Para quem vai pela primeira vez, a beleza do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses ainda surpreende. São 155 mil hectares de dunas ensolaradas, mar de um lado, mata de outro. Um cenário surreal, de tirar o fôlego – literalmente, pois a caminhada debaixo do sol não é para qualquer um. Dá aquela sensação de que você está sendo redefinido pela força da natureza e que depois nunca será o mesmo.
Mas parte da população reclamou. O Ministério Público ainda se mexeu para que fosse feita uma audiência pública em Barreirinhas, com os técnicos da construtora. Eles prometeram construir uma estação de tratamento de esgoto independente e jogar somente água limpa no rio.
É o mínimo. Fazendo as contas do número de apartamentos, mais hóspedes e funcionários, o local vai concentrar aproximadamente mil pessoas em alta temporada, o equivalente a 2% da população de todo o município. Será uma difícil tarefa amainar o efeito dessa multidão na beira do rio Preguiças. Até porque a Franere não parece que vai parar por aí. Já demonstrou interesse em construir uma marina para os barcos, assim como um restaurante para atender aos turistas nas bordas do rio.
A atual chefe do Parque Nacional Lençóis Maranhenses, Erika Fernandes Pinto, garante que está de olho. “Numa análise das construções à beira-rio, constatamos mais de 200 situações irregulares, o que inclui a construção da Franere”, diz. O muro de contenção do empreendimento está a exatamente 100 metros da margem do rio, mas o aterro para sua fundação invade a distância mínima de proteção da mata ciliar, que é Área de Preservação Permanente (APP).
Já na humilde Prefeitura de Barreirinhas, tive o prazer de presenciar a abertura recente da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, que não existia até o mandato anterior do prefeito. Josinaldo da Luz, primeiro ocupante do cargo, foi direto ao ponto: “Aquilo enfeia a cidade. Além de ser de mau gosto dos proprietários, é um desserviço para o turismo. Totalmente inadequado para a região”. Diz ter apoio do prefeito e ensaia uma resistência contra a urbanização descontrolada. Um Plano Diretor para o entorno do Parque Nacional está saindo do forno este mês para ordenar o crescimento de Barreirinhas e municípios vizinhos.
O projeto da Franere já está em fase de acabamento. Tem até data para entrega: 19 de outubro. Quer comprar?
* Bruno Prada é jornalista recém-formado.
Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar
Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.
Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.
Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.
Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.
Leia também
Copa do Mundo das Áreas Protegidas: Grupo D
EUA, Paraguai, Austrália e Turquia disputam vaga na próxima fase. Na Copa das Áreas Protegidas, cada país entra em campo com suas estratégias de conservação →
Produtores rurais impedem audiência pública sobre criação de UC no Pantanal
Com discurso carregado de desinformação sobre “impactos” do Refúgio de Vida Silvestre Delta do Salobra, grupo liderado por sindicato rural ocupa auditório e nega diálogo com ICMBio →
Entenda por que a extinção das línguas é uma questão ambiental
Mais de 2 mil línguas indígenas correm risco de desaparecer neste século – e, com elas, poderemos perder conhecimentos ecológicos tradicionais de suma importância →

