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2008 – Olhem por nós

Um ano se passou desde que assumi esta seção de fotografia. Talvez eu tenha sido o articulista que tenha ficado mais tempo como responsável, e isto me alegra não só porque é um trabalho que gosto de realizar, como também por alguns e-mails que recebi - os elogios aos ensaios mostram que estou na receita certa. Agradeço àqueles que ecoaram suas opiniões a estes textos. E àqueles que leram.

1 de janeiro de 2009 · 18 anos atrás
  • Adriano Gambarini

    Fotógrafo profissional desde 1991. Vencedor do Prêmio Comunique-se, é geólogo de formação, com especialização em história natural e espeleologia, autor de 20 livros e diretor de dezenas de documentários. →

Um ano se passou desde que assumi esta seção de fotografia. Talvez eu tenha sido o articulista que tenha ficado mais tempo como responsável, e isto me alegra não só porque é um trabalho que gosto de realizar, como também por alguns e-mails que recebi – os elogios aos ensaios mostram que estou na receita certa. Agradeço àqueles que ecoaram suas opiniões a estes textos. E àqueles que leram.

Vivemos um 2007 de muitas incertezas ambientais, apesar de a cada dia surgir mais gente disposta a reverter este quadro; um país do outro lado do mundo, a Indonésia, foi palco do último grande evento do ano sobre questões importantes acerca do futuro-presente do nosso planeta. Muita conversa, muita gente disposta a mudar, mas ações efetivas, talvez de menos. Aprendemos na ciência escolar que o Brasil é privilegiado por não sucumbir com trágicos eventos geológicos que assolam tantos outros países, mas de repente abalos sísmicos mostraram que nada é estável, nada é imutável. Talvez quem sabe a corrupção política esteja querendo provar a imutabilidade das coisas e a capacidade patética do homem em olhar apenas para si mesmo.

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Mas estamos numa seção de fotografia, e devo me ater a ela; confesso que me preocupa um pouco este caminho que a fotografia vem tomando. A ilusória sensação de que tudo é possível na era digital, está se pasteurizando um conceito que demorou séculos para se formar. E não é só o conceito que está volatilizando; a proposta pela qual se fotografa também.

Ao fotografar natureza e todo seu universo de possibilidades, seres, formas, ambientes e cenários, é primordial saber qual é propósito de estar ali. Do contrário, o máximo que fará com suas fotografias ambientais é um banco de imagens virtual para efeitos egóicos. O propósito é tão essencial como seu modo de olhar, e sua presença pode ser um estorvo para a natureza; ela interfere diretamente ao movimento das coisas, com mais, ou menos intensidade. Mas interfere.

Não existe o fotógrafo invisível, o que se tem é a possibilidade da cena não se importar com sua presença. Isto é um conceito básico que não pode ser esquecido, principalmente quando decidimos ter como ofício a documentação ambiental. Lidamos com vida, e para isto o desapego de si mesmo é primordial.

Temos que olhar para o mundo que nos rodeia observando primeiro nossos próprios atos; afinal se hoje temos que nos unir em cops, é porque não fomos capazes de nos desapegar de nossos próprios anseios. Anseios estes que, agora, estão nas fotografias que escolhi para iniciar este ano. Fotos que se tornam leitores de nós mesmos. Imagens que respondem ao nosso olhar. Olhares que anseiam por liberdade, por lugar seguro para viver. Mas que, infelizmente, dependem do homem para continuar a olhar.

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