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O colapso climático e humanitário nos tempos de guerra

Enquanto não houver recomposição de mecanismos eficazes de cooperação e responsabilização, tratados internacionais como o das mudanças climáticas serão abandonados em metas e prazos

4 de maio de 2026
  • Carlos Bocuhy

    Presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam)

“O respeito ao direito dos outros é a Paz!”. Benito Juárez, Primeiro Presidente Indígena do México

A intensificação recente de conflitos armados não pode mais ser compreendida apenas como episódios isolados de violência entre Estados ou grupos armados. O que está em curso é um processo mais amplo e preocupante: a desestruturação do multilateralismo, acompanhada de uma crescente desagregação geopolítica e humanitária. Trata-se de uma inflexão histórica que fragiliza os mecanismos de cooperação internacional e compromete os próprios fundamentos da convivência global.

A ordem internacional construída no pós-guerra baseou-se na premissa de que, mesmo diante de disputas, haveria limites normativos capazes de conter a barbárie. Esse compromisso materializou-se em instrumentos como o Direito Internacional Humanitário (conhecido como Direito de Guerra) e nas Convenções de Genebra, que estabeleceram parâmetros mínimos para a proteção de civis e de infraestrutura essencial.

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Entretanto, os conflitos contemporâneos revelam um afastamento progressivo dessas normas. O bombardeio de áreas civis, a destruição deliberada de hospitais, sistemas de água e energia, e o uso desproporcional da força indicam não apenas violações pontuais, mas uma tendência de normalização da exceção. Quando a exceção se torna regra, o direito perde sua função de contenção – e a guerra passa a operar sem limites cedendo lugar à barbárie institucionalizada pela exceção. O exemplo inegável disso é a tecnologia destrutiva dos mísseis e drones lançados sobre áreas urbanas. 

Só que a guerra, para a humanidade, há muito deixou de ser exceção. Vivemos um contínuo de centenas de conflitos que por vezes se ampliam para escalas extremamente impactantes, como a que ocorre nos dias de hoje no Oriente Médio.

Esse cenário não pode ser dissociado da crise do multilateralismo. Ele intensifica os efeitos vividos nestes tempos de falência do multilateralismo. Instituições como a Organização das Nações Unidas e seus braços supragovernamentais enfrentam dificuldades crescentes para mediar conflitos e garantir a aplicação de normas internacionais. O enfraquecimento de mecanismos coletivos de decisão, somado à fragmentação de interesses geopolíticos, reduz a capacidade de resposta coordenada da comunidade internacional. Ao mesmo tempo, instâncias de responsabilização como o Tribunal Penal Internacional tornam-se alvos de contestação política, o que limita sua efetividade.

A consequência direta é a desagregação geopolítica. O sistema internacional torna-se mais instável, mais fragmentado e menos previsível. Alianças são tensionadas, compromissos são relativizados e a lógica da cooperação cede espaço à lógica da defesa e da força. Em um ambiente assim, o cumprimento de acordos internacionais – inclusive os de direitos humanos e proteção ambiental – passa a depender cada vez mais de conveniências estratégicas, e não de obrigações jurídicas.

A desagregação geopolítica trazida pelo cenário da guerra revela a erosão dos tratados internacionais não apenas como efeito colateral – mas como parte central do processo. Exemplo disso é o evidente descaso para com um dos objetivos basilares do combate à mudança climática, a busca de um mundo distante dos combustíveis fósseis, da gênese da crise climática.

A desestruturação humanitária está intrinsecamente conectada à degradação ambiental. A destruição de cidades e territórios libera contaminantes, compromete solos e recursos hídricos e elimina sistemas de saneamento e controle ambiental. A ausência de governança, típica de contextos de conflito, abre espaço para a exploração predatória de recursos naturais, agravando ainda mais o quadro de degradação.

