O Eco+ | Edição #306 | agosto/2026
23 de agosto de 2026
Nesta quinta-feira saiu os resultados do terceiro ciclo do TAC da Carne, projeto do Ministério Público Federal que audita compras feitas por dezenas de frigoríficos em seis estados da Amazônia Legal (Acre, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Tocantins). Segundo a instituição, quase 142 mil bois criados em fazendas desmatadas ilegalmente na Amazônia, com trabalho escravo ou indícios de lavagem de gado viraram bifes no prato de brasileiros e estrangeiros que importam carne nacional. Ao todo, o MPF identificou 141.996 animais abatidos ou exportados com irregularidades socioambientais na fazenda fornecedora. “O desmatamento ilegal, a maior chaga a ser combatida, atinge no máximo 2% das propriedades rurais em relação ao desmatamento ilegal”, corrobora Daniel Azeredo, do MPF do Distrito Federal. A jornalista Naira Hofmeister se debruçou sobre os números. Na média, apenas o Tocantins ficou dentro do índice considerado aceitável pelo MPF, de até 4% de problemas identificados na amostra. Os demais cinco estados, incluindo os maiores rebanhos do país, Mato Grosso e Pará, ultrapassaram a margem de tolerância estabelecida pela instituição. Além das auditorias feitas pelo MPF com a colaboração dos frigoríficos, a instituição rodou análises automáticas para todas as empresas com número de abate relevante na Amazônia Legal. O resultado preocupa. Quase 1,8 milhão cabeças de gado abatidas entre 2023 e 2024 possuem indícios de terem sido criadas em fazendas desmatadas ilegalmente, fruto de invasão de territórios protegidos (terras indígenas, territórios quilombolas e unidades de conservação) ou terem usado mão de obra análoga à escravidão. É um percentual de 65% dos abates, frente a 8,2% das irregularidades detectadas nas auditorias feitas em empresas que colaboram com o MPF fornecendo dados e documentação.
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E por falar em rastreabilidade da cadeia, a China, atual maior comprador de carne e soja do Brasil, pode ajudar a impulsionar boas práticas comerciais e incentivar a melhoria da transparência das cadeias. A repórter Alice Martins Morais conversou com a diretora de Florestas e Uso da Terra do WRI Brasil, Mariana Oliveira, e a analista internacional do Conselho Empresarial Brasil-China, Camila Amigo, sobre a construção de um protocolo bilateral que poderia permitir o reconhecimento mútuo de certificações ambientais e sistemas de rastreamento para produtos como carne e soja. De acordo com a reportagem, o Porto de Tianjin – porta de entrada para parcela significativa da carne bovina brasileira importada pela China – há dois meses aceitou ser o piloto para a implementação da certificação Beef on Track (BoT, para testar o monitoramento e a conformidade socioambiental da carne bovina brasileira, uma iniciativa encabeçada pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora). “A relação Brasil-China já está bem estabelecida e tem um histórico que pode trazer incentivos para produtores e empresas para que possam ser capazes de alavancar mudanças a longo prazo”, afirma Mariana Oliveira, diretora de Florestas e Uso da Terra do WRI Brasil. De acordo com ela, essa aproximação já começou a aparecer na agenda diplomática. Durante a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à China, em maio de 2025, Brasil e China firmaram memorandos para ações como intercâmbio de tecnologias, dados, pesquisas e conhecimentos sobre monitoramento de florestas, pastagens e outras formas de vegetação.
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O tema desta semana da coluna de Alexandre Mansur e Luna Galera foi sobre como a Amazônia está secando e como podemos nos preparar para esta nova realidade. Os sinais registrados pelos pesquisadores na região mostram uma direção bem clara de redução da disponibilidade de água e de enfraquecimento dos ciclos naturais de chuva. O período de estiagem na maior floresta tropical do planeta, que antes durava quatro meses, hoje chega a se prolongar por até seis em partes da região. O regime de chuvas também está mudando, enquanto eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes. Não à toa, o estado do Amazonas está em estado de emergência climática e ambiental desde junho, em resposta preventiva às ondas de calor e queimadas que o El Niño promete intensificar numa floresta já fragilizada pela falta de água. “Para enfrentar esse colapso, precisamos de uma estratégia integrada que combine combate ao desmatamento, gestão do fogo e adaptação às novas condições climáticas. E aqui a floresta em pé precisa ser nossa maior aliada. Além de ser nosso mecanismo natural mais eficiente para mitigar as mudanças do clima, ela é também a solução mais barata: a economia agradece e as futuras gerações também. Produzir melhor com as áreas que já estão abertas, reduzir vulnerabilidades e preparar sistemas agrícolas para um clima mais instável é uma tarefa urgente. Recuperar áreas degradadas, transformando-as em sistemas produtivos que geram emprego e renda, também faz parte dessa agenda. Essa é a receita para a Amazônia não virar savana. E o sistema de chuvas que alimenta todo o Brasil entrar em colapso”, defendem os autores.
