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Como ocorre a caça de peixe-boi-amazônico na região do Médio Solimões

Em dois anos, pesquisadores do Instituto Mamirauá observaram a ocorrência de 95 eventos de caça ilegal nas reservas de desenvolvimento sustentável Mamirauá e Amanã

Sabrina Rodrigues ·
20 de agosto de 2019 · 5 anos atrás
O peixe-boi-amazônico (Trichechus inunguis) é uma espécie de mamífero aquático que ocorre apenas na bacia amazônica e pode pesar até 450 quilos. Foto: Sônia Vill.

De janeiro de 2017 a abril de 2019, ocorreram 95 eventos de caça de peixe-boi nas Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá e Amanã (AM). Os dados constam no estudo Mortalidade por efeito Antrópico do Peixe-boi-amazônico (Trichechus inunguis) na região do Médio Solimões do Instituto Mamirauá. Os resultados foram divulgados em pesquisa apresentada no 16º Simpósio sobre Conservação e Manejo Participativo na Amazônia (Simcon), realizada em julho deste ano.

O número foi obtido a partir de conversas informais com os próprios pescadores e por relatos de Agentes Ambientais Voluntários (AAVs) que atuam nas duas unidades de conservação. As pesquisadoras também obtêm informações de como se dão os eventos de caça, os locais onde ocorrem com maior frequência, e se os produtos são comercializados ou não. 

O peixe-boi-amazônico (Trichechus inunguis) é uma espécie de mamífero aquático que ocorre apenas na bacia amazônica e pode pesar até 450 quilos. Atualmente, o Trichechus inunguis está classificado como Vulnerável à extinção na lista da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês). 

A reportagem de ((o))eco conversou com a pesquisadora Hilda Chávez, que coleta dados sobre caça do peixe-boi na região desde 2017.

*

((o))eco- Quais as localidades que especificamente foi observado maior incidência de caça ao peixe-boi?

Por questões éticas e pela continuidade do trabalho, não é possível especificar as localidades (comunidades) com maiores eventos de caça. Podemos declarar que dentro da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (RDSA), os setores Paranã do Amanã e Lago Amanã tiveram maior registro de eventualidades de caça do peixe-boi amazônico de abril de 2017 até junho de 2019. 

Como acontece a caça nessas regiões, como ela é feita?

A caça do peixe-boi é feita tradicionalmente com arpão, técnica utilizada por pescadores profissionais, que adquirem o conhecimento de geração em geração. A caça consiste em arpoar o animal, acompanhar ele até cansá-lo, e colocar tornos (pedaços de madeira adaptados) nas narinas para afogá-lo, e consecutivamente transportar o animal para “tratá-lo”. Tem sido declarado também o uso de redes de pesca conhecidas como “malhadeiras” na migração temporal dos peixes-boi dentro da RDSA. 

Pesquisadora Hilda Chávez. Foto: João Alkmin.

O peixe-boi caçado é comercializado?

Dentro da RDSA, a captura intencional do peixe-boi é para consumo dentro das comunidades, já que é uma fonte de proteína muito apreciada pelas populações tradicionais. O comércio existe, mas é considerado como de baixa escala. Há também registros de venda de produtos derivados do peixe-boi amazônico nas cidades de Tefé e Coari, no estado do Amazonas. 

Como foi feita a pesquisa? Quantas pessoas envolvidas?

A pesquisa se encontra em andamento e é feita por meio de conversas informais e registros declarados ao Agentes Ambientais Voluntários (AAVs, comunitários envolvidos na preservação de recursos naturais nas suas localidades). Membros do Grupo de Pesquisas em Mamíferos Aquáticos Amazônicos (GPMAA) envolvidos nesta pesquisa: Antônio Pinto (assistente de campo), Hilda Chávez (pesquisadora), e Miriam Marmontel (Pesquisadora, Líder do GPMAA). 

Durante esses dois anos de pesquisa, observou-se que houve, em algum momento, a diminuição da caça do peixe-boi amazônico?

Não, infelizmente se observou um incremento nos eventos declarados, mas esta tendência pode ser reflexo do aumento de confiança dos comunitários nos pesquisadores. Além disso, é muito importante tomar em consideração que a pesquisa é prematura e os dados são limitados para afirmar uma tendência clara. 

Quais os trabalhos que podem ou que estão sendo feitos para diminuir a caça do peixe-boi na região do Médio Solimões?

Estudos etnobiológicos, atividades de educação para conservação e o programa de AAVs têm sido implementadas para troca de conhecimentos, educação e sensibilização em prol da conservação das sereias amazônicas. Ao mesmo tempo, a inclusão comunitária em atividades de reabilitação e monitoramento do peixe-boi amazônico contribuem na autorreflexão das consequências da perda da biodiversidade amazônica. Infelizmente, a falta de recursos financeiros tem limitado a execução destes esforços de preservação. 

*

Saiba Mais

Livro de Resumos –Mortalidade por efeito Antrópico do Peixe-boi-amazônico (Trichechus inunguis) na região do Médio Solimões 

Foto: Sônia Vill.
Foto: João Alkmin.
Foto: Sônia Vill.
Foto: João Alkmin.
Foto: Sônia Vill.
Foto: Sônia Vill.
  • Sabrina Rodrigues

    Repórter especializada na cobertura diária de política ambiental. Escreveu para o site ((o)) eco de 2015 a 2020.

