As interações entre pessoas e fauna silvestre geram tanto benefícios quanto prejuízos. Polinização, dispersão de sementes, controle biológico, turismo de natureza e valores culturais podem vir acompanhados de danos a lavouras e jardins, perda de animais de criação e de estimação, colisões entre veículos e animais, zoonoses, paralisações de obras, judicialização e disputas sobre como lidar com a fauna. Todas essas interações afetam, de diferentes maneiras, a conservação da fauna, o bem-estar das pessoas e a governança dos territórios onde vida silvestre e atividades humanas compartilham o mesmo espaço.
Durante décadas, a gestão da fauna concentrou-se principalmente na proteção de espécies e na mitigação dos impactos negativos associados às suas interações com as pessoas. A perspectiva da coexistência1 propõe uma mudança de paradigma: desloca o foco da gestão da fauna para a gestão das relações entre fauna, pessoas e instituições. Seu objetivo não é eliminar conflitos, mas criar condições para ampliar os benefícios dessas interações e manter seus impactos negativos dentro de limites social e ecologicamente aceitáveis.
Coexistência humano-fauna não é a ausência de conflitos nem um estado ideal de harmonia. É a capacidade de um território gerir as interações entre pessoas e fauna silvestre de forma a sustentar, ao longo do tempo, o bem-estar das pessoas e populações viáveis de fauna. Isso exige instituições capazes de prevenir, mediar e responder aos conflitos inevitáveis de maneira justa, adaptativa e baseada em evidências.
Essa mudança já começou. O Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal, aprovado em 2022, estabeleceu como uma de suas metas o gerenciamento das interações entre pessoas e fauna para minimizar conflitos e promover a coexistência. A agenda já orienta estratégias nacionais de biodiversidade, impulsiona o desenvolvimento de indicadores internacionais e inspira iniciativas como as Diretrizes para Conflito e Coexistência Humano-Fauna da IUCN2. No Brasil, o tema também começa a ganhar espaço em políticas públicas e iniciativas de gestão territorial.
Embora tenha surgido no campo da conservação, essa abordagem vem sendo incorporada em diferentes contextos. Projetos de restauração da paisagem, empreendimentos dos setores de mineração, energia e infraestrutura, iniciativas de silvicultura e programas de conservação começam a integrar a coexistência ao planejamento de seus territórios, reunindo comunidades, empresas, pesquisadores e gestores públicos para antecipar riscos e construir soluções compartilhadas.
Essa expansão aproxima a coexistência de outras agendas contemporâneas, como o ESG, sigla em inglês para práticas ambientais, sociais e de governança que orientam empresas na gestão de riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade. Para muitos setores produtivos, as interações entre pessoas e fauna deixaram de ser apenas uma questão ambiental. Elas influenciam custos operacionais, segurança, reputação, acesso a mercados, licenciamento e a chamada licença social para operar.
Incorporar a coexistência ao planejamento significa identificar riscos antes que se transformem em crises. Significa construir confiança entre os diferentes atores do território, desenvolver uma visão compartilhada sobre o futuro desejado, definir responsabilidades comuns e acompanhar continuamente os resultados para aprender e ajustar estratégias. Mais do que novas tecnologias ou normas, a coexistência depende de pessoas e instituições capazes de mediar interesses e transformar divergências em colaboração.
Mas limitar a coexistência ao universo empresarial seria reduzir seu alcance. Trata-se, antes de tudo, de uma agenda de governança territorial. Sua implementação depende da ação coordenada entre produtores rurais, comunidades locais, povos indígenas, empresas, pesquisadores, organizações da sociedade civil e poder público. Nenhum desses atores, isoladamente, é capaz de construir paisagens onde pessoas e fauna possam coexistir de forma duradoura.
A coexistência humano-fauna amplia a própria ideia de sustentabilidade ao colocar as relações entre pessoas, fauna e instituições no centro das decisões sobre o território. Aprender a coexistir tornou-se uma condição para construir paisagens mais resilientes, legítimas e inclusivas, capazes de promover simultaneamente a persistência de populações viáveis de fauna silvestre e o bem-estar das pessoas.
1 HWCCSG (2026). What is human-wildlife coexistence? Briefing Paper by the IUCN SSC Human-Wildlife Conflict & Coexistence Specialist Group. https://www.hwctf.org/
2 UICN (2023). Diretrizes da UICN CSE sobre conflitos e coexistência entre humanos e animais selvagens. Primeira edição. Gland, Suíça: UICN
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