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A corrupção e o desabafo do taxista de Belém

Uma conversa revela que o quanto vale o tempo perdido no trânsito e a agonia que isso produz nas pessoas que vivem imersas na sua lentidão.

24 de junho de 2013 · 13 anos atrás
  • Paulo Barreto

    Sonha com um mundo sustentável e trabalha para que este desejo se torne realidade na Amazônia. É pesquisador Sênior do Imazon.

Trânsito de Belém das 18:00 às 19:00 horas, por Emerson Warne.
Tentar diferenciar esse primeiro parágrafo com itálico e uma fonte diferente. Há cerca de um mês, escrevi sobre o incidente abaixo que revelava o barril de pólvora em que se transformou o trânsito em Belém do Pará. Agora, os barris no Brasil inteiro estão explodindo.

Há uma semana, chovia à noite e peguei um taxi para ir ao cinema em Belém. O trânsito, como tem sido comum, estava muito lento. Depois de 20 minutos no engarrafamento, perguntei ao taxista se não haveria um caminho alternativo. Daí, ele começou um longo desabafo sobre como a corrupção afeta sua vida.

Ele disse que o trânsito estava continuamente engarrafado em Belém e que não havia alternativa. Depois que o governo municipal começou e não terminou a obra do sistema de ônibus rápido (BRT) na principal avenida de Belém, o trânsito fica engarrafado na saída da cidade e consequentemente trava o restante.

Aqui é preciso explicar para quem não reside em Belém. Em 2012, a prefeitura fechou duas pistas da principal avenida da cidade para construir o BRT. Por causa de irregularidades e má administração, a obra está paralisada. O novo prefeito está tentando retomá-la, mas por enquanto continua parada.

De volta ao taxista. Exaltado, ele prosseguiu desabafando:

• As eleições tem sido apenas uma troca de ladrões na cadeira de prefeito.
• Com um trânsito caótico, ele fica estressado. Às vezes, preso no trânsito, ele tem vontade de largar o carro e sair correndo.
• Quando chega tarde em casa, não tem paciência em ouvir a família que quer discutir os problemas familiares.
• Por causa dos engarrafamentos, acaba ficando cerca de 15 horas por dia na rua e não tem dado a atenção necessária aos filhos.
• Antes, ele levava os filhos a escola no táxi antes de seguir para o trabalho. No caminho, era uma festa com os filhos. Como agora tem que sair mais cedo, deixou de levar os filhos que vão depois de ônibus. O filho reclama da falta de convivência.
• Se continuar assim, ele acha que pode ter um infarto. Por isso, está pensando em mudar de profissão.

Depois de 40 minutos, chegamos ao cinema. Sem engarrafamento seriam 10 minutos.

Fiquei imaginando os milhares de desabafos que os motoristas e passageiros de Belém gostariam de fazer sobre como os engarrafamentos impactam suas vidas.

Que bom seria se os políticos circulassem pelas ruas fora do período eleitoral para ouvir estes desabafos. E depois, sensibilizados, mudassem suas práticas.

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