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Em 2020, cinzas de incêndios expuseram população ao risco de câncer no Pantanal

Estudo coletou cinzas em cidades pantaneiras após os incêndios. Quase metade dos lugares analisados continham compostos com limites acima do considerado seguro para o não desenvolvimento de câncer

Michael Esquer ·
28 de outubro de 2022

Em 2020, as cinzas dos incêndios que destruíram mais de um quarto do Pantanal expuseram a população de cidades pantaneiras ao risco de câncer. Isso porque o índice de risco carcinogênico contido nos compostos excedeu valores de referência internacionais. O cenário indica condições prejudiciais principalmente para crianças e idosos. Isso é o que indica estudo recém publicado na revista científica “Air quality, atmosphere and health”, que pertence à Springer Nature. 

O estudo teve o objetivo de analisar os trace elements (elementos traços, em tradução livre) e os hidrocarbonetos presentes em amostras de cinzas coletadas em solos queimados do Pantanal. A partir disso, foi feita uma comparação entre o perfil químico de cada local e o cálculo de risco de exposição da população. O resultado foi que quase metade dos locais analisados apresentaram compostos com limites acima do considerado seguro para o não desenvolvimento de câncer. 

A ((o))eco, a primeira autora da investigação, Sofia Caumo, pesquisadora de pós-doutorado da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), explica o que são os dois grupos de elementos analisados pelo estudo. O primeiro deles, o hidrocarboneto, é um composto produzido durante a queima de matéria orgânica. “São muito estudados porque têm propriedades mutagênicas e carcinogênicas para os seres humanos”. 

O segundo grupo, que corresponde aos elementos traços, são encontrados na tabela periódica. Em quantidades mínimas, eles prestam serviços essenciais para o funcionamento do solo, e também do corpo humano. “São micronutrientes, só que em excesso se tornam perigosos tanto para o meio ambiente quanto para a saúde humana”, explica a pesquisadora. 

Assim como os hidrocarbonetos, os elementos traços também podem ter propriedades carcinogênicas, quando apresentados em grande quantidade. Além disso, diz ela, eles estão relacionados com o surgimento de doenças mentais e possuem correlações com Alzheimer, Parkinson e doenças cardiovasculares. 

A visita ao Pantanal 

Para a pesquisa, o estudo realizou a coleta de solo queimado entre outubro e novembro de 2020. No total, foram alvo da análise 20 lugares diferentes, compreendidos em quatro municípios pantaneiros. Sendo eles: Barão de Melgaço (MT), Cáceres (MT), Poconé (MT) e Corumbá (MS).

Mapa dos lugares que participaram da análise no Pantanal. Foto: Reprodução/Human risk assessment of ash soil after 2020 wildfires in Pantanal biome (Brazil).

A coleta foi feita logo após o final dos incêndios porque na época da ocorrência dos focos, devido às medidas de restrição da Covid-19, não havia a possibilidade de viajar até o Pantanal. As circunstâncias, no entanto, deram lugar a outra metodologia, que consistiu na análise dos componentes que integravam as plumas de fumaça das chamas. 

“Essas plumas podem alcançar quilômetros de distância. Quando essa pluma se dissipa, os componentes se decantam, se assentando no solo. A gente acabou achando uma boa alternativa, coletar os solos para entender como estava a composição desses grupos de elementos nas cinzas”, explica Caumo.

Durante a análise, foram consideradas áreas rurais, reservas ecológicas e uma região impactada pela mineração artesanal de ouro. “Os locais foram escolhidos para selecionar pontos distantes uns dos outros para garantir a variabilidade das amostras em diferentes áreas dentro do bioma”, diz trecho do artigo. 

Fora do limite 

O resultado foi que entre os elementos traços, alguns compostos excederam os limites recomendados para solos, de acordo com a Agência de Proteção dos Estados Unidos (EPA, na sigla em inglês). “O níquel, chumbo, cádmio e cobre foram elementos que tiveram uma alta concentração, acima do que é permitido de acordo com essa recomendação”, diz a pesquisadora. 

