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Gaviões-reais são seguidos por satélite na Amazônia

Harpia volta para a natureza com equipamentos de rádio transmissão para ajudar pesquisadores a conhecer melhor os hábitos da espécie.

Vandré Fonseca ·
17 de dezembro de 2013 · 8 anos atrás

Ele aguardou mais de um ano até que pesquisadores encontrassem um local apropriado para processo de readaptação. Foto: Olivier Jaudoin/PCGR
Ele aguardou mais de um ano até que pesquisadores encontrassem um local apropriado para processo de readaptação. Foto: Olivier Jaudoin/PCGR

Manaus, AM — O gavião voou e se bateu contra a grade da grande gaiola. Ele se assustou com o barulho da manivela girada para abrir o alçapão, que foi se erguendo na parte de cima do recinto. Mas logo encontrou o puleiro e, para alegria dos responsáveis por recuperar a imponente ave, voou para o alto e reencontrou livre a floresta.

É um jovem gavião-real macho, com idade estimada entre 3 e 4 anos. Pesa 4,3 quilos e, na última medição, tinha 1,79 metro de uma ponta da asa a outra. A expectativa é que fique ainda um pouco maior e possa passar de 1,85 metro de envergadura, quando fizer a troca de penas e ganhar a coloração definitiva de um adulto. É bom lembrar que os machos dessa espécie, a mais poderosa ave de rapina que existe, são menores do que as fêmeas. Esse macho vai carregar ainda um peso extra em equipamentos de quase 100 gramas, que não deve atrapalhar o vôo.

Presos nas costas do gavião, estão um GPS que transmite dados para o satélite Argos, usado no monitoramento de diversas espécies de animais ao redor do globo, e um rádiotransmissor VHF. Enquanto os dados por satélite vão permitir acompanhar o deslocamento dele ao longo do dia e da noite, os sinais de rádio vão ser usados para um pesquisador segui-lo dentro da mata e tentar obter informações sobre os hábitos do bicho.

Não é a primeira vez que gaviões-reais no Brasil são seguidos por satélite. Dois animais foram monitorados na Mata Atlântica do Sul da Bahia e outro nas proximidades da AM-010, entre Manaus e Rio Preto da Eva. Essas pesquisas indicaram uma diferença curiosa no comportamento entre os animais da Amazônia e da Mata Atlântica. No Sul da Bahia, as harpias preferiam se deslocar ao longo dos vales. Já no Amazonas, os sinais emitidos eram mais próximos das bordas da floresta, ao longo da rodovia.

Já se sabe que os gaviões-reais costumam utilizar uma área com raio de 10 quilômetros e que podem se deslocar até 9 quilômetros por dia. Os pesquisadores querem saber mais e os dados fornecidos por esse animal que acaba de ganhar a liberdade vão ser importantes.

Ele foi solto em um hotel de selva, no interflúvio do Rio Negro e Rio Solimões, uma região com muitos rios e floresta preservada. A torcida da equipe é para que ele suba o rio em direção de áreas mais preservadas e menos habitadas, e fique bem longe dos lagos onde turistas se divertem ao ver saguis. “A última coisa que a gente quer é um gavião-real dando rasante na cabeça de gente”, diz a bióloga Tânia Sanaiotti, coordenadora do Programa de Conservação do Gavião-Real, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Gavião-real carrega nas costas equipamentos de VHF e também localizadores por satélite: intensão é descobrir a relação entre os deslocamentos e a alimentação dele. Foto: Olivier Jaudoin/PCGR
Gavião-real carrega nas costas equipamentos de VHF e também localizadores por satélite: intensão é descobrir a relação entre os deslocamentos e a alimentação dele. Foto: Olivier Jaudoin/PCGR

Gavião do Richard

Esse gavião-real já é um astro de televisão. Ele foi descoberto em 2011 pelo apresentador dos programas Aventura Selvagem (SBT) e Mundo Selvagem (National Geographics), Richard Rasmussen. O apresentador estava em uma fazenda em Itacoatiara (AM), fazendo imagens de capivaras, quando encontrou o gavião ainda jovem em um cativeiro. Richard procurou os pesquisadores do Inpa e também do Ibama, para saber o que poderia ser feito em favor do bicho.

