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Picassos de quatro

Para viver a fantasia de morar em fazenda, os americanos usam animais como objetos de decoração. Entediados com o paisagismo tradicional, eles estão usando touros, ovelhas, e outros animais vivos como parte de um cenário.

15 de novembro de 2004 · 22 anos atrás

A decoração das áreas externas das propriedades usando animais de quatro patas está se desenvolvendo cada vez mais nos Estados Unidos da América. Proprietários de terras vão cada vez mais longe nos seus esforços para ultrapassar os vizinhos e fazer com que sua propriedade sobressaia. Geralmente, as leis de zoneamento evitam que proprietários criem animais nas cidades. Mas a história é diferente a algumas milhas da zona urbana, onde existe mais grama para pastar.

Na casa de Shirley Pringle, por exemplo, todos os dias de manhã, quatro lhamas perambulam ao sol em uma colina. Este foi o cenário idealizado por Shirley quando comprou os animais por US $1.000 cada, para perambular pelos 7,5 acres que circundam sua propriedade na área rural de Kelseyville, Califórnia.
“É exatamente o que eu imaginava – uma mini-fazenda”, disse a Senhora Pringle que também tem pavões e galinhas na sua propriedade cercada. Ela faz mais do que somente criar animais: gosta de apreciá-los. “Minha propriedade é certamente única. Tenho algo que ninguém mais tem”.

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Há seis anos, quando Janet e Pattie Chelseth compraram uma propriedade em Shingle Springs, também na Califórnia, elas povoaram seus dez acres de terra com animais domésticos, para conferir à propriedade uma aparência de fazenda. Também adquiriram seis raras miniaturas de ovelhas islandesas e dois patos corredores indianos para habitarem ao redor de um laguinho cheio de peixes-mosquito e sapos.

Dennis Abreu, que optou por expor cavalos e gados e é defensor da nova onda, diz: “As pessoas me questionam, consideram absurda a idéia de usar lhamas como enfeite de jardim. Mas eu revido: o que faz um Picasso? Nada, senão ser bonito”. Seguindo a linha de pensamento de Dennis, acredito que a idéia seja “emoldurar” os animais. Afinal, eles vivem soltos num terreno cercado. Um zoológico particular. Animais de espécies, origens e hábitos distintos são encarcerados e observados pelos seres humanos. Um Louvre sem natureza morta.

Os americanos, na minha opinião, são naturalmente entediados, desde que saem da fôrma. Todas as vezes que eu aterrisso naquele país, fico meio apavorada. Os sorrisos e comportamentos idênticos me trazem certo desconforto. O “how are we doing today?”, por exemplo, me deixa enlouquecida. Esta coisa de usar a primeira pessoa do plural para fazer com que o outro se sinta “em casa” é horripilante. Parece coisa de enfermeiro alegrinho querendo animar pacientes. Apesar de saber que isso dá resultado, não suporto a idéia.

Pronto! Fugi do tema. Não consigo falar de um hábito americano sem dar uma espetadela neles. Bom, voltando aos animais na passarela, confesso que assim que comecei a ler a matéria publicada no Wall Street Journal, de onde tirei todas as informações acima, fiquei surpresa, boquiaberta, revoltada. Achei a novidade absurda. No entanto, depois de um tempo, analisando o que o homem, americano ou não, faz com os bichos que vivem ao seu redor, me dei por vencida.

Aquários povoados de peixes classificados como ornamentais já dizem tudo. O peixe está ali para dar charme ao ambiente. Ele é um ornamento. Neste caso, o vidro é a moldura que encapsula mais uma das maravilhosas obras de arte da natureza. Talvez, o ponto de vista de Dennis Abreu seja coerente.

O cabeleireiro Jambert, por exemplo, um dos mais conceituados e bem freqüentados do Rio de Janeiro, usa uma arara branca (não sei qual o verdadeiro nome daquela espécie) como logomarca. O bicho fica preso numa sofisticada gaiola, na porta do salão. É símbolo de status. Gatos persas são muito bem cotados no mercado. Cachorro puro-sangue também denota o nível de sofisticação do proprietário, principalmente quando ele começa a contar a origem do animal, suas origens e raízes, enfim, coisa de brasileiro que adora adorar o estrangeiro. Ou seja, os animais viraram marcas, descrevem o perfil do dono. Sujeito de bom berço, por exemplo, não cria jegues, mas adora pôneis.

Voltando as lhamas, gostaria de saber como reagem os americanos diante das atitudes não Picasso dos animais. Exemplo: se um casal de lhamas resolve copular em meio a um churrasco de família, num daqueles pacatos finais de semana, os proprietários acreditam que aquilo seja arte em movimento ou ficam constrangidos diante da cena? Normalmente, o sexo entre os animais deixa os humanos meio encabulados, com aquele sorriso amarelo estampado no rosto. Eu acho que o que causa esse constrangimento é encarar a semelhança. Afinal, a gente faz isso também. A diferença é que a gente se esconde e eles não.

Como a moda passa e eles partem pra outro objetivo consumista e competitivo em suas vidinhas, talvez resolvam contratar modelos vestidas de Ártemis, para compor um possível Jardim do Éden ao lado de ovelhas islandesas.

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