Análises

Lições das árvores, da Amazônia à Califórnia

Em homenagem ao Dia da Árvore, a editora Karina Miotto conta lições que aprendeu ao escalar árvores de diferentes alturas pelo mundo

Karina Miotto ·
21 de setembro de 2011 · 10 anos atrás
Foto: Arquivo Pessoal.

Desde pequena gosto muito de árvores. Cresci subindo no pé de manga de um sítio de família no interior de São Paulo. Várias gerações brincaram naquela mangueira – além de meus tios avós, donos do quintal, seus filhos e netos, meus pais, minha irmã, primas e primos que vieram depois de mim já subiram várias vezes no pé de manga. Virou tradição familiar. Com a mangueira que hoje tem 60 anos de idade passei a compreender melhor o mundo desses seres que os povos nativos americanos chamam de “Povo-em-Pé”.

Diz Jamie Sams no livro As Cartas do Caminho Sagrado: “o Povo-em-Pé fornece oxigênio ao resto dos filhos da Terra. Através de seus troncos e de seus galhos, dão abrigo aos seres que têm asas. No vão de suas raízes fornecem asilo a pequenas criaturas de quatro patas que vivem abaixo do solo. Os materiais para a construção das casas de seus companheiros humanos constituem outro presente que a Nação Árvore nos oferta. O Povo-em-Pé percebe as necessidades de todos os filhos da Terra e se esforça por atendê-las. Cada árvore e planta possui seus próprios dons, talentos e habilidades a serem compartilhados”. Descobri que estes talentos vão bem além de folhas, frutos, raízes, sombra, madeira.

A autora se divide entre manejar o equipamento de escalada e posar para a foto. Foto: Arquivo pessoal.

A primeira vez que escalei uma árvore com ajuda de mosquetão, corda e cadeirinha foi em 2007. Estava no Amazonas. De cima do mogno compreendi o que escaladores profissionais chamam de “mundo do ponto de vista das árvores”. Lá de cima, a vista é outra. Pode parecer óbvio, mas quando se está na copa é que temos uma dimensão real de sua altura e do que avistamos lá de cima. Acho que levei isso mesmo a sério.

A redwood

Em 2008 a conheci. Ela era uma redwood, árvore literalmente gigante – uns 70 metros de altura, 1500 anos de idade. O objetivo era escalá-la com técnicas que aprendi em um curso de tree climbing enquanto morei nos Estados Unidos. Meu instrutor estava comigo e nossa missão naquele final de semana era subir na “velha senhora”.

Como o tronco é enorme, subi rápido e focada nele. Sem olhar para os lados, só via ele. De longe ouvi um barulho se aproximar. Era o vento, balançando lentamente todas as copas daquele imenso vale montanhoso da Califórnia. Chegou. Bateu em mim e a dona redwood começou a balançar. Foi aí que me dei conta da altura em que estava, quando vi o carro minúsculo parecendo um Playmobil. Ele percebeu o susto, quis conversar para me acalmar, mas não teve jeito. Só consegui segurar em um de seus galhos com os dois braços bem abertos – que não deram conta de agarrá-lo por inteiro – e silenciar. Precisei sentir aquela árvore, me conectar com Luna, nome que dei para minha amiga em homenagem à Julia Butterfly Hill.  Descemos, mas aquela redwood não saiu da minha cabeça a semana inteira.

Era como se fosse um chamado, como se eu tivesse voltado para casa com a missão incompleta, ainda faltava algo e eu não sabia o que. Decidi voltar no mesmo lugar na semana seguinte. Desta vez, meu instrutor não subiria comigo. Lição aprendida, passei a escalar Luna olhando lentamente para os lados, por causa da altura. Subi de frente para o tronco e também de costas para ele, atenta ao mundo visto lá de cima. Pude respirar com calma e sentir o perfume do ar, ouvir com atenção os pássaros ao redor.

A redwood. Foto: Karina Miotto.

Era como se a Luna me carregasse no colo e ninasse, ao invés de sustentar com a firmeza de seus galhos milenares o meu corpo pequeno pendurado. Lá em cima, sem fazer o menor esforço para isso, entrei em estado de meditação. Os pensamentos se acalmaram. Altura, temperatura, ventos fortes, contas a pagar, e-mails a enviar, tudo isso sumiu da minha mente. De repente, só existia eu e a Luna no mundo.

No silêncio daqueles instantes, de olhos fechados e mãos no tronco, compreendi que escalar uma árvore – seja ela uma redwood gigante, um mogno ou um pé de manga -, ensina muitas coisas ao coração do homem. Naquele dia, Luna me ensinou a confiança: em mim mesma – minha vida estava em minhas mãos, literalmente; na árvore – ela já sobreviveu a tantas ventanias…; na vida – quanta surpresa boa nos espera quando enfrentamos nossos medos e acreditamos no melhor!

Em homenagem às árvores, finalizo com outra frase de Jamie Sams: “o Povo-em-Pé nos inspira, como guardiães de nossa Mãe Terra, a olhar para a raiz de cada bênção, reconhecer a sua verdade e utilizar esta bênção para o bem de tal forma que sua dádiva não tenha sido ofertada em vão”. Obrigado por tudo.

 

Leia Também 

Para sempre redwood: Proteger as árvores mais antigas da Terra da exploração madeireira não foi fácil

Leia também

Notícias
26 de novembro de 2021

Informação obtida via LAI revela que MCTI recebeu dados do desmatamento em 1º de novembro

Ministro Marcos Pontes disse que dados não foram publicados antes da Conferência do Clima porque ele estava de férias. Agenda oficial registra férias entre 8 e 19 de novembro

Notícias
26 de novembro de 2021

Jornalismo digital brasileiro se une em campanha de financiamento

Ação reúne 26 organizações com objetivo de arrecadar doações para fortalecimento do jornalismo digital de qualidade

Reportagens
26 de novembro de 2021

MPF pede anulação da Licença de Instalação do Linhão Tucuruí na terra Waimiri Atroari

Ação aponta que União e a Transnorte agem ilegalmente no licenciamento da obra. Autossuficientes em energia elétrica, os Waimiri Atroari são contra o empreendimento e sentem “a floresta sangrar”

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta