Enviado especial a Brasiléia (AC) – O balançar cadenciado do táxi com o ar condicionado quebrado, o vento morno que sai não sei ao certo se do motor ou da janela aberta dão sono. A paisagem é monótona. Pastos sem fim, com poucas árvores, uma ou outra castanheira que resistiu às queimadas dos anos e décadas anteriores no processo de ocupação da BR-317. A rodovia liga a capital Rio Branco às cidades de Brasiléia, na fronteira com Cobija (Bolívia) e Assis Brasil, vizinha de Iñapari (Peru). O cenário constante só é interrompido por um ou outro canavial e pela entrada dos ramais, estradas de terra que levam ao interior das propriedades ou a outras fazendas.
VRUUUUUUUUUMMMMMMMMMMM
Passa o primeiro caminhão com toras gigantes. O raio dos troncos fatiados e empilhados na carroceria é maior do que a própria roda do veículo. Dá tempo de tirar essa foto do caminhão indo embora:

O motorista se diverte com minha pressa em registrar os troncos cortados passando.
– Calma, você ainda vai ver outros. Aqui é comum, toda hora eles passam.
Os dois bolivianos que compartilham o carro comigo – em Rio Branco os motoristas só saem com o táxi fretado, o que é muito caro, ou lotado de passageiros – concordam com acenos da cabeça. Seguimos caminho e a informação se confirma. Basta enjoar de ver vacas e bois onde antes havia floresta e começar a pegar no sono que surgem mais caminhões lotados de toras gigantes. Estamos em uma das muitas rotas de desmatamento que seguem o curso das estradas abertas na Amazônia.
No trecho em que passamos, a substituição de matas por fazendas já está consolidada – e é marcada pela concentração de terras, evidente pelo tamanho das propriedades. É mais para frente, nas cercanias de Assis Brasil que novos pastos têm sido abertos. Em pouco mais de uma década, é possível visualizar a evolução do desmatamento na região, como é possível ver em imagens do Google Earth:
2002

2013
A presença de pastos e bois onde o desmatamento já está consolidado ajuda a entender o processo (clique aqui para ver um mapa da estrada). Assim como em Rondônia, o avanço da pecuária, incentivado com financiamentos públicos, está diretamente relacionado ao desmatamento. Se na década de 1970, o Estado contava com 72.166 bovinos, em 2006 eram 1.784.474 bovinos, segundo dados os dados mais recentes divulgados pelo Governo do Estado.
Não por acaso, hoje a pecuária é a principal fonte de renda do Estado, com 18,89% de participação na economia, acima da indústria, que tem 14,27%. E toras gigantes continuando sendo transportadas em rotas de desmatamento.
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