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Quem paga a conta do clima?

Reprodução de discursos coloniais silenciam os impactos desiguais causados pela crise climática; Estudo do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental analisa discursos sobre justiça climática

19 de janeiro de 2026
  • Eloisa Beling Loose

    Professora e pesquisadora da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). Doutora em Comunicação pela UFRGS e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela UFPR (Universidade Federal do Paraná).

  • Nico Costamilan

    Estudante de Jornalismo da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e bolsista de extensão do Observatório de Jornalismo Ambiental, vinculado ao Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Com o fim da COP30, diminui a atenção midiática sobre as mudanças climáticas, que é atravessada pela lógica de uma novidade imediata. Entretanto, seguimos imersos na crise climática, um problema que, segundo os cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), continuará a ter consequências no médio e longo prazos, mesmo que as emissões de gases de efeito estufa sejam interrompidas. Mas, quem fala das assimetrias desta situação?

Conforme relatório recentemente divulgado da Oxfam Internacional, 1% da população mundial, equivalente ao grupo dos super-ricos, consumiu em apenas dez dias de 2026 toda a sua cota anual “justa” de emissões de carbono, compatível com a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C. Na outra ponta, as pessoas mais pobres são as que menos contribuem e as mais suscetíveis aos impactos dos efeitos climáticos, pois têm menos recursos para se adaptar ou se recuperar de eventos extremos.

A justiça climática é uma perspectiva que compreende as mudanças climáticas não apenas como um fenômeno ambiental, mas como uma questão ética e de direitos humanos. No artigo “Discursos sobre as (in)justiças climáticas na Amazônia em reportagens da COP30 na Sumaúma” publicado recentemente por integrantes do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS), é indicado que o conceito herda os princípios da “justiça ambiental”, surgida nos anos 1960 contra o racismo ambiental, e enfatiza a distribuição desigual dos riscos e benefícios do desenvolvimento.

Diante do desafio da emergência climática, as decisões globais pelo clima ampliam o aspecto econômico: quem paga pela transição energética de energias fósseis para energias renováveis? Quem financia os fundos de auxílio para os países mais afetados? Quem deve arcar com os custos da recuperação de uma cidade ou região após a eclosão de um desastre climático?

Tema crucial nas discussões sobre o meio ambiente, como a Conferência das Partes (COP), a perspectiva econômica ocupa boa parte das manchetes. Ainda assim, é essencial não deixar passar despercebido o impacto social da crise climática sempre que nós, jornalistas, cobrirmos o assunto. 

O estudo realizado analisou os discursos sobre justiça social e clima em duas reportagens sobre os preparativos para a COP30, no veículo Sumaúma, especializado na cobertura ambiental. Demonstra-se que há um rompimento com a cobertura do jornalismo tradicional ao priorizar perspectivas decoloniais e dar voz a populações historicamente marginalizadas, como a população indigena. 

O texto traz a diferenciação da Justiça Redistributiva (dívida climática, emissões históricas), Justiça Transformativa (cosmovisões além das estruturas coloniais, críticas ao status quo) e Justiça Participatória (reivindicação por participação nas e decisões políticas). A partir disso, destaca que a cobertura do jornalismo ambiental de Sumaúma ressalta a participação popular na política diante das discussões sobre o clima, expondo as contradições entre interesses econômicos de grandes poluidores e a realidade dos povos originários e da população local.

Ao visibilizar cosmovisões indígenas e críticas ao modelo capitalista, o estudo aponta que o jornalismo ambiental engajado é essencial para combater a colonialidade climática – a perpetuação da desigualdade que atinge o Sul Global em diversas áreas. 

“Fazer ecoar as demandas locais e ouvir as populações que têm relação direta com a floresta é importante para diversificar as visões sobre a crise climática e pensar em alternativas para o futuro. A Amazônia e seus povos só poderão ser incluídos nos discursos da solução caso a multidimensionalidade da justiça climática não seja apagada dos discursos ou reduzida a um contexto macro, no qual a disputa de sentidos entre nós e eles sirva de justificativa para manter tudo como está.” 

Por fim, a publicação reforça a importância de tratar a emergência climática a partir da centralidade da vida e dos saberes locais – e não só na política, mas no jornalismo também. No caso da última COP, excluir a perspectiva amazônida e decolonial é um tiro no pé para as discussões que são o objetivo da conferência. Apenas reproduzir discursos do Norte Global sobre política e economia é insuficiente para enfrentarmos as mudanças climáticas.

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