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Polícia Federal descarta participação de brigadistas de Alter do Chão nos incêndios da Amazônia

Após quatro meses de investigações, agentes não encontram culpados e pedem arquivamento do caso ao Ministério Público Federal

Marina Lang ·
27 de agosto de 2020 · 1 anos atrás
Brigadistas, bombeiros e voluntários combatem o fogo que se alastrou desde sábado (14) no distrito de Alter do Chão, Santarém, no Pará. Foto: Brigada de Alter.

Quase um ano após a prisão dos brigadistas de Alter do Chão sob a acusação de que eles teriam iniciado os incêndios na vegetação nativa da Amazônia na região conhecida como Capadócia, no Pará, a Polícia Federal concluiu que os pontos iniciais de fogo começaram a 2,3 km e a 4,6 km de distância da região apontada como o suposto início pela Polícia Civil do estado, que indiciou quatro bombeiros ligados às ONGs de proteção ambiental da região.

Após uma perícia com duração de quatro meses, a PF constatou que, além de os incêndios terem começado em pontos distantes da região inicialmente apontada pela Polícia Civil, o fogo se originou por ação humana. Agentes foram a campo investigar os princípios das queimadas, além de analisar imagens de satélites. No entanto, de acordo com o relatório, não foi possível identificar quem teria iniciado os incêndios e, portanto, pede o arquivamento do inquérito. A conclusão diverge do que foi apontado pelas investigações estaduais.

Baseado em depoimentos, o inquérito estadual indicou que os brigadistas, supostamente, teriam iniciado as queimadas no intuito de obter doações de ONGs e do ator Leonardo Di Caprio, que refutou as acusações. A diferença, agora, é que a PF apontou que não é possível identificar os autores do incêndio, e que tampouco existem evidências que apontem para os investigados pela Polícia Civil do Pará.

“Dessa forma, considerando que foram feitos diversos estudos técnico-científicos e levantamentos e que apesar de todos os esforços empreendidos, nenhum resultou em uma definição significativamente clara de autoria, e que efetivamente não existe nenhum elemento que comprove a ação de algum dos investigados para a ocorrência do incêndio, resta prejudicado o apontamento autoral”, finaliza o relatório da PF.

A prisão dos brigadistas teve repercussão internacional em setembro do ano passado. Eles tiveram seus cabelos raspados e ficaram detidos por dois dias. Depois de soltos, todos se mudaram para São Paulo temendo retaliações por parte de grileiros de terra. Eles sempre negaram as acusações.

O pedido de indiciamento ainda não foi acatado pelo Tribunal de Justiça do Pará. O juiz responsável pelo caso é Alexandre Rizzi, que foi advogado de defesa de uma madeireira pertencente à sua família no Pará.

Foi ele quem determinou a prisão preventiva dos brigadistas, sob argumento de “garantia da ordem pública” a fim de, supostamente, evitar “a reiteração da prática delitiva, além de garantir a colheita de elementos para a instrução criminal”.

((o))eco apurou que edificações estão sendo feitas, atualmente, por residentes nos locais das queimadas.

Edificações sendo levantadas no local onde ocorreu o incêndio ano passado. Foto: Brigada de Alter.

 

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  • Marina Lang

    Jornalista com 17 anos de experiência, trabalha com investigações jornalísticas na revista VEJA. Além de colaborar para ((o))eco, já passou por meios de comunicação como CNN International, Folha de S.Paulo, UOL, The Intercept Brasil, canal de TV SBT, entre outros.

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Comentários 1

  1. Paulo diz:

    É isso aí.

    Entrar com ação judicial contra os que acusaram, estes de incendiarios. Aqueles, políticos, sindicatos, policial civil, yutubes da vida, etc, etc
    Não afrouxem para esta cambada de biopiratas.