Colunas

O celular do Popeye

Avanço científico me faz imaginar que um dia árvores poderão ser poste e a ministra Dilma Roussef acabe virando uma ferrenha defensora do espinafre.

25 de novembro de 2004 · 21 anos atrás

Cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, da Universidade do Tennessee, do Laboratório de Pesquisa Naval dos EUA e da Agência de Defesa de Pesquisa Avançada estão inventando moda. Projetaram um celular movido a espinafre.

Será que pilhas (Olívia) palito não seriam mais simples? Ou melhor, por que não recarregar o celular usando energia solar? Agora, além de torcer pelo sol, o sujeito tem que se ligar na safra do espinafre? A novidade me lembra a piada do português que inventou a pílula da sede para ser tomada com três copos d’água. Apesar da pesquisa ainda estar em estágio inicial e os cientistas afirmarem que aplicações comerciais ainda estão distantes, eles acrescentam que a descoberta rompe as barreiras entre tecnologia e natureza.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Eles descobriram uma forma de coletar a energia que as plantas usam durante a fotossíntese para converter luz em energia. A idéia é recobrir o celular e deixar que o sol recarregue a bateria. Recobrir não significa cobri-lo com folhas de espinafre e deixá-lo exposto ao sol. Os celulares a espinafre terão capas apropriadas para captar a luz do sol e recarregar o dispositivo. Não é nelas que estará plantado o ‘vegetal’. O ‘canteiro’ do espinafre fica dentro da circuitaria eletrônica. Mais precisamente, no chip do telefone. Parece pegadinha.

Isto mostra, segundo Barry Bruce, professor de biologia celular e molecular da Universidade do Tennessee, que existe uma forma de usar moléculas biologicamente produzidas e ligá-las diretamente a circuitos eletrônicos. Ou seja, se o projeto der certo, o espinafre também vai recarregar laptops e outros eletrônicos portáteis. Não foi a primeira vez que cientistas foram capazes de extrair corrente elétrica da fotossíntese. As tentativas anteriores produziram correntes que duraram poucas horas. A atual, do espinafre, provocou uma corrente que durou três semanas.

Os pesquisadores liquefizeram a planta em uma centrífugadora – cientista que se preza não usa liquidificador – extraíram suas proteínas e as colocaram no tal chip. Ele só tem uma camada da solução de espinafre, portanto, produzindo uma quantidade insignificante de eletricidade. Mas os cientistas estão planejando adicionar mais camadas para gerar mais energia. Os cientistas escolheram o espinafre pelo seu alto teor de clorofila e pelo baixo preço. Ervilhas poderiam ser usadas também, mas espinafre é barato, abundante e facilmente disponível.

A boa notícia é que, se conseguirmos extrair eletricidade de planta, os postes poderiam ser substituídos por árvores. Quem sabe até Dilma Roussef, do Ministério das Minas e Energia, que considera a natureza um estorvo ao desenvolvimento do país, passasse a defender as plantas. Difícil. Com sua cabeça desenvolvimentista, provavelmente encamparia idéia de transformar o Brasil numa grande floresta de espinafre.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Salada Verde
23 de abril de 2026

Concessão inédita em gleba pública testa novo modelo de gestão para florestas na Amazônia

Edital para a Gleba Castanho leva concessões a terras públicas não destinadas e reacende debate sobre governança, controle territorial e combate ao desmatamento

Reportagens
23 de abril de 2026

Recifes, jubartes e a conta global da proteção marinha

A biodiversidade marinha que conecta o litoral brasileiro a desafios climáticos e metas internacionais de conservação

Análises
23 de abril de 2026

A quem interessa minerar terras raras no Rio Grande do Sul?

Podemos reconhecer nossas riquezas que não necessitam de mineração, como a biodiversidade do Pampa e os ecótonos presentes na transição para a Mata Atlântica

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.