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O que o resgate do aleitamento materno ensina sobre práticas naturais na agricultura

O movimento atual para diminuir o uso de insumos químicos no campo guarda semelhanças com a campanha bem sucedida para reduzir a dependência nas fórmulas infantis

8 de julho de 2026

Quem foi mãe nos anos 1960, 70 ou 80 conhece bem essa história. Chegava-se à maternidade e, antes mesmo de qualquer dificuldade real na amamentação, já pairava uma dúvida plantada na mente da mulher: será que esse leite é suficiente? Será que essa criança não vai passar fome? Não seria mais seguro, mais prático, mais “moderno” complementar, ou até substituir, com uma fórmula? 

Hoje, mesmo com menos pressão, essa questão ainda ronda a maternidade. Toda mãe que amamenta exclusivamente com leite materno já deve ter ouvido algum palpite de parentes ou amigos, como: “com fórmula ele vai dormir melhor!”, ou “será que não é melhor dar fórmula para engordar um pouco mais?”.

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Essas dúvidas sobre a eficácia do leite materno não nasceram sozinha. Elas foram construídas por interesses de mercado. Ao longo do século XX, a indústria de fórmulas infantis investiu pesado em convencer famílias, e especialmente mulheres, de que o corpo delas não era o suficiente para nutrir um ser humano. A amamentação foi retratada como algo incerto, desgastante, cheio de percalços. A fórmula, em contraste, prometia praticidade, autonomia em relação ao bebê, controle e, muitas vezes, insinuava-se como nutricionalmente superior ou equivalente ao leite materno, apesar de faltar respaldo científico para tais alegações.

Hoje, as evidências científicas são claras: fórmulas industrializadas não conseguem oferecer os mesmos benefícios de nutrição, saúde e desenvolvimento que o leite materno, e ainda assim o marketing agressivo continua. 

Não estamos dizendo que a fórmula seja sempre desnecessária. Muitas vezes, por motivos diversos e razões urgentes, é a fórmula que salva vidas. O problema é a lógica de convencimento que busca vender o produto para mães em casos onde o leite materno por si só bastaria, e para fazer a mulher se sentir insuficiente diante de algo que seu corpo, na maioria dos casos, é plenamente capaz de fazer.

Essa história de manipulação é familiar em outras áreas. Estamos falando exatamente da mesma lógica que se repete na indústria de produção de alimentos: a de que a terra, o solo, por si só, não é capaz de produzir bem.

Durante décadas, consolidou-se a ideia de que o que é encontrado na natureza não é suficiente para nutrir e garantir a produtividade de uma lavoura. Crescemos com o entendimento de que fertilizantes industrializados, insumos sintéticos, até agrotóxicos, são essenciais para colher bem – e em escala – e benéficos para o desenvolvimento econômico. Essa ideia foi pulverizada por todo modelo produtivo do agronegócio. 

E, assim como no caso da amamentação, a narrativa propagada sustenta um dos negócios mais lucrativos do agronegócio mundial. Hoje, o Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza. Esse número está concentrado majoritariamente em poucos, sobretudo China e Rússia. Essa dependência tem um impacto alto para o campo e para a mesa dos brasileiros. Quando o preço internacional dispara, como aconteceu agora com o conflito entre os EUA e Irã no Oriente Médio, os gastos na produção aumentam, e a inflação dos alimentos sobe. Outro ponto é em relação à biodiversidade e à saúde humana. O uso excessivo de fertilizantes nitrogenados trazem impactos à natureza, poluem aquíferos, rios, viciam o solo, enfraquecendo-o. Pesticidas atingem polinizadores e organismos benéficos. Fecha-se um ciclo de dependência. Quanto mais fertilizantes e pesticidas são utilizados, mais eles são necessários.

Diante desse cenário, surge a questão: assim como uma mãe alimenta seu bebê, não seria a natureza também capaz de nutrir com os próprios recursos o solo cultivado, trazendo mais saúde para terra e para a população? A resposta é: sim. E a prática está com o produtor há milênios. Hoje, chamada de bioinsumos. Produtos feitos a partir de microorganismos (fungos e bactérias), plantas ou matéria orgânica, os bioinsumos fortalecem o solo e protegem as lavouras. Ao estimularem processos naturais, usam a própria força da natureza para garantir a produtividade. Com o tempo, isso significa solos mais saudáveis, resilientes às mudanças climáticas, mais economia e menos impactos ambientais.

Os bioinsumos são opções viáveis, rentáveis e com impactos positivos na produtividade cientificamente comprovados. Ainda assim, perderam o campo para a indústria química com o passar dos anos. No entanto, há um espaço para estimular e fomentar o uso dos bioinsumos, que tem potencial para crescer no Brasil. Dados da organização CropLife mostram que no ano passado, a área tratada com bioinsumos no país alcançou 194 milhões de hectares, com avanço de 28% sobre 2024.

O retorno para os ingredientes naturais está ganhando tração. Há novas campanhas ajudando a resgatar as práticas tradicionais e adotar outras modernas baseadas em soluções naturais. Uma delas é a campanha  Agora é Bioinsumos. Reunindo organizações como Folio, AS-PTA, Unicafes, iBiomas, WRI Brasil, o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar e a Frente Empresarial para a Regeneração da Agricultura (FERA), a iniciativa leva ao produtor rural informação clara sobre o que são bioinsumos, como produzi-los ou adquiri-los e quais benefícios reais eles trazem para a lavoura, para o bolso e para a saúde de quem planta. A terra, cuidada com técnica e respeito, também basta. Como o leite materno, ela não é “fraca”.

O caminho já está sendo trilhado, e por produtores reais. A agricultura regenerativa tem plantado nos campos brasileiros o exemplo e a esperança de que é possível produzir melhor, com mais saúde, com menos gastos, menos dependência externa e mais segurança e produtividade. E para isso, olha só: não existe fórmula mágica. É só trabalhar com a natureza para o que ela desempenhe aquilo que faz desde que o mundo existe: gerar.

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