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Copa do Mundo das Áreas Protegidas: Grupo C

Brasil, Marrocos, Escócia e Haiti disputam um dos grupos mais interessantes da Copa. Na conservação da natureza, a competição pelas paisagens mais incríveis é de alto nível

Paulo André Vieira ·
17 de junho de 2026

O Grupo C tem toda cara de ser uma das chaves mais traiçoeiras da edição 2026 da Copa do Mundo. Se por um lado o Brasil, dono de cinco títulos mundiais, é sempre cobrado como se levantar a taça fosse obrigação contratual, do outro o esquadrão de Marrocos, que chegou à semifinal em 2022, mostra que uma seleção africana não entra mais em Copas apenas para fazer figuração. Completam o grupo a Escócia, de volta ao torneio depois de longa ausência, e o Haiti, que carrega a memória de 1974 e a ambição de fazer mais do que participar. Em campo, o favoritismo veste verde e amarelo, mas o grupo promete jogo duro. Fora dele, os quatro países também disputam uma partida importante: a da conservação de seus ambientes naturais.

O Brasil entra em campo com o peso de quem já ganhou tudo, mas também com a urgência de quem não levanta a taça desde 2002. A seleção brasileira segue sendo uma das favoritas naturais em qualquer Copa, ainda que nos últimos mundiais tenha tropeçado antes da hora. No campeonato das áreas protegidas, porém, o país tem um elenco estrelado. Amazônia, Cerrado, Pantanal, Caatinga, Mata Atlântica, Pampa e uma imensa costa jogam juntos no mesmo time. O país tem 4070 áreas protegidas, com destaques que vão do Parque Nacional do Iguaçu, casa das cataratas e de uma importante população de onças-pintadas (Panthera onca), ao Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, onde golfinhos, tubarões, tartarugas e corais fazem a festa debaixo d’água. Na Amazônia, o Complexo de Conservação da Amazônia Central, reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO, protege uma das áreas mais ricas em biodiversidade do planeta. No Pantanal, a expansão recente de áreas protegidas reforça a defesa de um bioma que, nos últimos anos, tem sofrido com incêndios cada vez mais severos. O Brasil pode até chegar pressionado à Copa, mas, em biodiversidade, segue sendo cabeça de chave.

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Parque Nacional do Iguaçu. Foto: Kelly da Silva/Wikimedia Commons

Marrocos chega em 2026 com moral de semifinalista. Em 2022, foi a primeira seleção africana a alcançar as semifinais de uma Copa do Mundo e transformou uma campanha improvável em marco histórico. Agora, a missão é provar que aquela arrancada não foi zebra, mas um cartão de visita. Nas áreas protegidas, o país também tem uma defesa bem montada entre montanhas, desertos, florestas e litoral. O Parque Nacional de Toubkal guarda o ponto mais alto do norte da África, no Alto Atlas, e paisagens que misturam neve, vilarejos berberes e trilhas de altitude. O Parque Nacional de Souss-Massa, no litoral atlântico, é uma das joias da conservação marroquina, conhecido pela proteção de aves e ambientes costeiros. Já o Parque Nacional Ifrane, no Médio Atlas, protege florestas de cedro e populações do macaco-de-gibraltar (Macaca sylvanus), espécie emblemática da região. O Parque Nacional de Talassantane, no norte, ajuda a conservar as montanhas do Rif e seus pinheiros endêmicos. Marrocos talvez não tenha o mesmo tamanho territorial do Brasil, mas chega com variedade: do Saara às montanhas, das zonas úmidas às praias, joga com mais de um esquema tático ambiental.

Parque Nacional Toubkal. Foto: Erokhin/Wikimedia Commons

O Haiti é o azarão do grupo, mas a Copa do Mundo também é feita para quem chega disposto a contrariar a tabela. A seleção haitiana disputou o Mundial de 1974, quando caiu em um ingrato grupo junto com Itália, Polônia e Argentina. Em 2026 volta à Copa carregando um peso simbólico grande: representar um país marcado por crises políticas, sociais e ambientais, mas também por uma história de resistência que não cabe no placar. Nas áreas protegidas, o Haiti tem menos quantidade e mais drama. O Parque Nacional de Macaya, no Massif de la Hotte, é um dos principais refúgios de biodiversidade do país e abriga remanescentes de floresta primária, espécies endêmicas e nascentes fundamentais para a península sul. O Parque Nacional La Visite, no Massif de la Selle, protege paisagens de altitude, florestas de pinheiro e possui uma diversidade considerável de vertebrados, incluindo 17 espécies de rãs, 18 espécies de répteis e 74 espécies de aves. Em 2013 o país também declarou uma rede de áreas marinhas protegidas no sul, tentando conservar ecossistemas costeiros e marinhos que sofrem com pressão humana, pobreza e degradação ambiental. Se no futebol o Haiti precisa se defender bem e aproveitar cada chance, na conservação a lógica é parecida: cada hectare protegido faz diferença.

Parque Nacional La Visite. Foto: Angela268/Wikimedia Commons

A Escócia entra na Copa com camisa própria, torcida barulhenta e identidade bem marcada. Apesar de fazer parte do Reino Unido, diferente dos Jogos Olímpicos, na Copa do Mundo de futebol cada um de seus países joga com suas próprias seleções nacionais. Para os escoceses, 2026 tem gosto de retorno: a seleção não disputava uma Copa desde 1998, justamente uma edição em que também dividiu o grupo com Brasil e Marrocos. Agora, tenta deixar de ser apenas um personagem folclórico da arquibancada para beliscar uma vaga na próxima fase. Nas áreas protegidas, a Escócia conta com uma dupla de parques nacionais: o Parque Nacional de Cairngorms, o maior do Reino Unido, com montanhas, rios, florestas e espécies adaptadas ao frio, e o Parque Nacional de Loch Lomond & The Trossachs, um cartão-postal de lagos, vales e montanhas que combina conservação, turismo e comunidades rurais. Além deles, a Escócia conta com reservas naturais nacionais, áreas marinhas protegidas, sítios de especial interesse científico e paisagens protegidas que ajudam a guardar aves marinhas, turfeiras, florestas antigas e ambientes costeiros. Em campo, os escoceses talvez precisem de fôlego extra. Na conservação, já sabem que resistência é parte do jogo.

Parque Nacional de Cairngorms. Foto: Thomas Andy Branson/Wikimedia Common

Juntos, Brasil, Marrocos, Haiti e Escócia formam um grupo que também poderia ser lido como um mapa das urgências ambientais do planeta. Há a megabiodiversidade brasileira, constantemente ameaçada por desmatamento, fogo, garimpo, expansão agropecuária e mudanças climáticas. Há o mosaico marroquino de montanhas, desertos e litoral, onde conservar água, florestas e fauna é tarefa cada vez mais estratégica. O Haiti mostra como áreas protegidas não sobrevivem sem justiça social, recuperação florestal e apoio às comunidades. E na Escócia temos o exemplo de como conservação também envolve paisagens habitadas, turismo, cultura, carbono estocado em turfeiras e proteção do mar.

Na Copa, só alguns avançam de fase. Na disputa pela biodiversidade, porém, não há mata-mata possível: todos precisam continuar em campo.

  • Paulo André Vieira

    Produtor Editorial formado pela UFRJ, atua em ((o))eco desde 2007 escrevendo sobre geojornalismo e cuidando da edição e gestão do site.

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