Além disso, a guerra contemporânea contribui para o agravamento da crise climática global. Operações militares intensivas, incêndios, destruição de infraestrutura energética e uso de combustíveis fósseis ampliam significativamente as emissões de gases de efeito estufa. Em paralelo, populações já fragilizadas tornam-se ainda mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas, criando um ciclo de retroalimentação entre conflito, vulnerabilidade social e crise ambiental.

Enquanto não houver recomposição de mecanismos eficazes de cooperação e responsabilização, tratados internacionais como o das mudanças climáticas serão abandonados em metas e prazos. Isso trará consequências diretas: o aprofundamento da emergência climática não apenas como efeito colateral, mas como intensificação e agravamento da crise ambiental global, ao interromper políticas climáticas, intensificar emissões, destruir sumidouros naturais de carbono e principalmente por instaurar cenário de regressão institucional que compromete décadas de esforços multilaterais.

A guerra não destrói estruturas físicas, mas desorganiza o sentido coletivo da sociedade.

O mundo se afasta da solução dos problemas comuns. O que antes orientava o progresso humano passa a ser subordinado à lógica da guerra. Um exemplo clássico disso é a evidente perda de objetivos existentes na Europa com a eclosão da Primeira Guerra Mundial. A educação foi deslocada para a mobilização militar, a saúde pública abandonada para esforços de guerra, a ciência passou a trilhar os caminhos da tecnologia da destruição e a cooperação internacional transformou-se em exacerbamento da rivalidade.

No plano humanitário, os efeitos são devastadores. A guerra contemporânea atinge diretamente populações civis, promovendo deslocamentos em massa, colapso de sistemas de saúde e ruptura das condições mínimas de sobrevivência. A destruição de infraestrutura essencial transforma territórios inteiros em zonas de inviabilidade social. Não se trata apenas de perdas imediatas, mas de um comprometimento estrutural da capacidade de reconstrução dessas sociedades, com endividamento extremo para reconstrução e décadas de atraso no processo de desenvolvimento das Nações.

Outro aspecto crítico é a erosão da confiança internacional. O multilateralismo depende, fundamentalmente, da confiança entre os atores. Quando há instabilidade global, acordos são sistematicamente descumpridos e normas são relativizadas, então a confiança se dissolve. O resultado é um ambiente internacional marcado por esforços defensivos que apontam para a competição e a incapacidade de construir soluções coletivas para problemas globais – como a própria crise ambiental.

Nesse contexto, ganha relevância o debate sobre a responsabilização por crimes ambientais em guerra, incluindo a proposta de reconhecimento do “ecocídio” como crime internacional. A destruição de ecossistemas em larga escala, associada a conflitos armados, não é apenas um dano colateral – é uma ameaça direta à estabilidade planetária e à sobrevivência das futuras gerações.

A situação atual exige uma reflexão profunda sobre os rumos da governança global.

A erosão do multilateralismo não representa apenas um problema institucional; ela sinaliza uma crise mais ampla de valores e compromissos. A ausência de cooperação efetiva compromete a capacidade da humanidade de enfrentar desafios comuns, que ultrapassam fronteiras e exigem respostas coordenadas.

A defesa do meio ambiente não pode ser dissociada da defesa do multilateralismo e dos direitos humanos. A proteção ambiental pressupõe estabilidade institucional, cooperação internacional e respeito a normas comuns. Em contextos de guerra e fragmentação geopolítica, esses pilares são profundamente abalados.

A guerra contemporânea, marcada pela ruptura de acordos, pelo enfraquecimento das instituições e pela desestruturação humanitária, representa um risco sistêmico. Não apenas pela destruição imediata que provoca, mas pela corrosão das bases que sustentam a convivência internacional.

Reafirmar o multilateralismo, fortalecer os mecanismos de responsabilização e restaurar o compromisso com os direitos humanos e a proteção ecossistêmica do planeta são medidas urgentes e indispensáveis. Sem esses elementos, e um estado de Paz, não haverá condições para enfrentar os desafios ambientais e sociais do século XXI.

Assim, é preciso superar a crise atual, que não é apenas geopolítica. É, sobretudo, civilizatória.

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