Análises

Ruralistas no caminho III

De Germano Woehl Jr. www.ra-bugio.org.br Novamente, a matéria comete um equívoco ao deixar de mencionar que a Mata Atlântica já é protegida pelo Decreto 750. E também não menciona que o PL 3285, o PL da devastação, libera o desmatamento do que resta da Mata Atlântica (artigos 14 e 23), num momento em que a pressão para ampliar as áreas de reflorestamento de pinus e eucalipto é intensa. Empresas do setor de reflorestamento estão fazendo parcerias e comprando reflorestamentos recém implantados de pequenos proprietários. A ONG SOS Mata Atlântica, presidida pelo principal sócio de uma das maiores empresas do setor de papel e celulose (que depende de matéria-prima barata, ou seja, da abundância de reflorestamentos de pinus e eucalipto), tem omitido esse pequeno detalhe nas campanhas que prega. O PL da desvastação permite também a volta das madeireiras para atacar os últimos fragmentos e a volta dos vendedores, às margens das rodovias, de bromélias e orquídeas saqueadas de áreas protegidas, que podem desestruturar os produtores comerciais, provocando desempregos formais (com carteira assinada). Outro erro da matéria é induzir o leitor a acreditar que basta uma lei para proteger alguma coisa. Que bom seria se isso fosse verdade! Não precisaríamos nem de tranca nas portas de nossas residências. Nada é capaz de deter a ganância do ser humano. Por isso o PL-3285, que libera tudo, é uma grande ingenuidade. Ignora o que aprendemos com a história e com a ciência. É uma lógica perigosa, que não terá volta. Não haverá meios legais de impedirmos a devastação total do que resta da Mata Atlântica. A curto prazo, a lucratividade de reflorestamentos com pinus e eucalipto é imbatível. O fato do PL estar tramitando há 14 anos demonstra que já está ultrapassado, e precisa de uma profunda revisão, portanto. Os conhecimentos científicos, mesmo se tratando das florestas tropicais, avançam com velocidade supersônica. O aumento da pressão por novas áreas para o plantio de pinus e eucalipto também só foi sentida mais fortemente nos últimos 4 ou 5 anos, e a indisponibilidade de áreas enfrentou uma concorrência terrível com a cultura da soja. Portanto, os investidores do setor de papel e celulose precisam da área dos 7% restantes de Mata Atlântica para terem matéria-prima barata e abundante, requisitos essenciais para garantia de lucros fabulosos, ou seja, precisam dessas áreas para expansão do reflorestamento de pinus e eucalipto. De modo que PL-3285, da devastação, é bem vindo para o setor. Atenciosamente,

Redação ((o))eco ·
24 de abril de 2006 · 21 anos atrás

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