Notícias

Antas “avisam” pesquisadores sobre contaminação humana por agrotóxicos no MS

Além de agrotóxicos como glifosato, moradores do sudeste do estado também apresentaram altos índices de metais no corpo. Antas atuaram como sentinelas

Cristiane Prizibisczki ·
23 de fevereiro de 2024 · 2 anos atrás

Pesquisadores de equipe multidisciplinar identificaram que uma parcela de moradores do sudeste do Mato Grosso do Sul está contaminada com agrotóxicos e metais pesados, provenientes das grandes monoculturas da região. Os resultados foram divulgados na última semana. A descoberta só foi possível graças ao “aviso” dado pelas antas que vivem no local.

O trabalho, conduzido por pesquisadores da Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (INCAB), projeto do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), analisou a presença de 25 tipos de agrotóxicos e nove metais em moradores das cidades de Nova Alvorada do Sul e Nova Andradina. 38% das pessoas analisadas testaram positivo para algum químico ou metal, sendo que em alguns casos havia mais de um composto presente.

Segundo Patrícia Medici, coordenadora do INCAB-IPÊ, a anta é considerada uma “espécie sentinela”, isto é, pode ser utilizada para detectar riscos ou perigos a elas mesmas e a outras espécies, incluindo seres humanos. 

Por esta razão, a presença das substâncias nas antas levantou a preocupação nos pesquisadores sobre a saúde das comunidades que vivem na região onde os animais foram amostrados, na qual há a presença de grandes monoculturas de cana-de-açúcar, soja, milho e algodão, além de criação de gado.

“Começamos a pensar que, sendo as antas sentinelas e nos mostrando quais são os compostos presentes no ambiente, as comunidades humanas nessas regiões estariam também expostas  a esses químicos”, disse a pesquisadora.

A pesquisa sobre presença de agrotóxicos e metais em antas foi realizada entre 2015 e 2018. Durante esse período, foram analisadas amostras biológicas das antas, principalmente de carcaças frescas de animais atropelados ao longo de 34 rodovias do Mato Grosso do Sul.

Nos animais amostrados foi possível detectar 13 compostos químicos diferentes, incluindo nove pesticidas e quatro metais.

Brasil dos agrotóxicos

O Brasil é um dos países mais permissivos quando se trata de agrotóxico no mundo. Nos países da União Europeia, por exemplo, a concentração de glifosato na água não pode ultrapassar 0,1 µg/l. No Brasil, esse limite é de 500 µg/l, ou seja, 5.000 vezes maior.

O Centro-Oeste é a região que mais comercializa agrotóxicos no país. Em 2020, segundo dados do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), a região vendeu 237 mil toneladas de agrotóxicos, o que representou 37% do total vendido em todo país naquele ano. O Mato Grosso do Sul, sozinho, comercializou cerca de 19 mil toneladas de glifosato no período.

Altas concentrações de herbicidas no corpo humano podem causar pruridos e lesões na pele, disfunção do fígado e rins, mal-estar, náuseas e vômito, diarreia, tremores, alteração do humor, perda da memória e insônia, entre outros sintomas.

“A gente espera que, com esse conjunto mais amplo de resultados, seja possível iniciar uma conversa com os órgãos governamentais, os laboratórios, as empresas do agronegócio que estão envolvidas com essa cadeia de utilização dos agrotóxicos em nosso país”, diz Medici.

  • Cristiane Prizibisczki

    Jornalista com quase 20 anos de experiência na cobertura de temas como conservação, biodiversidade, política ambiental e mudanças climáticas. Já escreveu para UOL, Editora Abril, Editora Globo e Ecosystem Marketplace e desde 2006 colabora com ((o))eco. Adora ser a voz dos bichos e das plantas.

Leia também

Salada Verde
6 de fevereiro de 2026

Governo suspende licitação de dragagem no Tapajós após mobilizações indígenas em Santarém

Após protestos em Santarém, governo suspende pregão de dragagem e promete consulta a povos indígenas do Tapajós

Salada Verde
6 de fevereiro de 2026

Fotógrafo brasileiro vence prêmio internacional com ensaio sobre água e identidade

João Alberes, de 23 anos, conquista espaço no ambiente da fotografia documental, e projeta o agreste pernambucano como território de produção artística contemporânea

Salada Verde
6 de fevereiro de 2026

Pela 1ª vez, ICMBio flagra onça pintada caçando em unidade do Acre

Registro foi feito às margens do Rio Acre, em uma das áreas mais protegidas da Amazônia. Onça tentava predar um porco-do-mato perto da base do Instituto

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.