmente porque não há demanda. Uma mudança neste paradigma não ocorrerá da noite pro dia, e sim através de muito trabalho de conscientização e promoção do consumo sustentável.

Com um mercado consolidado, as empresas também serão capazes de estabelecer relações comerciais de longo prazo e incrementar o preço pago ao extrativista, que por sua vez pode manter-se focado no processo produtivo, oferecendo uma matéria prima de maior qualidade. A cadeia produtiva pode, assim, tornar-se mais autônoma e auto-renovável.

O modelo de negócios da Vert é o que se chama de “desobediência comercial”, pois subverte os sistemas econômicos tradicionais de várias formas.

A empresa se recusa a seguir os preços baixos à custa dos direitos dos trabalhadores e da remuneração justa, por exemplo. Mas apesar do valor pago pela borracha e pelo algodão para a produção dos calçados ser de 30% a 100% acima do que é praticado atualmente pelo mercado, a empresa assegurou um modelo econômico funcional ao reduzir os gastos com publicidade e operar em “estoque zero” para garantir a viabilidade da marca.

Em relação ao preço pago pelo látex, por exemplo, os seringueiros usam a chamada Folha Defumada Líquida (FDL), que permite aos produtores transformar o látex em folhas de borracha dentro da floresta, sem nenhum processo industrial intermediário. Sendo assim, o produto comercializado por eles já é semi-finalizado, o que aumenta seu valor agregado e, consequentemente, gera mais renda para as populações que vivem na floresta. A tecnologia foi desenvolvida pelo professor Floriano Pastore, da Universidade de Brasília (UnB).

Os tênis Vert têm boa aceitação no mercado europeu, sendo um dos primeiros produtos fair trade a ser distribuído em lojas convencionais do ramo, ao lado de outras marcas consagradas.

 

 

Leia Também
Etiópia exporta sapatos de pneu reciclado
No Fashion Rio, bons exemplos da incipiente moda verde
Luminária sustentável com design pernambucano

 

 

 

  • Daniele Bragança

    Repórter e editora do site ((o))eco, especializada na cobertura de legislação e política ambiental.

Leia também

Salada Verde
12 de junho de 2024

Em evento de transição ecológica, Lula defende exploração de petróleo na margem equatorial

Nova presidente da Petrobras diz que “país perdeu 10 anos” ao atrasar exploração e que a estatal prepara ação para convencer área ambiental do governo

Salada Verde
12 de junho de 2024

Em entrevista, Marina Silva fala sobre recuperar legislação ambiental

No mesmo dia em que Lula defendeu exploração de petróleo na Margem Equatorial, ministra diz que Brasil pode ajudar países a trilharem caminhos mais responsáveis

Salada Verde
12 de junho de 2024

ICMBio lança ferramenta com mapa interativo de UCs do país

“Navegue pelo mapa” permite aos usuários acessar informações de todas as unidades de conservação federais terrestres e marinhas do Brasil

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Comentários 1

  1. Tenis isso seria muito bom para todo mundo