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Pesca da piracatinga: o boto-rosa não pode ser isca

Estudo detalha equipamentos e práticas desta atividade no rio Purus e Médio Solimões e confirma que as principais vítimas são botos e jacarés

29 de abril de 2015 · 7 anos atrás
  • Adriano Gambarini

    É geólogo de formação, com especialização em Espeleologia. É fotografo profissional desde 92 e autor de 14 livros fotográfico...

Ribeirinho exibe piracatinga. Foto: Adriano Gambarini.

Não é de hoje que a pesca do peixe piracatinga (Calophysus macropterus) causa preocupação. A razão é a matança indiscriminada do boto-cor-de-rosa para ser usado como isca para a piracatinga em muitos rios da Amazônia.

Publicado recentemente na revista científica Journal of Applied Ichthyology, especializada no estudo de peixes, o artigo “Uso de golfinhos e jacarés como isca para Calophysus macropterus [nome científico da piracatinga] na Amazônia” detalha as características desta pesca nas regiões do baixo rio Purus e Médio Solimões.

Os pesquisadores responsáveis pelo trabalho são: Felipe Rossoni e Sannie Brum, do Instituto Piagaçu; Leandro Castello, da Virginia Polytechnic Institute and State University, (que fazem parte da equipe do projeto Peixes da Floresta, patrocinado pelo Programa Petrobras Socioambiental); e Vera da Silva, pesquisadora do INPA e da Associação Amigos do Peixe Boi (AMPA). Eles abordam as técnicas pesqueiras, principalmente quanto ao uso de dois aparelhos: a “caixa”, amplamente conhecida e utilizada na região do médio Rio Solimões, e o “curral”, descrito pela primeira vez e utilizado na região dos rios Purus e Manacapuru. Como o curral é portátil, permite que barcos pesqueiros realizem a pesca da piracatinga em rios sem nenhuma fiscalização.

Cardume de piracatinga (Calophysus macropterus) no Rio Purus, AM. Foto: Adriano Gambarini.

A piracatinga é vendida aos frigoríficos da região, que processam o produto e podem tanto comercializá-lo nas cidades próximas quanto exportá-lo à Colômbia.

Os pesquisadores identificaram um aumento da produção de piracatinga de mais de 400% por ano e também, infelizmente, confirmaram a utilização de jacarés e dos golfinhos da Amazônia (boto-rosa e tucuxi) como as iscas principais. Os impactos causados nas populações destas espécies em decorrência da pesca indiscriminada ainda estão sob investigação. Ressalte-se que o boto-rosa já é considerado “em perigo” na última lista de espécies brasileiras ameaçadas, e um dos principais problemas advém da sua utilização como isca na pesca da piracatinga. Matar o boto para usá-lo como isca é uma característica ilegal desta pescaria. Por isso, desde janeiro deste ano, está proibida por cinco anos a pesca da piracatinga em todo o território brasileiro.

Agora, o setor pesqueiro amazônico, junto com o Ministério Público Federal, instituições conservacionistas e universidades buscam soluções para o impasse: a rentável pesca da piracatinga só pode prosseguir se houver alternativas de isca para os pescadores, que não prejudiquem as populações dos botos amazônicos.

Boto-rosa no Rio Tapajós, PA. Foto: Adriano Gambarini.

Vídeo do experimento:

Saiba mais

Artigo: “Uso de golfinhos e jacarés como isca para Calophysus macropterus na Amazônia“. Use of dolphins and caimans as bait for Calophysus macropterus; Lichtenstein, 1819 – Siluriforme: Pimelodidae

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