Boa leitura!
Redação ((o))eco
· Destaques ·
Frigoríficos da Amazônia abateram 142 mil cabeças de gado ilegal em 2023 e 2024
Relação Brasil-China pode impulsionar rastreabilidade da carne bovina na Amazônia
Amazônia está secando. O que podemos fazer
· Conservação no Mundo ·
Not guilty. Autoridades do estado da Flórida, nos EUA, isentaram uma startup controversa de acusações de negligência criminosa após a morte de dezenas de bichos-preguiça capturados na natureza e importados da América do Sul para fins turísticos. O Gabinete do Xerife do Condado de Orange (OCSO) iniciou uma investigação após o fechamento das instalações da Sloth World, em abril deste ano. Em 19 de agosto, o órgão divulgou suas conclusões; o detetive Aaron Bennet, do OCSO, afirmou que as 57 mortes “parecem ser compatíveis com um incidente de saúde animal multifatorial, e não resultado de atividade criminosa ou cuidados inadequados”. Como parte da investigação, Bennet ouviu 20 testemunhas, incluindo administradores e ex-funcionários da Sloth World, bem como veterinários do Zoológico e Jardim Botânico da Flórida Central, onde vivem atualmente os bichos-preguiça sobreviventes. [Mongabay]
Cem anos depois. Uma lontra foi avistada no rio Bronx pela primeira vez em mais de 100 anos, em mais um sinal de que os cursos d’água de Nova York, antes extremamente poluídos, estão recuperando parte de sua saúde ecológica. A lontra-de-rio-norte-americana foi fotografada por uma câmera acionada por movimento enquanto procurava alimento próximo à vegetação no rio Bronx, um curso d’água que atravessa o distrito do Bronx, em Nova York, e deságua no East River. “Quando analisei as imagens pela primeira vez, mal pude acreditar no que estava vendo”, afirmou Hawkins. “Saber que este pode ser o primeiro registro documentado de uma lontra no Bronx em várias gerações foi um momento incrível. Isso mostra por que o monitoramento da fauna silvestre a longo prazo e os esforços de restauração ambiental são tão importantes.” [The Guardian]
· Dicas Culturais ·
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Desenhar a ferocidade de uma onça em 10 passos | Nurit Bensusan e Mariana Zanetti
Neste lançamento da Editora Caixote, as autoras se encontram para desafiar os leitores a refletir sobre como se desenha não apenas uma onça, mas a sua ferocidade. Será que tem forma? Quem sabe até pintas? Ou listras? Ela é grande ou pequena? Desenhar a Ferocidade da onça em 10 passos é um livro original, que mergulha, ao mesmo tempo, no universo do desenho (e suas inúmeras possibilidades) e na imensidão da natureza (e suas infinitas descobertas).
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Na Medida do Impossível | Amda
Escrito pelo jornalista Marcelo Freitas, o livro percorre a história da Associação Mineira de Defesa do Ambiente (Amda) desde sua fundação, em 1978, e acompanha as principais transformações da política e do movimento ambiental ao longo das últimas décadas. Na obra, o autor cumpre uma dupla função: é narrador e, ao mesmo tempo, personagem da história que conta, tendo acompanhado de perto momentos importantes da trajetória da entidade. Dividido entre a chamada ‘Era da Construção’ e a ‘Era da Desconstrução’, o livro apresenta os movimentos, debates e conquistas que contribuíram para a formação da política ambiental e chega ao atual momento de inflexão, marcado pela atuação de diferentes agentes e forças que, segundo a obra, contribuíram para a desconstrução de políticas e mecanismos de proteção ambiental construídos ao longo de décadas.
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Como a Transamazônica transformou a vida de um povo indígena de recente contato | TV Folha
A Transamazônica é uma rodovia inacabada cujos primeiros trechos, pensados pela ditadura para conectar o Norte do Brasil ao Nordeste, foram inaugurados na década de 70. Desde então, os impactos de uma obra desse porte sobre os territórios indígenas, agora colados à rodovia, só aumentaram. Para os pirahãs, um povo de recente contato, no sul do Amazonas, os efeitos são ainda mais graves. A destruição do rio, trocas comerciais injustas e a degradação da floresta, com exploração ilegal de madeira, levaram a uma realidade de insegurança alimentar à terra indígena. Além disso, os surtos de malária persistem por anos. Os pirahãs então se organizaram para, junto com alguns homens brancos, tentar resgatar a qualidade de vida no território.






