Análises

Patrimônio Mundial da Humanidade?

A Floresta da Tijuca tem os atributos que a UNESCO exige a um Sítio do Patrimônio Mundial. Mesmo assim, a candidatura foi rejeitada. Por que?

Pedro da Cunha e Menezes ·
7 de fevereiro de 2011 · 15 anos atrás
 

Tijuca Mirim e Pedra do Conde, vistas do Pico da Tijuca (foto: Pedro da Cunha e Menezes)
Tijuca Mirim e Pedra do Conde, vistas do Pico da Tijuca (foto: Pedro da Cunha e Menezes)
Recentemente caiu-me nas mãos o dossier da candidatura da Floresta da Tijuca a Patrimônio Mundial da Humanidade. Quando fui diretor do Parque estive envolvido no princípio dessa iniciativa, cujo grande mérito, contudo, é de José Pedro de Oliveira Costa. Depois, exonerado, afastei-me da preparação do dossier e nem cheguei a vê-lo antes de ser entregue à UNESCO.
 
A Floresta é sem dúvida um bem único e icônico. Tem os atributos que a UNESCO exige de um Sítio do Patrimônio Mundial. Mesmo assim, a candidatura foi rejeitada. Por que? O dossier é rico em informações e está bem escrito mas, a meu ver, atira longe do alvo. Defende o corriqueiro e relega o extraordinário a um canto de página.
 
A Floresta não é depositária de espécies endêmicas e únicas nem protege um ecossistema raríssimo, características destacadas pela defesa da Candidatura.O que a Tijuca tem mesmo de especial e pioneiro é sua história, sobretudo sua gênese. É uma Floresta quase nativa, criada pelo Homem. Inteiramente replantada. Esse é o legado que merece o estatuto de proteção outorgado pela UNESCO. A Tijuca é um monumento à capacidade da natureza de se regenerar, transformando uma enorme plantação de café em uma exuberante Mata Atlântica. Basta vontade política e uma (ou algumas) mãozinha(s).
 
Se hoje o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) tem um projeto para que sejam plantadas um bilhão de mudas ao redor do mundo, há 150 anos o então provinciano Império do Brasil já mostrava que era possível recriar uma Floresta a partir do zero. Mais do que a Floresta em si, esse processo sim é merecedor do galardão!
 
Sugiro refazer o dossier enfatizando essas características que deveriam servir de exemplo para o Mundo inteiro. É possível recuperar a natureza. A Tijuca é o primeiro exemplo mundial disso, e por isso merece ser elevada a Patrimônio Mundial da Humanidade.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Reportagens
21 de abril de 2026

A conservação mantém de pé a economia que o mar produz

Como uma natureza conservada sustenta milhares de empregos, renda e atividades produtivas no litoral brasileiro

Reportagens
21 de abril de 2026

Besouros: por que criar um Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para seu estudo

Instituto Nacional de Coleoptera (INCol) deverá revelar novas espécies e gerar soluções para a conservação e uso de espécies de interesse econômico

Notícias
21 de abril de 2026

Estudo aponta que metas climáticas do Brasil dependem de direitos territoriais indígenas

Relatório do IPAM e do Ministério dos Povos Indígenas destaca protagonismo na proteção florestal, mas aponta barreiras no acesso direto ao financiamento climático

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.