Análises

Encontro com os Encantados de Olivença, na Bahia

O que começou como um passeio de bicicleta até Olivença terminou em uma imersão na cultura Tupinambá, entre arte, território, ancestralidade e luta por reconhecimento

Renato Rizzaro ·
6 de julho de 2026

Num belo domingo resolvemos dar uma pedalada até Olivença, cidade próxima a Ilhéus, Bahia. Antes da ponte do rio Cururupe, dobramos numa estradinha simpática e sombreada com o charme dos caminhos da roça. Pequenas pastagens, bois na linha até ouvirmos o primeiro stunk-stunk, prenúncio de um loteamento no topo de íngreme subida que, por falta de impulso, fizemos a pé. A devastação da paisagem correu com a gente e retornamos pelo mesmo caminho já com saudades da sombra e dos passarinhos.

Novamente na tensão do asfalto, sem acostamento, vez ou outra um ônibus nos pregava um susto. Mas o domingo estava calmo e o pouco movimento animava a continuar.

Cruzamos a praça de Olivença e até pensamos chegar em Comandatuba, 71 km ao sul de Ilhéus, ideia que se dissolveu no primeiro retão de asfalto. Despreparados para tanto chão, retornamos. Após um delicioso pastel com caldo de cana, encaramos um subidão até a Igreja de Nossa Senhora da Escada, construída pelos jesuítas entre 1692 e 1700. Dali avistamos o mar, as montanhas e parte da Terra Indígena Tupinambá.

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Ao chegar no topo do morro, uma intrigante instalação na calçada, colada ao muro da igreja, com banners, imagens, textos, esculturas, plantas, varal de fotografias, tudo bem cuidado e disposto, nos atraiu feito um ímã.

Ainda cedo, com a rua deserta, tudo nos mostrava que ali estava sendo afirmada a identidade do povo Tupinambá da região, e também uma conexão com Salvador, outra terra Tupinambá. Cada elemento organizado, não como simples exposição; mas, nos levando à uma profunda reflexão. E, assim, ficamos um bom tempo compenetrados naquela performance ao ar livre. 

Do outro lado da rua, alguns livros numa estante da varanda de uma casa atiçou ainda mais a nossa curiosidade. A casa estava fechada e não dava para ver o interior; mas aqueles livros ao alcance das mãos nos chamaram até que alguém, de cocar, nos desejou bom dia. Era Xawã. Simpático e bem-humorado, foi crivado de perguntas até a chegada de sua esposa, Taynã.

A conversa se aprofundava e ficamos suspensos em histórias da vida deste casal de artistas; logo fomos convidados a tomar um licor de jenipapo em sua casa. Iniciava-se um dia inesquecível.

Os Tupinambá

Estão presentes do Oiapoque ao Chuí, como faz questão de afirmar Taynã. No litoral sul da Bahia, entre Ilhéus, Buerarema e Una, habitam uma área de 47.376 hectares que se estende da costa marítima de Olivença até as Serras das Trempes e do Padeiro. O nome Olivença aparece em 1680, quando jesuítas fundaram um aldeamento no local, e também é uma referência a uma vila de Portugal, herança do período colonial.

No final do século XIX, o Estado brasileiro considerou os Tupinambá extintos, negando seus direitos e classificando-os como caboclos ou índios civilizados. Somente no início deste século a Funai os reconheceu como povo indígena e houve a delimitação do seu território, embora até o momento a demarcação final ainda não tenha ocorrido.

Foto: Renato Rizzaro

Espaço Cultural Tupinambá

Para combater o apagamento histórico, Taynã e seu marido, Xawã, fundaram o Espaço Cultural Tupinambá. O museu a céu aberto é um ponto de encontro com livros, figurinos, adereços e outras expressões culturais para recontar a história do Brasil a partir do ponto de vista dos excluídos. Mais do que um acervo, o local é uma trincheira de resistência e um centro de produção de conhecimento sobre a cultura originária.

Taynã e Xawã

Taynã Andrade Tupinambá é uma ativista, conhecida por sua luta em defesa da história e da cultura do povo Tupinambá, nasceu em Nazaré da Farinha, na região do Recôncavo Baiano, às margens do Rio Jaguaripe. “Eu nasci literalmente no Rio Jaguaripe, Rio das Onças. Sou parda, porque sou parente da onça parda.”

Sua principal luta foi o direito de usar o nome Taynã Andrade Tupinambá em seu registro civil, que significa “os primeiros raios do sol”. Após batalha judicial de cerca de 10 anos, ela e seu marido, Xawã Tupinambá, conseguiram retificar seus documentos em 2021. Taynã foi a primeira mulher não aldeada a ter sua etnia oficialmente reconhecida pelo Estado Brasileiro.

Taynã descreve essa conquista como um marco fundamental de afirmação identitária. “Ter esse nome étnico, Taynã e Xawã Tupinambá, é um resgate à memória dos nossos ancestrais”, e destaca o impacto emocional e simbólico da vitória. Essa ação não foi apenas um ato pessoal, mas um processo cuidadosamente documentado que exigiu a atuação da Defensoria Pública e serviu de base para que outros indígenas pudessem reivindicar o mesmo direito.

Taynã não se limita a ações institucionais; ela leva suas demandas às ruas. Protestou em frente à Secretaria da Cultura de Ilhéus contra a ausência de figuras indígenas em murais que retratavam a história da região, denunciando o que chamou de “apagamento da identidade originária” em narrativas históricas oficiais. Define-se como quem atiça a “peleja da academia com a sabença popular! Mestra da cultura popular. Ativista. Deseducadora. Atriz, diretora, artesã e produtora cultural.”

