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O blefe audacioso de um diminuto lagarto do Cerrado

O blefe é uma importante estratégia evolutiva. No Cerrado, a Coleodactylus brachystoma engana predadores por parecer um escorpião.

27 de agosto de 2012 · 9 anos atrás
  • Reuber Brandão

    Professor de Manejo de Fauna e de Áreas Silvestres na Universidade de Brasília. Membro da Rede de Especialistas em Conservaçã...

BLEFE (é), s. m. Ato ou efeito de
blefar; engano; logro; falsa
aparência; simulação prejudicial.
(Do ingl. bluff.)

No Cerrado, a diminuta lagartixa Coleodactylus brachystoma engana predadores em potencial por parecer ser um perigoso escorpião. É um caso de mimetismo: relação ecológica onde uma espécie, geralmente inofensiva, se aparenta a outra perigosa. Para isso, a espécie inofensiva apresenta forma, cor e/ou comportamento semelhante a uma espécie perigosa. Com isso, passa a ser evitada por seus predadores.

O mimetismo é de importância central na Biologia Evolutiva, pois demonstra a ocorrência da seleção natural, expressa na sobrevivência de organismos que se diferenciam pela presença de características morfológicas (de forma) ou comportamentais facilmente identificáveis. Uma espécie que mimetiza outra precisa preencher pelo menos três fatores para ser bem-sucedida: ter forma semelhante a uma espécie tóxica ou perigosa, viver nos mesmos ambientes que este modelo, e ter um predador que evita a espécie modelo.

O sistema mimético mais conhecido é o denominado mimetismo Batesiano, descrito pela primeira vez pelo naturalista inglês Henry Bates (1825-1892) em 1862. Bates observou que aves predadoras evitavam padrões de colorido de borboletas tóxicas, bem como de borboletas palatáveis com o mesmo padrão de colorido. Como as espécies tóxicas (modelos) eram mais abundantes que as palatáveis (mímicos), o aprendizado foi apontado como o mecanismo que cria e mantêm a evitação pelos predadores, que teriam mais contatos com o modelo e relacionavam uma experiência desagradável ao padrão de colorido, passando a evitar todas as borboletas com o mesmo padrão.

No entanto, há espécies tão tóxicas ou perigosas, como por exemplo as serpentes, que matam os predadores, inviabilizando o seu aprendizado. Nestes casos, é inata — e não por aprendizado — a forma como os predadores evitam essas espécies. Elas produzem o que se chama mimetismo abstrato, onde as espécies mímicas não se parecem com uma única espécie modelo, mas apresentam características semelhantes a um grande grupo taxonômico “tomado” como modelo.

O peçonhento Rhopalurus agamemnon. Foto: Reuber Brandão
O peçonhento Rhopalurus agamemnon. Foto: Reuber Brandão

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