Reportagens

Pesticida no sangue

Moradores da Cidade dos Meninos, no Rio, finalmente recebem os exames de contaminação por pó de broca. O resultado mostra que 95% deles têm HCH no sangue.

Ana Antunes ·
22 de dezembro de 2005 · 16 anos atrás

Depois de 12 anos de espera, Rosemary de Castro descobriu na segunda-feira, 19 de dezembro, que 18% do seu sangue contem pó de broca, ou HCH. Ela não é a única. Segundo estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do Ministério Saúde, divulgado em 26 de novembro, 95% dos 1400 moradores do local também estão contaminados.

Rosemary cresceu cercada pelo pesticida proibido de ser vendido no Brasil desde 1984. Estudou na escola municipal que ficava ao lado da antiga fábrica do Ministério da Saúde desativada nos anos 60. Na família de Rosemary há todo o tipo de situação: os exames dos filhos dela foram considerados normais, ou seja, dentro das taxas aceitáveis de contaminação. Já sua mãe está entre os 9% da população com níveis altos do químico no sangue, que se equiparam ao grau de quem trabalha o dia inteiro com o veneno.

Rosemary lembra que brincava com os amigos na hora do recreio na construção abandonada, onde havia pó-de-broca espalhado. Além disso, conta que o pai levava o HCH para casa e usava para matar formigas e piolhos de galinha. Ela lembra que sentia o pó de broca nos alimentos, especialmente no ovo. “Quando a gente cozinhava o ovo, vinha aquele cheiro forte. Além disso, a gema era meio marrom por causa do químico”. Desde a interdição da área, em 1993, os moradores estão proibidos de comer ou comercializar alimentos produzidos na Cidade dos Meninos. Sérgio Koifman, pesquisador da Fiocruz, diz que o pó de broca não provoca alterações genéticas, mas ele se acumula no tecido adiposo, a camada de gordura. Na gema do ovo, que é rica em gordura, o HCH é bastante concentrado.

Segundo Koifmam, a contaminação tende a diminuir quando as pessoas são afastadas da fonte do problema. Mas ele não defende a retirada da população do local. Bastaria removê-las temporariamente para se fazer a limpeza da área.Guilherme Franco Neto, representante do Ministério da Saúde, afirma que o órgão tem planos para dar início ao processo de descontaminação em outubro de 2006. Mas para Rosemary, a ameaça constante de desocupação da Cidade dos Meninos assusta os moradores mais do que o HCH. “Tudo o que eu quero é que eles me deixem quieta no meu cantinho”, diz.

Posto de Saúde

No Brasil não existe estudo sobre os efeitos do pó de broca no organismo. Mas, de acordo com pesquisas realizadas em outros países ele pode causar câncer, infertilidade, aborto espontâneo, problemas neurológicos, entre outros. Por isso, nenhum médico consegue explicar se o câncer do pai de Rosemary está relacionado à contaminação. José Miguel da Silva, que se mudou da Cidade dos Meninos há 10 anos, diz que no período em que morou no bairro- até 1991- pelo menos 20 de seus vizinhos morreram por causa da doença.

A Secretaria Municipal de Saúde de Duque de Caxias entrou em acordo com o Ministério da Saúde para fazer o atendimento médico da população. Iolanda Bravim, encarregada do caso no órgão federal, afirma que o acompanhamento dos moradores será feito pelo Posto de Saúde do bairro, através do programa Médico de Família e pela rede de hospitais públicos da cidade. Mas os moradores reclamam que o posto não tem condições de atender as necessidades da população. O controle das condições físicas das vítimas será supervisionado pelo Instituto Nacional do Câncer.

A maioria dos moradores da Cidade dos Meninos tem histórias parecidas com a de Rosemary. Adriano de Lima também cresceu ali. Ele chegou no bairro ainda menino, para estudar no internato e não saiu mais. Deu aula em uma outra escola da região e lá conheceu a sua mulher, Sônia. O casal tem boas lembranças dos tempos em que as instituições de ensino ainda funcionavam no local. Sônia se recorda dos desfiles realizados no Dia da Independência com os meninos. O nome do bairro vem da quantidade de escolas que existiam na área, eram quatro no total- a maioria exclusivamente para meninos.

Adriano e sua família também estavam no grupo que recebeu os resultados do exame de sangue na semana do dia 19 de dezembro. O bairro tem aproximadamente dois mil moradores, mas apenas 1400 se dispuseram a ser examinados. Os moradores estavam receosos em participar do estudo realizado pela Fiocruz porque em 2003, quando as amostras foram coletadas, elas ainda aguardavam os resultados de exames feitos em 2001 pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Adriano, Sônia e suas duas filhas estão com o nível de contaminação intermediário. “Na nossa família, o grau mais alto de pó de broca deu 17%.”

Preconceito

Sérgio Koifman diz que na teoria as pessoas não deveriam ter esse tipo de substância no organismo, mas é cada vez mais comum exames apontarem a substância em habitantes de áreas urbanas. “Esses químicos chegam ao nosso corpo em alimentos com agrotóxico ou por contato direto”.

Adriano é diretor da Associação de Moradores da Cidade dos Meninos e diz que os moradores da área estão preocupados com os resultados entregues. Segundo ele, o nível de contaminação nas crianças está mais alto do que nos adultos. “Os médicos dizem que as crianças são mais vulneráveis, mas elas estão a menos tempo em contato com o HCH. Nós vamos ter que chamar um toxicologista para explicar a situação,” diz ele. Antes da divulgação do resultado, a contaminação assustava. Daniele, filha de Adriano e Sônia, lembra que morria de medo de saber o resultado. “Eu estava apavorada, mas depois que ouvi a explicação do Sérgio, entendi melhor o problema.”

O medo de Daniele tem explicação. Ela conta que por causa do alvoroço feito pela imprensa na divulgação parcial do resultado, ela sofreu preconceito no lugar onde trabalha. Seus colegas pediram para que passasse a tomar água em copo de plástico para não contaminá-los. “Assim como muita gente de fora não tem informação sobre o que o pó de broca pode causar, as pessoas aqui de dentro também estão desinformadas.”

A informação, segundo Adriano, é a melhor arma contra o preconceito e o descaso das autoridades públicas. Por isso, ele fez uma campanha na comunidade para que todos os membros das famílias examinadas fossem ao posto de saúde receber o resultado. No entanto, conta ele, a maioria mandou apenas um representante.

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