Aldem Bourscheit*

A situação é comum nos interiores do Brasil, onde apenas 4% da população rural trata seus esgotos. O resultado é contaminação de riachos, lagos e águas subterrâneas. E quem bebe dessas fontes costuma sentir no corpo os efeitos da poluição – diarréia, dor de cabeça, febre, hepatite e outras doenças.
Graças a um sistema desenvolvido pelo pesquisador Antônio Pereira Novaes, da Embrapa (São Carlos/SP), milhares de famílias em Goiás, Distrito Federal, Minas Gerais e Pernambuco já reduziram a poluição que lançam no ambiente. O modelo usa três fossas (foto) em sequência para eliminar os residuos de famílias com até cinco pessoas. Com mais gente, mais fossas são instaladas.
A descarga do vaso sanitário é direcionada ao primeiro estágio, onde uma vez por mês mistura-se água com dez litros de esterco bovino, coisa que não falta no Brasil. Nos dois passos seguintes, as bactérias são quase que totalmente eliminadas. A eficácia é de 98%. O adubo líquido não desperdiça água, é rico em nitrogênio, fósforo e uréia. O processo correto fornece mil litros mensais de adubo, não atrai insetos, não cheira mal e serve para preparar a terra antes dos plantios e irrigar cultivos. A economia anual é de 4.500 quilos de fertilizantes convencionais. ”Todo ano tinha que fazer um poço-negro novo. Hoje não gasto um centavo com adubo”, comemora Pereira.
Aproveitando a inclinação do terreno, o produtor familiar instalou torneiras e mangueiras e irriga suas plantações com esforço mínimo. A cana-de-açúcar que recebe o adubo caseiro tem quase o dobro do diâmetro de plantas privadas da mistura. “Com um estágio a mais no sistema de fossas, um filtro com areia e pedras, seria possível despejar os efluentes diretamente nos em córregos e rios”, diz Ageu da Rocha, da Associação para o Combate à Exclusão Social e Preservação Ambiental, parceira na empreitada.
O tratamento descentralizado de esgotos é montado com itens encontrados em qualquer loja de materiais de construção, custa cerca de mil reais e já está disponível em 300 propriedades no entorno do lago da hidrelétrica de Corumbá 4, nos municípios goianos de Santo Antônio do Descoberto, Alexânia e Luziânia. O reservatório também será aproveitado para abastecimento público, inclusive da capital federal. No Brasil, já são quase mil sistemas implementados com apoio da Fundação Banco do Brasil, que desde 2003 injetou 1,4 milhão de reais na iniciativa.
Confira um vídeo sobre o projeto aqui. Mais informações aqui.
* o repórter conheceu a iniciativa a convite da Fundação Banco do Brasil
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