Reportagens

Que venha a seca

Parou de chover em Goiás. A secura da estação e suas queimadas parecem notícia triste, mas o Cerrado precisa dela para florescer de novo, e fica lindo assim.

Jaime Gesisky ·
19 de maio de 2005 · 17 anos atrás

O aquecimento global ainda não se fez sentir no clima goiano. Com a inclinação do eixo da Terra em relação ao sol a partir do equinócio de maio, o frio se insinua no hemisfério sul, e no Cerrado a natureza se mostra caprichosa. A mudança de clima, típica do período, transforma radicalmente o cenário na savana brasileira. Paisagem. Luz. Cor. O Cerrado dá um show que encantaria os impressionistas. Pena que Monet não tenha visto.

Com mais atmosfera para atravessar, a luz solar perde cor azul e o dourado banha o planalto. A seca já se anuncia nas folhas das árvores, que adquirem tons sépia e, silenciosamente, se despregam dos galhos. Uma a uma, em movimento característico da vegetação cerradina. Esse fato, aparentemente simples, determinará a floração ainda na seca e a frutificação, logo mais na época da chuva, garantindo assim nutrição para centenas de espécies de mamíferos e aves.

A secura começa a aumentar. A umidade relativa do ar chega a 10 por cento. É desértico. Durante o dia, a temperatura beira os 40 graus. À noite, cai para 15. Essa alternância é fundamental para a ecologia de diversas espécies de plantas que precisam dos extertores do clima para florir. Caso do ipê (Tabebuia sp – foto acima). É na seca que a árvore explode em pura cor: amarelo, roxo, branco. Cada tom floresce ao seu turno em uma escala cromática de luxúria estonteante em contraste com o cinza/palha. Van Gogh amaria.

O mato se transforma em puro combustível e o fogo pode surgir do nada. É auto-combustão, verificada em pontos extremamente secos da vegetação. O homem sempre dá aquela mãozinha. Um toco de cigarro aceso jogado pela janela do carro pode dar início a um incêndio florestal. O número de focos de calor sobe exponencialmente. Queimadas e incêndios se revezam, pontuando a paisagem. Vistos do alto, os incêndios formam colares de luzes flamejantes. Embaixo, ficam os rastros da destruição: animais e plantas carbonizados.

Se de um lado a morte impera, do outro a vida avança bruta. A profusão de flores espanta os menos avisados. Quem imaginava que a seca era o fim de tudo leva um susto. Centenas de espécies de flores fazem do Cerrado um jardim inigualável.

A água, cujo berço é aqui mesmo, esfria e causa arrepios só de tocá-la. Os antigos habitantes da região costumam dizer que não se vai para as cachoeiras nos meses que não tenham em sua grafia a letra “r”, que coincidem com o período seco e frio: maio a agosto, principalmente. Apesar da friagem, as águas nunca ficam tão límpidas e transparentes quanto nesta época do ano. Quem se aventura esportivamente na radicalidade das escarpas encachoeiradas da região tem como brinde os poços profundos e translúcidos de água gélida e transparente: oásis perfeito.

A seca é a melhor estação para se conhecer o Cerrado. Dias firmes, sem chuva e de profunda visibilidade na paisagem. A luz, cada vez mais intensa ao longo do período, colabora, dando às cores matizes insuspeitados. As opções de lazer e turismo são inúmeras: pescarias, montanhismo, arvorismo, rappel, observação de fauna. Tudo fica mais fácil. Basta ter apetite para “comer” um pouco de poeira e se tingir de ocre com a terra vermelha do lugar. Bem orientado, o turismo no cerrado poderia ser uma alternativa à economia da região. Por ora, a agricultura é atividade líder. Por causa dela, mais da metade do Cerrado foi posta abaixo. Mas ainda dá tempo. Tem quase que outra metade inteira. Será que vai vingar?

* Jaime Gesisky é jornalista catarinense radicado em Brasília. Há cinco anos, dedica-se a estudar e escrever sobre a biodiversidade brasileira.

Leia também

Notícias
19 de janeiro de 2022

Com pedido de Wassef, Justiça libera madeira apreendida em operação histórica

O advogado da família Bolsonaro conseguiu a liberação de madeira e bens da empresa MDP Transportes, uma das afetadas pela operação da PF que resultou na maior apreensão de madeira já feita

Salada Verde
18 de janeiro de 2022

Em evento, Bolsonaro comemora redução de 80% das multas do Ibama

“Nós reduzimos em mais de 80% as multagens no campo”, disse o presidente, que creditou ao ex-ministro Salles e à ministra da Agricultura, Teresa Cristina, as boas medidas para o campo

Salada Verde
18 de janeiro de 2022

MPF se pronuncia contra decreto que permite destruição de qualquer caverna

Câmara de Meio Ambiente do Ministério Público Federal (4CCR) diz que norma desrespeita princípios constitucionais. Governo publicou decreto na semana passada

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta