Essa história, como muitas outras, envolve o sonho de um garotinho, mas que também era sonho de muita gente que nem o conhecia. Gente de longe, lá da cidade, e gente de perto, que vivia e vive da terra e do convívio com as plantas e os animais da Caatinga.
Gente que acredita que há muito mais de belo e importante em manter os modos de vida ligados ao lugar de onde se vem e se vive, de onde se tira o sustento, do que no dito progresso, que chega de supetão, sem avisar direito e querendo tirar proveito de tudo e de todos, como é o caso das usinas eólicas e solares e da mineração de ouro, que avançam implacáveis no sertão central e na região Seridó, do Rio Grande do Norte. Afinal, a gente precisa de energia e de produtos modernos sim, mas precisamos muito mais de meio ambiente equilibrado, qualidade de vida e contemplação da natureza, por que não?

Voltando a mais nova e festejada unidade de conservação da Caatinga, o Refúgio de Vida Silvestre Serra das Araras, localizado na Caatinga do Rio Grande do Norte, tenho pensado cada vez mais que essa área protegida nasce de um sonho, de muita pesquisa científica, e da luta e resistência de diferentes pessoas e movimentos sociais, mostrando que essa união é poderosa e capaz de transformações importantes.
Vou explicar para vocês o porquê eu acho isso, e para isso vou contar uma história.
Lá pela década de 90, um menino chamado Damião Valdenor de Oliveira crescia entre a cidade de Santana do Matos e o sítio Pimenteira, na Serra de Santana, região central do sertão estado, onde morou a primeira parte da infância e depois visitava sua avó paterna.

E por lá, convivendo com a serra e sua natureza exuberante, ele via e ouvia uma arara muito diferente e vistosa que chamava sua atenção, a arara maracanã-verdadeira (Primolius maracana), que hoje dá nome ao refúgio que vamos conhecer sua história daqui para a frente.
O tempo passou e Damião foi para a capital Natal estudar na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e levou consigo o sonho da infância de ver a maracanã-verdadeira da sua infância reconhecida e preservada um dia. Como é de se esperar quando precisamos decidir uma profissão muito jovens, Damião começou a fazer o curso de Matemática, mas não se identificou. A intensa convivência com a natureza na infância e juventude finalmente falou mais alto e logo depois ele resolveu cursar Ciências Biológicas, onde se encontrou pessoal e profissionalmente. Apaixonado pelos passarinhos da sua infância na Serra, ele entrou para o Laboratório de Ornitologia da UFRN, onde conheceu o professor Mauro Pichorim, que comandava uma equipe de estudantes que pesquisava a Biologia e a Ecologia das aves.

No lugar e na hora certa, Damião convenceu Mauro que a Serra de Santana e as maracanãs-maracanãs mereciam atenção, e entre 2009 e 2011 foi desenvolvido um projeto financiado pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza que tinha como objetivo estudar a população de araras no município de Cerro Corá e seus arredores.
Após muitas horas de observação de campo, quilômetros percorridos e conversas com moradores, a equipe de pesquisadores estimou que não existiam mais do que 50 animais e que a quantidade diminuía drasticamente com o passar dos anos. Piorava a situação o fato de que a espécie não tinha ocorrência conhecida para nenhuma outra região do Rio Grande do Norte. Por isso, com a conclusão das pesquisas, foi proposto um plano de ação para conservação da maracanã-verdadeira e do seu habitat, considerando que a espécie é dependente da existência de árvores grandes onde possa fazer seus ninhos em ocos, geralmente esculpidos por pica-paus.
O documento com as recomendações foi entregue aos órgãos ambientais na esperança de que alguma iniciativa fosse tomada, mas as coisas não aconteceram. Infelizmente, o tempo da burocracia e da conservação institucional não respeita o tempo da natureza.

E o tempo passou. Por meados de 2013 foi iniciado o Projeto Caatinga Potiguar, desenvolvido pelo Departamento de Ecologia da UFRN e pela ONG Wildlife Conservation Society (WCS), e que teve o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Rio Grande do Note (IDEMA) como parceiro. Liderado pelos professores Carlos Roberto Fonseca e Eduardo Venticinque, e tendo na equipe também Mauro, Damião, o autor que escreve este texto e mais pesquisadores e pesquisadoras, o projeto percorreu toda a Caatinga do estado procurando áreas e espécies importantes para embasar a criação de novas unidades de conservação, e tendo Damião na equipe vocês já podem imaginar que a área das araras não poderia ficar de fora dessa empreitada.


A partir desse projeto, vários estudos e documentos técnicos foram publicados e reuniões foram realizadas envolvendo os moradores locais e as lideranças institucionais e políticas para mostrar a relevância biológica de pelo menos 10 áreas prioritárias para aves, répteis, mamíferos e moradores locais, incluindo as regiões de Cerro Corá e da Serra de Santana, mas mais uma vez nada aconteceu na área das maracanãs.
Até que entre 2020 e 2021, no meio da pandemia da COVID19, todos fomos pegos de surpresa com o surgimento da proposta de um grande complexo eólico que seria instalado na região, incluindo a área das maracanãs, além de outros empreendimentos que avançaram nas áreas do entorno. Em meio às limitações do isolamento social, isso chamou a atenção e gerou muita preocupação no grupo que integrou o Projeto Caatinga Potiguar, que então se organizou e publicou uma coluna extensa em ((o))eco, onde eram apontados os riscos que representavam (e ainda representam para muitas áreas!) os potenciais impactos das usinas eólicas na biodiversidade e no turismo ecológico da região. O texto ganhou grande repercussão no Rio Grande do Norte e fora dele, e atraiu a atenção de outros pesquisadores, ativistas e moradores das regiões afetadas, entre eles Moema Hofstaetter, Rani Sousa, Joadson Silva, que se uniram a Damião, a mim e a outros atores importantes e daí nasceu o Grupo Seridó Vivo, como um movimento da sociedade civil de resistência e luta pela conservação do patrimônio ambiental e sociocultural do semiárido do Rio Grande do Norte e questionamento dos modos de exploração da natureza pelos grandes empreendimentos.

O Grupo Seridó Vivo causou grande impacto através da participação ativa em audiências públicas e da elaboração de notas técnicas apontando falhas nos estudos ambientais apresentados dentro dos processos de licenciamento ambiental, além da reivindicação de que as áreas de serra preservadas deveriam se tornar unidades de conservação e não usinas eólicas.
Neste contexto, o IDEMA finalmente criou um Grupo de Trabalho para proposição e criação de unidades de conservação em 2023. A partir disso, a proposta de um refúgio para as araras começou a tomar forma, juntamente com o pleito de conservação da Serra do Feiticeiro, outra área extremamente relevante da Caatinga do RN que precisa de atenção para sua última porção livre de aerogeradores.
Entre 2024 e 2025, com a proposta do Refúgio de Vida Silvestre da Serra das Araras finalmente avançando, os estudos técnicos foram realizados e apresentados em audiências públicas organizadas pelo IDEMA para debater os limites, objetivos e regramentos da proposta de unidade de conservação, sob a liderança dos técnicos Liana Sena e Ilton Soares, e com participação de muitos dos atores de contribuíram para todo o processo.
Muitos destes estudos foram fomentados pelas informações produzidas pelos diferentes grupos que estudaram e lutaram pela conservação das araras e das florestas secas de Cerro Corá e região e pela valorização dos modos de vida dos moradores locais, mas sempre com um elemento em comum: Damião.



É graças a ele, e a muita gente, do próprio território e de fora dele, que no último dia 28 de abril (2026), Dia Nacional da Caatinga, a governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra, assinou o decreto que cria o Refúgio de Vida Silvestre Serra das Araras, a maior unidade de conservação da Caatinga do estado.
A mais nova área protegida do estado se estende por mais de 12 mil hectares, contemplando os municípios de Cerro Corá, São Tomé e Currais Novos, e abrigando mais de 230 espécies de aves, incluindo, além da arara-maracanã, o papagaio verdadeiro e o jacu-do Nordeste, e pelo menos 18 espécies de mamíferos terrestres, entre eles quatro espécies de felinos ameaçados de extinção.
A unidade de conservação está na categoria de proteção integral, mas permite a convivência com moradores locais e atividades de baixo impacto, assim como deve fomentar o turismo ecológico e de base comunitária, gerando renda e melhoria da qualidade de vida das pessoas que são as verdadeiras guardiãs da região.


Mas essa história não termina aqui, ela ganha um novo começo. Agora é a hora de implementar efetivamente a área protegida. Para isso, continuaremos trabalhando de forma coletiva e cobrando para que ela se torne efetiva para a biodiversidade, mas também para as pessoas que moram na área e que, enquanto nós trabalhávamos da universidade e dos movimentos sociais, elas estavam lá vivendo e protegendo a Serra das Araras através dos seus modos de vida.
E por isso que eu finalizo dizendo que essa unidade de conservação também faz parte do sonho de Vitória e Damião da comunidade São João, de dona Socorro e seu José Carlos do Pinga, de Seu Severino (Tinô) e sua família das Pamonhas, e do Veinho (Francisco de Assis) e do Bala (Francisco Soares) lá do sítio da Arara.


Que outros sonhos encontrem a oportunidade de se tornar realidade para Damiões, araras e moradores da Caatinga. E para isso, devemos continuar sonhando, produzindo ciência e lutando!
Detalhe, Damião hoje é analista do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e atua em Curaçá, no sertão da Bahia, no projeto de reintrodução da ararinha-azul, que utiliza as araras-maracanãs da região como modelo comportamental e ecológico para auxiliar na soltura das ararinhas. Vale ou não vale a pena sonhar?

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