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A vida em um parque nacional

O Parque Nacional de Banff está no coração das Rochosas Canadenses. A natureza aqui é exuberante e faz com que cada esquina tenha um ângulo diferente de uma montanha.

2 de maio de 2008 · 13 anos atrás
  • Helena Artmann

    Montanhista e balonista há mais de 16 anos, tendo feito mais de 15 expedições para alta montanha. É formada em Comunicação So...

Desde que vim morar no Canadá que tentava arranjar um jeito de sair de Calgary, cidade de mais de um milhão de habitantes, ‘status’ conquistado quando já morávamos aqui e a elevou à terceira maior cidade do país. Pode ser ridículo, para brasileiros, dizer que ela é grande… O problema é que Calgary não verticalizou e isso a faz ocupar uma área do tamanho de Nova York, com seus dez milhões de habitantes! É tudo distante e cobrir 100 km em um dia é mole. E desagradável.

Assim, no começo de fevereiro, nos mudamos para Banff, o primeiro parque nacional do Canadá, criado em 1885 ao redor das águas termais de Cave & Basin. É o segundo da América do Norte, sendo o primeiro Yellowstone, nos EUA. Este foi o início de um sistema de parques nacionais e provinciais que hoje protege mais de 20.000 km2 de um belíssimo e rico ambiente de montanha. Banff é considerado, pela UNESCO, Patrimônio Cultural da Humanidade e são 6.641km2 de área, atrás apenas de Jasper nos parques de montanha.

A cidade tem cerca de 7.500 habitantes e está situada a uma altitude de 1.383 metros. São cerca de 1.600 km de trilhas e, das poucas que eu já conheci, posso dizer que são bem feitas e mantidas como manda o figurino. A alta estação é julho e agosto (verão) mas podemos ver turistas o ano inteiro, totalizando mais de 4 milhões por ano! Como é um parque nacional, é obrigatório ter um passe para visitá-lo, mesmo que você só queira ficar na cidade que, aliás, tem seu nome tirado de Banffshire, na Escócia, terra de dois diretores da Canadian Pacific Railway. Aqui estão localizados sete lugares históricos do Canadá: Skoki Lodge, Refúgio Abbot Pass, Passo Howse, Cave & Basin, Banff Park Museum, Hotel Fairmont Banff Springs e a Estação Cosmic Ray no Pico Sanson. As montanhas têm entre 45 e 120 milhões de anos e a mais alta do parque, Monte Forbes, chega a 3.612 metros de altitude. Temos mais de mil glaciares e o rio Bow, que corta Banff, vai desaguar lá na baía de Hudson, atravessando pelo menos três províncias inteiras.

A história da conquista destas montanhas, como não poderia deixar de ser, é cheia de tragédias e sucessos e eu a começaria contando em 1885, quando a estrada de ferro foi terminada. Nesta época, sem cumes virgens na Europa, os europeus viraram seus olhos para outros países e continentes. Em 1896, Philip Stanley Abbot foi a primeira vítima a morrer na América do Norte enquanto escalava uma montanha, o Monte Lefroy, logo acima do lago Louise. Por causa deste acidente, as Rochosas se tornaram um dos lugares mais conhecidos do mundo para se escalar. A Canadian Pacific Railway respondeu aos pedidos de tornar as Rochosas um lugar seguro trazendo guias alpinos suíços, que trouxeram também novas técnicas e habilidades. E, se você ligou o nome à pessoa, é isto mesmo: o Refúgio Abbot Pass, citado no parágrafo anterior, tem o nome dado em homenagem a Philip Stanley Abbot…

Banff está no coração das Rochosas Canadenses, a apenas 126 km de Calgary, onde morávamos. No inverno, temos três estações de esqui espetaculares nos arredores da cidade: Monte Norquay, quase dentro de Banff, Sunshine Village, a cerca de 15 min da cidade, e Lake Louise, a 50 km de distância – por sinal, estas estações são as únicas do continente dentro de um Patrimônio Cultural da Humanidade da UNESCO e, por isso, elas sofrem restrições ambientais duras. As águas termais de Cave & Basin viraram lugar histórico, mas as Upper Hot Springs continuam funcionando, com águas que beiram os 40oC o ano inteiro.

