As notícias da semana são preocupantes e a percepção da crise climática já é incontornável, pois estamos passando pela era dos extremos. O que antes era previsão científica tem se confirmado de forma avassaladora. O El Niño de 2024 ainda ecoa em nossas mentes pelo desastre no Rio Grande do Sul e em função das secas severas e outros impactos Brasil afora. Agora, o El Niño de 2026 já se anuncia, com um potencial agravado pelo superaquecimento do Oceano Pacífico.
Neste cenário de crise, somos impelidos a pensar em como agir, como sociedade, para minimizar os efeitos das mudanças climáticas por meio de ações de mitigação e adaptação. O poder público se movimenta, mas a sensação é de estarmos assistindo a capítulos de uma novela em reprise. A questão central é: até quando vamos tratar o colapso climático com um atraso absurdo nas políticas de adaptação?)
A partir dos estudos em Comunicação, sabemos da importância do jornalismo, do ecossistema midiático e, certamente, do papel fundamental dos midiativistas ambientais para validar e trazer foco ao debate público e fazer com que a prevenção seja uma constante. A mudança climática tem preocupado e movido territórios, reorganizando modos de existência, memórias e práticas coletivas. Ao observar as narrativas de comunicadores indígenas, podemos salientar suas contribuições tanto para a compreensão das graves alterações do clima quanto para as potencialidades de uma outra comunicação, reconfigurada. Trazemos algumas dessas reflexões no artigo publicado recentemente, intitulado “Comunicação indígena e a crise climática no Sul Global: a práxis de midiativistas indígenas brasileiros”.
Por muito tempo, a comunicação hegemônica mediou a existência dos povos originários por meio de agentes estatais ou de instituições que falavam “sobre” eles, em vez de reconhecer seus próprios modos de agir, interpretar e narrar, como reforçam Kaseker e Ota. O midiativismo ambiental surge como uma oportunidade de criticar essa estrutura comunicacional e política. Por meio dos comunicadores indígenas, podemos vislumbrar um novo horizonte para a comunicação.
A pesquisa feita por integrantes do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental adota uma perspectiva decolonial e mobiliza o conceito de cosmopolítica para compreender como esses comunicadores reconfiguram três dimensões centrais do processo: o comunicador, o meio e a mensagem. Em vez de um sujeito individual que apenas “emite” conteúdos, sobressai um agir coletivo e polifônico, articulado à comunidade, ao território e à ancestralidade. No lugar de um meio neutro, ganha destaque a mediação relacional: nem tudo pode ser filmado ou divulgado; há ritmos, protocolos e permissões sagradas que orientam o que deve (ou não) circular publicamente. E a mensagem? Esta não se reduz à mera transmissão de informação; ela evidencia a comunicação como defesa de mundos, estabelecendo-se como uma luta para “sustentar o céu” contra a lógica extrativista do mundo colonial.
Esse deslocamento é decisivo para conectar a comunicação à crise climática. Quando os midiativistas reinscrevem eventos climáticos em narrativas de continuidade histórica e cosmopolítica, eles desnaturalizam a ideia de que o colapso ecológico é “apenas meteorologia” ou “uma série de estatísticas”. O que passa a importar é a relação intrínseca entre território, direitos e modos de vida. Portanto, defendemos que a crise ambiental é também uma crise da colonialidade do poder, do saber e do ser, o que inclui o epistemicídio, com a destruição sistemática de conhecimentos e a desqualificação do Outro como produtor de saber.
Recorda-se que “indigenizar” a comunicação não se trata somente de ampliar a representatividade na tela. A proposta é reconhecer os limites das dicotomias ocidentais que separam natureza e cultura, sujeito e objeto. A comunicação indígena opera no espectro da ecologia de saberes, na qual diferentes conhecimentos coexistem sem que a ciência ocidental se imponha automaticamente como superior.
Em tempos de emergência climática, compreender essa lógica é mais do que uma questão acadêmica. Pode ser o diferencial para que as políticas e os debates públicos modifiquem nossa relação com a natureza e fortaleçam a cultura da prevenção, enquanto ainda há tempo. A práxis comunicativa indígena se insere num modelo de justiça que não se limita à reparação de danos, mas exige respeito e manutenção da vida em todas as suas formas numa visão construída pela visão do Sul Global.
Para quem acompanha a pauta climática, fica a pergunta: se a crise é planetária, por que as respostas continuam tratando partes essenciais do planeta como “silenciosas”? A resposta pode estar na nossa forma de comunicar. A maior parte do jornalismo tradicional foca em narrativas que não escutam, não reconhecem protagonismo e ignoram que outros modos de partilhar o mundo também sustentam o futuro. A diversidade de olhares pode colaborar para além do sentido de urgência e para ações pensadas a longo prazo, tanto para a prevenção e resiliência humana em tempos de catástrofes, quanto para termos um jornalismo mais humanizado e cidadão. Tudo isso nos lembra de que não somos (e nunca fomos) os senhores supremos da natureza. Essa ilusão está na base do aquecimento global que hoje nos assombra, mas cuja origem profunda parece não importar para os donos do poder.
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