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Comentários 13

  1. 230819 diz:

    Conclusão da pesquisadora no trabalho: "Portanto, em um período de 26 meses se registaram um total de 92 peixes-boi mortos na região do médio Solimões."

    Introdução da notícia: "De janeiro de 2017 a abril de 2019, ocorreram 95 eventos de caça de peixe-boi nas Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá e Amanã (AM)."

    Notem que só neste pequeno trecho há pelo menos três equívocos graves: 92 não é 95. "mortos" não é sinônimo de "caçados" (porque "mortos" inclui os que podem ter ficado acidentalmente presos em redes). "médio Solimões" (que no caso inclui o entorno da cidade de Tefé-AM) não é "RDS Mamirauá e Amanã".

    Precisamos estar atentos!


    1. 260819 diz:

      Eita, equívocos graves…
      Por três peixes-boi mortos que não foram incluidos no primeiro trabalho, serio? Gente não podem "caçar" mais peixes-boi porque a pesquisa diz 92! Precisamos ficar de olho!

      Que vontade de desmerecer um trabalho.


      1. Instituto Mamiraua diz:

        Informamos que esse dado está diferente do artigo publicado pois foram identificados mais dois eventos de caça após a publicação. Não foi um erro.


  2. XXX diz:

    Mas não foram vocês, pesquisadores do Instituo Mamirauá, que disseram que a caça de peixe-bois acabou nesse Lago Amanã? (vejam 0:21 do vídeo do canal do Instituto Mamirauá:

    ? Que isso OEco? Poderiam esclarecer????


    1. Hilda Chávez diz:

      Prezado XXX
      Temos o prazer de esclarecer sua preocupação. Como você pode bem ouvir, no início (0:04) do vídeo diz: "mas ainda há uma subsistência de peixe-boi amazônico na Amazônia mais longa", aceitando que ela existe.
      No segundo 0:21, a fala "diminuiu, por exemplo aqui não há Lago Amanã não há mais caça" se refere ao norte deste setor político (info cortada no áudio do vídeo).
      Infelizmente, em meados de 2018 (depois que o vídeo que você colocou foi gravado), os eventos de caça começaram a ser registrados com mais frequência, o que causou grande preocupação. Tal, que você pode ver que esses resultados foram apresentados este ano, para alertar sobre o panorama atual.
      Seria maravilhosa a extinção da caça ao peixe-boi amazônico, não apenas no norte do Lago Amanã, mas em toda a baía amazônica.
      Se você está interessado em mais detalhes da pesquisa, por favor, entra em contato direto comigo ([email protected]). Obrigada


    2. Boto Malino diz:

      E você só presta atenção naquilo que lhe convém né. Deixe de desmerecer o trabalho do próximo.


  3. Francisco Mendes diz:

    Muito ecológicos esses ribeirinhos. A melhor coisa é incentivar o êxodo rural para a floresta ficar vazia de gente ao invés de de bichos


    1. Boto Malino diz:

      Parabéns pela sua análise. aguardo sua ida pra fora da atmosfera


  4. AAI diz:

    População tradicional! Super ecológicas! Contribuindo empre para a conservação!
    Quem acredita ainda nessa balela?! O futuro mostrará as RESEX e RDS como vão ficar!


    1. Anônimo diz:

      Ao contrário do que pensa muita gente, populações tradicionais não são necessariamente ambientalistas ou “ecológicas”, como você diz. O que acontece é que elas costumam ser consideradas “conservacionistas” por conta da escala em que utilizam os recursos naturais. É isso que está por trás da proposta de unidades de conservação que respeitam o direito ao território dessas populações: o fato de que elas historicamente utilizam os recursos em escalas que são, ou estão próximas das, sustentáveis. Assim, as populações tradicionais como os ribeirinhos caçam e pescam, mas ainda há animais silvestres; elas usam madeira, mas ainda há árvores nativas; elas praticam agricultura, mas a floresta é o principal elemento de seus territórios. É nesse sentido que elas são consideradas conservacionistas. De outras populações humanas, como a maioria dos urbanos e alguns rurais, não podemos dizer o mesmo: onde se instalam não deixam espaço para a conservação de espécies ou ecossistemas. No presente, RESEX e RDS são tentativas de conciliar o desenvolvimento humano com práticas ambientais sustentáveis. Se houver futuro, um dia veremos se essas tentativas tiveram sucesso. E é claro que você está torcendo por isso, né?


      1. Geraldo diz:

        O futuro já chegou pra dizer que essas práticas não se sustentam. A escala do que eles matam é proporcional a quantidade de gente. Não tem nada de científico ou sustentável. Matam o quanto conseguem matar…


        1. Boto Malino diz:

          E suas conclusões chegaram após longas horas sentadas no sofá de casa ao fazer pesquisas vias redes sociais?


    2. Boto Malino diz:

      Basforou o Especialista Desenvolvimento Sustentável (Graduado pelo Facebook, Mestrado pelo WhatsApp e Doutorando em Yale da mesma turda do Salles. Você é o futuro do Brézil