Pelo menos dois hotéis da cidade são citados no livro “Ecoholic – Your Guide to The Most Environmentally Friendly Information, Products and Services in Canada”, da Adria Vasil: o Banff Park Lodge, no centro da cidade, é o primeiro hotel independente a ganhar quatro folhas verdes do Audubon Green Leaf Eco-Rating Program, e o Banff Springs Hotel, da cadeia Fairmont, talvez o hotel mais bonito e impressionante da cidade. A cadeia Fairmont escreveu O guia de como tornar um hotel ‘verde’ (“The Green Partnership Guide”) e seguem a cartilha. O Chateau Lake Louise, também da cadeia Fairmont, situado na beira do lago de mesmo nome, recebe 40% de sua energia de fontes renováveis. Se quiser saber mais sobre hotéis verdes no Canadá, visite a href=http://www.terrachoice.com/ target=_blank>www.terrachoice.com (que cita 6 hotéis em Banff).

Viver em Banff é privilégio de poucos, regido pela rigorosa lei municipal que regula o desenvolvimento e o meio ambiente. É preciso trabalhar no vale Bow e, desde que me mudei, tenho respondido uma pergunta com a mesma freqüência com que respondo qual o meu nome: onde eu trabalho? A natureza aqui é exuberante e faz com que cada esquina tenha um ângulo diferente de uma montanha distinta. Somos vizinhos de alces, ursos negro e grizzly, pumas, caribou, cabrito montanhês (mountain goat), vários tipos de aves, pequenos roedores como esquilos e até cobra! No contrato de aluguel da nossa casa, um dos itens dizia que não podíamos deixar a porta da nossa varanda aberta, para não entrar bichos em casa…

E viver no Canadá também significa viver de acordo com as estações do ano: elas são bem definidas e trazem cores e atividades próprias. Temperaturas também. Mal dá para acreditar que moramos o ano inteiro no mesmo lugar, de tão diferente que é o inverno do verão, além das duas meia estações. Estamos na primavera e, apesar das temperaturas ainda baterem os –10oC de manhã, a natureza tem outro cheiro, outro ar. Os bichos estão saindo e já foi visto o primeiro urso grizzly do ano (aliás, vale ressaltar que a cada ano eles são vistos mais cedo!). As árvores, aos poucos, começam a ganhar folha novamente e tudo volta a florir. É lindo. Mas a minha estação preferida ainda é o longo inverno. Não há nada, para mim, que se compare ao silêncio da neve caindo. Aquela paisagem toda branca faz qualquer um sonhar…

Um livro chamado ‘The Book of Banff – The Insider’s Guide to What You Need to Know to be a Local in Banff’, de Bob Sandford, tem, logo no começo, uma lista divertida sobre morar por aqui: 1. Viver em Banff não significa necessariamente que você esteja em contato com o lugar;
2. Se você quer entender a paisagem, você tem de fazer parte dela;
3. Montanhas podem ser difíceis e perigosas de se explorar;
4. É a atenção intensa demandada para se explorar as montanhas que o faz se sentir vivo nelas;
5. O relacionamento com um lugar é construído pessoalmente; a intimidade desenvolvida lentamente com o lugar que moramos é que vai moldar nosso caráter e, finalmente, nossa identidade;
6. A estética da localidade é um caminho para um senso natural e profundo de Banff;
7. O que ganhamos por desenvolver o senso de lugar é uma apreciação do legado único que herdamos das raízes do Parque Nacional de Banff.

Curioso? Comece visitando estes sites:
www.banff.ca
www.hotsprings.ca
www.parkscanada.gc.ca/hotsprings
www.banffcentre.ca – se estiver em Banff durante o Banff Mountain Film and Book Festival, nao perca! O Brasil recebe o Banff World Tour, com o melhor do festival do ano anterior mas o Banff Centre vira uma festa com inumeras atracoes gratuitas, inclusive. O festival acontece todo ano, normalmente no final de outubro, e dura uma semana.

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