Salada Verde

Brasil lança primeiro roteiro global para orientar saída dos combustíveis fósseis

Documentos apresentados pela presidência da COP30 propõem medidas para reduzir a dependência de petróleo, gás e carvão, mas não estabelecem metas obrigatórias nem prazos intermediários

Redação ((o))eco ·
4 de novembro de 2026
Salada Verde
Sua porção fresquinha de informações sobre o meio ambiente

Mais de uma semana após a reeleição do presidente Lula e da manutenção de uma política externa forte voltada para a agenda climática, o Brasil apresentou, nesta terça-feira (3), o primeiro roteiro global para orientar a transição para longe dos combustíveis fósseis. Elaborados pela presidência da COP30, os documentos propõem caminhos para que os países reduzam a dependência de petróleo, gás e carvão, considerando suas diferentes condições econômicas e energéticas. A iniciativa busca deslocar o foco das negociações climáticas para a implementação de medidas já reconhecidas como necessárias no âmbito do Acordo de Paris.

A iniciativa busca transformar em ações concretas o compromisso assumido pelos países no Balanço Global de Dubai, em 2023, de promover uma transição justa, ordenada e equitativa para longe do petróleo, do gás e do carvão.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



A publicação ocorre um ano após a COP30, realizada em Belém, quando a inclusão de compromissos para abandonar os combustíveis fósseis enfrentou resistência nas negociações. Como alternativa, a presidência brasileira assumiu o compromisso voluntário de elaborar dois roteiros: um voltado à transição energética e outro ao combate ao desmatamento.

A proposta para o setor energético está organizada em três pilares: demanda de energia, oferta de energia e economia. Para cada um deles, os países deverão avaliar seu grau de exposição às transformações necessárias e sua capacidade de implementá-las. A metodologia, denominada Belém Readiness Approach, prevê uma autoavaliação voluntária que permite classificar cada nação em diferentes perfis, a partir dos quais são indicadas medidas prioritárias.

O documento estabelece dois conjuntos de medidas: as chamadas alavancas fundamentais, que devem ser adotadas por todos os países, e as alavancas específicas, definidas de acordo com as condições e os desafios de cada nação. O calendário proposto também estabelece referências para a implementação das ações, com etapas relacionadas ao segundo Balanço Global do Acordo de Paris, em 2028, à próxima rodada de Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), em 2030, e ao terceiro Balanço Global, em 2033.

Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, afirmou que os roteiros foram concebidos como instrumentos de implementação, com o objetivo de aproximar as conferências climáticas das ações práticas e reduzir a concentração de esforços nas negociações de novos acordos. Segundo ele, as recomendações deverão envolver não apenas as áreas ambientais, mas também ministérios responsáveis por economia, transportes, energia e infraestrutura.

Entre as medidas sugeridas estão a redução dos subsídios à produção e ao consumo de combustíveis fósseis, a ampliação da geração de energia renovável e o combate à queima e à liberação de metano nos locais de extração de petróleo e gás. O roteiro também considera que a transição pode começar imediatamente, sem depender do desenvolvimento de novas tecnologias ou de mudanças estruturais na economia.

O Mapa do Caminho foi elaborado a partir de mais de 180 contribuições enviadas pelo site da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), além de mais de 100 consultas e cinco eventos internacionais presenciais. O processo envolveu governos, organizações internacionais, Povos Indígenas, Comunidades Locais, representantes da sociedade civil, do setor privado, instituições financeiras e da comunidade científica.

“As florestas são um ativo fundamental no enfrentamento das mudanças climáticas, assim conservá-las deve ser uma estratégia central na agenda climática. Apoiamos o desenvolvimento do Mapa do Caminho com base em evidências, pesquisa e conhecimento técnico com o objetivo de incentivar uma agenda de implementação para esta década e gerar resultados concretos para a proteção das florestas.”, afirma Juliano Assunção, diretor executivo do CPI/PUC-Rio. A instituição apoiou a elaboração do documento. 

O Observatório do Clima avalia que a iniciativa oferece instrumentos para que os países comecem a planejar a transição sem esperar por novas rodadas de negociação internacional. A organização, no entanto, destaca que os governos precisam publicar suas autoavaliações para que seja possível construir um diagnóstico global confiável. Também defende que a sociedade civil produza análises independentes com base nos indicadores apresentados pelo mapa.

“Com este mapa, a Presidência da COP30 encerra seu mandato devolvendo a bola aos países. Acabaram as desculpas: cada país pode e deve fazer seu diagnóstico para se situar nesse mapa e começar a lição de casa já. A transição para longe dos combustíveis fósseis é urgente, necessária e complexa, mas não é um bicho de sete cabeças e o mapa mostra vários caminhos para chegar até ela”, diz Stela Herschmann, Líder em Política Internacional do Observatório do Clima.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Reportagens
8 de dezembro de 2025

Brasil escolhe trilhar o mapa do caminho do carvão mineral

Enquanto defende no plano internacional a transição para longe dos combustíveis, o Brasil segue aprovando medidas que dão sobrevida à indústria do carvão mineral →

Salada Verde
4 de fevereiro de 2026

Sociedade civil reivindica participação no Mapa do Caminho para fim dos combustíveis fósseis

Mais de 100 organizações enviam carta a embaixador Corrêa do Lago pedindo que criação do roteiro seja “processo político real e inclusivo” →

Podcast
19 de novembro de 2025

Entrando no Clima #68 – Mapa do caminho para longe dos fósseis

Governo brasileiro anuncia lançamento de uma coalizão para o fim dos combustíveis fósseis, com apoio inicial de 80 países →

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.