“A gente foi lá avaliar para saber se ele tinha condições de se virar sozinho na natureza”, conta a bióloga. “Se ele tem a capacidade de atacar, matar, depenar e comer, ainda tem os instintos de um predador”, completa. Ela explica que muitas vezes os animais são alimentados com pedaços de carne e, embora consigam até matar as presas, não sabem tirar os pêlos ou as penas e comer. Perderam o instinto de predador e não podem voltar à vida livre, porque teriam poucas chances de sobreviver.

Do cativeiro à liberdade

 
Gavião-real quando jovem: antes de decidir reabilitá-lo, pesquisadores conferiram se os instintos do predador ainda estavam vivos. E ele não decepcionou. Foto: PCGR/INPA
Gavião-real quando jovem: antes de decidir reabilitá-lo, pesquisadores conferiram se os instintos do predador ainda estavam vivos. E ele não decepcionou. Foto: PCGR/INPA
A história contada pelos donos da fazenda era de que o gavião foi encontrado em uma área de manejo florestal. A árvore onde estava o ninho foi derrubada e ele ficou sem lar. Depois de apresentados aos pesquisadores e analistas do Ibama, ainda ficou um ano e meio no cativeiro, porque não havia lugar para acomodá-lo.

O problema foi resolvido em agosto de 2012, quando ele foi levado a uma enorme gaiola usada em um programa de reintrodução de papagaios no Hotel Ariaú, município de Iranduba. Com 16 metros de comprimento, por 6 de largura e 3,5 de altura, apesar de baixo para gaviões-reais, o recinto tinha espaço suficiente para a reabilitação. O local fica a algumas dezenas de quilômetros do lugar onde ele foi encontrado e está na margem oposta do Rio Negro/Amazonas. Dois fatores que não iriam interferir na soltura, já que as populações de gaviões-reais dessa duas regiões não apresentam diferenças genéticas.

A poucos dias da liberdade, uma proeza do gavião deixou os pesquisadores muito confiantes. “Ele conseguiu carregar um quilo e trezentos gramas, que um pouco mais do que um coelho”, conta Tânia Sanaiotti. “Quer dizer que ele pode pegar uma presa de bom tamanho na natureza”. Isso foi na terça-feira (10/05). A libertação foi na sexta, quando os animal já deveria estar com fome. “Ele se alimenta em média a cada três dias, então a gente achou que com fome ele iria voar para buscar comida”, diz Tânia. E pelo jeito, a pesquisadora estava certa.

De olho na águia

As informações enviadas pelo gavião-real vão servir para os estudos desenvolvidos pela bióloga Helena Aguiar, que faz o doutorado pelo Inpa. Ela estuda a relação entre o movimento das aves e a disponibilidade de presas nas áreas visitadas. A previsão é que outros gaviões-reais devam ser acompanhados via-satélite na Amazônia. Eles devem começar a receber os equipamentos de localização a partir de fevereiro.

“As informações que pretendo avaliar no doutorado são sobre o deslocamento de harpias entre as florestas primárias e o mosaico de diferentes paisagens (agricultura, pecuária, floresta secundaria)”, informou via email. “E se existe uma relação entre a área de movimentação e a estrutura da floresta que pode estar correlacionada com disponibilidade de alimento”, completa.

As primeiras informações davam conta de que ele já havia utilizado uma área de oito hectares, ainda perto do local da soltura. Era esperado que a harpia conseguisse se alimentar na segunda-feira. No dia aguardado, atacou, sem sucesso, um bando de macacos. E no final da tarde, a boa notícia para quem torce pelo sucesso do gavião-real na natureza, ele caçou uma preguiça de aproximadamente 1 quilo. “Os outros que soltamos também se alimentaram três dias depois de soltos, então ele está bem”, comemora Tânia Sanaiotti. A ave de rapina ainda está nas imediações de onde foi solto, mas já provou estar pronto para enfrentar a liberdade.

Três dias depois de voltar à liberdade, o gavião-real conseguiu caçar a sua primeira presa, uma preguiça. É a prova de que ele está pronto para viver na floresta. Foto: Jefferson Valsko/ PCGR/INPA
Três dias depois de voltar à liberdade, o gavião-real conseguiu caçar a sua primeira presa, uma preguiça. É a prova de que ele está pronto para viver na floresta. Foto: Jefferson Valsko/ PCGR/INPA

 

 

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