Entre os hidrocarbonetos, Caumo explica que não há legislação que os categorize de modo uniforme, como já é feito para elementos traços. A análise, no entanto, concluiu que nas cinzas do bioma, o composto apresentou concentração acima do registrado em incêndios florestais de outros países. “A concentração deles no solo após os incêndios do Pantanal foi maior do que em solos coletados em pós incêndios em outros lugares do mundo. Foi maior do que os incêndios na Coreia do Sul, na Suíça, na China também, em Portugal”, diz ela sobre os países cujos incêndios florestais, assim como no Pantanal, tiveram estudos de quantificação do solo. 

Esses não foram os principais resultados do estudo, mas apenas parte dele, que foram necessários para a etapa seguinte. “A partir disso, a gente conseguiu fazer cálculos teóricos em relação ao risco de exposição à saúde tanto para os elementos traços quanto para os hidrocarbonetos”. Para esse cálculo, a investigação usou métricas validadas pela EPA e pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC, na sigla em inglês) da Organização Mundial da Saúde (OMS). 

O resultado encontrado foi que dos sítios analisados, 40% apresentaram índice carcinogênico acima do limite seguro para o incremento do risco de câncer. Isto significa que a quantidade de compostos encontrados em ⅖ dos lugares que tiveram amostra analisados excederam o limite considerado seguro.

“Sendo que para as crianças, esse risco foi sempre mais elevado, sempre mais pronunciado, em alguns casos sendo 10 vezes acima do limite recomendado por essas instituições”, acrescenta Caumo. 

Gráfico abstrato. Foto: Reprodução/Human risk assessment of ash soil after 2020 wildfires in Pantanal biome (Brazil).

Os impactos 

De acordo com Caumo, o impacto decorrente de resultados como os identificados nas cinzas do bioma em 2020 normalmente acontecem a longo prazo. “É o que a gente chamaria de exposição crônica”, diz ela. No Pantanal, e nos biomas brasileiros em geral, porém, ela explica a existência de uma característica peculiar: além da exposição crônica à poluição, também há a exposição aguda. 

“Aguda é quando você está em um ambiente que é muito poluído por um período curto. E a exposição crônica é quando você está num ambiente poluído ao longo da sua vida”, esclarece ela. Mas no Pantanal, por exemplo, há a ocorrência dos dois cenários.

“O período de seca é o período em que ocorrem as queimadas, então você vai ter um ambiente super poluído ali. Depois que passa o período de seca essa poluição se equilibra, se estabelece. Só que no ano seguinte se repete essa exposição. Então, esse é um um cenário para uma exposição ao longo da vida, realmente”, acrescenta. 

Ela cita que, de acordo com a literatura em estudos anteriores, esses efeitos recaem, sobretudo, sobre crianças abaixo de cinco anos, quando o sistema do corpo ainda está se formando, e ribeirinhos e populações indígenas, geralmente por viverem em lugares distantes e de difícil acesso. “Quando essa pessoa tem algum sintoma e tende a procurar o sistema de serviço de saúde, já pode ter um desenvolvimento de alguma doença mais avançada do que o de alguma pessoa que mora num centro urbano, que faz check-up de forma regular”, explica. 

Combinação de fatores 

Os fatores que influenciam o resultado do estudo, diz a pesquisadora, são a intensidade, frequência e área queimada. Em 2020, o Pantanal teve 3,9 milhões de hectares consumidos pelo fogo, cerca de um quarto da área do bioma, segundo o Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Lasa/UFRJ). 

“Tanto a questão da chama, a temperatura em que o incêndio ocorre, quanto a recorrência da queima. Um lugar queimado mais de uma vez produz mais e mais desses compostos, e também a extensão”, aponta ela. Ou seja, o conjunto de matéria seca, alta temperatura e período seco acaba permitindo que um lugar seja queimado por diversas vezes. 

“Quanto mais vezes isso vai queimando, mais poluentes são produzidos”, finaliza Caumo.  

  • Michael Esquer

    Jornalista pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), com passagem pela Universidade Distrital Francisco José de Caldas, na Colômbia, tem interesse na temática socioambiental e direitos humanos

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