A luta de Taynã e seu marido não se resume à demarcação de terra, mas abrange o direito a uma cidadania que respeite identidade e história. Ao lutar pelo nome, por espaços culturais e por representação em murais, eles reivindicam o direito de existir e narrar suas próprias histórias na sociedade brasileira contemporânea.

O casal Tupinambá é, portanto, uma liderança multifacetada que atua tanto no campo simbólico, luta pelo nome, memória, arte, quanto no campo prático, através de protestos, denúncias, criação de espaços. Sua trajetória ilustra como a luta por direitos indígenas no Brasil passa, necessariamente, pelo combate ao apagamento histórico e pela construção de narrativas próprias, posicionando-os como vozes cruciais na defesa dos povos originários.

Uma bebida inesquecível

Degustando licor de jenipapo, curtido por três anos e fermentado na própria essência sem acréscimo de açúcar ou álcool, nem notamos o tempo passar, envolvidos por histórias ancestrais que Taynã desfiava quase sem respirar. Emocionada sempre que lembrava do pai – homem simples, da roça, sofrido, que viveu mais de cem anos -, Taynã levantava a voz como se estivesse na frente de uma multidão para reforçar a necessidade do resgate, a qualquer custo, da identidade do seu povo. A doçura do licor temperou o amargo da conversa e dali saímos para a rua. Já éramos outros.

Ciceroneados pelo casal, percorremos novamente o Espaço Cultural e soubemos que a transformação levou três anos de trabalho pesado e solitário e está sendo mantido somente por eles. “Em torno da igreja era um lixão, qualquer morador aqui de Olivença sabe disso, ali era um lixão de pneus, cama, sofá, lixo caseiro, o mato crescia até as alturas; o muro todo sujo, era um mau cheiro insuportável; a igreja idem, sem pintura, aquele aspecto feio, de sujeira, de abandono, e aquilo me incomodava por ser um espaço de memória.”

Foto: Renato Rizzaro

Taynã idealizou, elaborou e presenciou a depredação dos banners, das fotos, e também o pouco caso da comunidade e autoridades. Seus banners são escritos em letras maiúsculas para gritar, como ela grita, o que não pode ser escondido, apagado. Mas é.

A emoção toma conta de Taynã quando lembra que caçoavam de seu pai por falar errado. “Mas ele não falava errado! Misturava as palavras do português com o Tupi! Milho ele falava “abati”, mandioca “manioca”, batata era “ybyty’á”, abacaxi ele falava “ïwaka’ti”, açaí era “ïwasa’i”.  Taynã também nos ensinou que no alfabeto Tupi não existem as letras F, L e R.

Pero de Magalhães Gândavo em 1570, escreveu: “Não se acha nela F, nem L, nem R, coisa digna de espanto, pois assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei e, desta maneira, vivem sem justiça e desordenadamente”. A ideia foi propagada como parte de uma visão preconceituosa que associava diferenças linguísticas a supostas inferioridades culturais. Na visão etnocêntrica dos colonizadores, essa diferença foi usada para justificar a “superioridade” da cultura europeia e a necessidade de “civilizar” e catequizar os povos nativos.

Foto: Renato Rizzaro

O Brazil desconhece o Brasil

O Tupi foi a língua mais falada no território brasileiro e funcionou, na prática, como uma língua geral até 1758, quando o Marquês de Pombal proibiu o seu uso, tornando o português a única língua oficial e obrigatória no Brasil. 

Quando os colonizadores aportaram, o Tupinambá era o povo dominante na costa brasileira. Existiam muitas línguas indígenas, e os portugueses não tinham como impor o seu idioma de imediato. O caminho foi aprender a língua mais difundida para se comunicar, comercializar e sobreviver, ou seja, o Tupi.

Os padres jesuítas, com o objetivo de catequizar os indígenas, estudaram o idioma e o sistematizaram em gramática e catecismo. O mais famoso deles foi o Padre José de Anchieta.

Com o tempo, o Tupi deixou de ser apenas uma ferramenta dos jesuítas e tornou-se a língua materna de grande parte da população colonial. Além disso, foi adotada pelos Bandeirantes em suas expedições para o interior do país. Foi por meio dela que eles se comunicaram com os povos originários e exploraram o território, espalhando o Tupi, conhecido como língua geral, por regiões como São Paulo, Goiás, Mato Grosso e Minas.

O Tupi deixou de ser a língua de um povo para se tornar a língua da colonização. Foi a ponte de comunicação entre portugueses, povos originários, inclusive africanos escravizados e seus descendentes mestiços por mais de 200 anos!

Mas a história não para aí. Música, pintura, escultura, culinária, nomes de pássaros, peixes, ruas, cidades resgatam a cada instante o legado dos povos originários. Tupi é uma das culturas fundadoras do Brasil e sua influência não é só um fato histórico, mas uma camada viva e fundamental da nossa identidade cultural, presente na mesa, na música, na arte e na geografia do país.

*Publicado em Roda de Passarinho.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Renato Rizzaro

    Fotógrafo e designer gráfico, iniciou na Folha de São Paulo na década de 70. Passou nas Edições Paulinas, Correio do Vale, até fundar a Area de Comunicação nos anos 80 em Floripa, agência que presidiu por 10 anos. 

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