Réu no STF por suposta participação num esquema de exportação ilegal de madeira da Amazônia e pré-candidato ao Senado, o agora deputado federal Ricardo Salles (SP) não poupou frases de efeito quando foi ministro do Meio Ambiente.
A lista inclui pérolas como “ir passando a boiada”, “discussão [sobre crise do clima] é inócua” e “preservar sem ideologia”. Outra de suas controversas teses foi a do “boi bombeiro”, que ajudaria a conter incêndios comendo capim seco no Pantanal.
Ok, ele não cunhou a ideia sozinho: foi catapultada junto com a então ministra Tereza Cristina em outubro de 2020, em audiências no Senado. Jair Bolsonaro endossou tudo publicamente, claro.
Mas logo a teoria foi desmontada por verdadeiros especialistas. Afinal, queimadas preventivas não haviam sido totalmente vetadas, e a área torrada e criação de gado solto cresceram juntas no bioma. Ou seja, a boiada não ajudou a conter a dura seca no Pantanal.
Mas, se aqui a narrativa do “boi bombeiro” serviu mais para justificar a expansão da pecuária do que para proteger a natureza, na Europa o pastoreio controlado é levado mais a sério como ferramenta de prevenção. Com recursos da União Europeia e governos locais, a prática alia saberes tradicionais à ciência moderna.
Na Irlanda, a reintrodução da quase extinta cabra Old Irish Goat nos arredores de Dublin ajuda a controlar o tojo e o musgo, plantas que alimentam o fogo. Em Portugal, pastores e rebanhos são contratados para limpar encostas, recuperando práticas seculares enquanto reduzem o risco de incêndios catastróficos. Alemanha e França têm experiências similares.
Na Espanha, uma “brigada” de 3 milhões de cabras e ovelhas atua na Andaluzia. Na Catalunha, cerca de 300 cabras reduziram os focos de incêndio mesmo na pior seca em um século. No entorno da capital Madri, o pastejo de 21 mil animais é monitorado por GPS e aplicativos de celular, num exemplo de como a tecnologia pode potencializar tradições.
Claro, todo esse pastoreio precisa ser acompanhado de perto para evitar erosões ou perda de biodiversidade. Mas a diferença fundamental é que, enquanto países europeus aprenderam a usar a produção no campo a favor do clima, por aqui ainda se tenta vender boi como herói de um incêndio que o próprio agro ajudou a atear.
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