Em uma infelizmente rara e curiosa inversão de papéis — que não tem nada a ver com fetiches sexuais, por favor —, um grupo de catorze executivos de grandes corporações do Reino Unido está pressionando Tony Blair a adotar medidas mais duras para assegurar a redução das emissões de CO2 do país.
Exigências raras
O grupo inclui executivos de alto escalão da Shell, Reckitt Benckiser, Vodafone, Unilever UK e Sun Microsystems, entre outros. Segundo eles, em carta ao Primeiro-Ministro (cujo inteiro teor pode ser lido na internet), “as evidências científicas têm demonstrado que as mudanças climáticas causadas por ações humanas podem estar acontecendo mais rápido do que inicialmente se imaginava. É claro para nós que a necessidade de ações ambiciosas e de longo prazo está se tornando cada vez mais urgente”.
O plano geral a ser adotado, e para o qual eles oferecem amplo apoio, envolve uma série de medidas com o objetivo final de transformar o Reino Unido em um exemplo de comprometimento com a causa da redução das emissões de carbono. Um exemplo para inspirar e encorajar o resto do mundo, de países industrializados a países em desenvolvimento.
As sugestões feitas ao Primeiro-Ministro envolvem desde medidas econômicas — como a consolidação no longo prazo dos preços dentro do mercado de carbono e o investimento em tecnologias “de base” para o armazenamento de carbono e hidrogênio e a geração de energia através de fontes alternativas — até medidas políticas — dar incentivo para atrair para dentro do ETS (Emissions Trade Scheme, sistema de compra e venda de créditos de carbono criado pelo Protocolo de Kyoto) países que hoje não fazem parte dele e investir no desenvolvimento de tecnologias limpas em países em desenvolvimento.
Mas, a mais inusitada reivindicação dos empresários é para que o Reino Unido estabeleça para si metas de reduções que vão além dos limites estabelecidos em Kyoto.
Isso sim, mais do que tudo, é algo que não se vê todos os dias: empresários reivindicando ao governo que lhes imponha metas mais severas de redução das emissões. Em todo canto, o que se vê é o mercado esperneando cada vez que o governo tenta impor qualquer medida que implique em aumento imediato de gastos. É uma feliz variação da velha gritaria de que “assim não dá, nós vamos quebrar, vamos botar um monte de gente na rua, blá, blá, blá.”
Dessa vez não. Catorze das maiores companhias de um país, dos mais variados ramos, exigem do seu governo maior controle sobre suas próprias emissões, metas mais ambiciosas, redução — pelo menos no curto prazo — nos seus próprios lucros. Parece uma mentalidade anos-luz à frente, mesmo que eventualmente haja interesses não tão altruístas assim por trás dela.
A origem de tudo
Mas, como surgiu tal iniciativa? Não foi do nada. Essas companhias fazem parte, juntamente com muitas outras, do The Prince of Wales´s Business & The Environment Programme, um programa que ano passado completou dez anos, e que tem como objetivo justamente discutir e buscar soluções sustentáveis para a relação entre a indústria e o meio ambiente.
Desenvolvido e mantido pela Universidade de Cambridge, o programa se auto-define como “uma excelente oportunidade para líderes de negócios e formadores de opinião debaterem o lado comercial do desenvolvimento sustentável, em conjunto com personagens de ponta no ramo do mundo todo. (…) Ao juntar personagens chave no debate da sustentabilidade, o Programa oferece: um fórum global para a exploração e o debate do ponto-de-vista comercial; uma fonte única de informações de ponta e especialização; e uma rede internacional de alto nível para a troca de idéias e práticas para a sustentabilidade”.
O programa, propositalmente, não é aberto para os especialistas em meio ambiente. Ele foi desenvolvido para pessoas que trabalham em áreas estratégicas e políticas dentro de grandes empresas. A idéia é excelente, apesar de dificilmente ser aplicável com resultados em muitos outros lugares. Especialistas em meio ambiente freqüentemente já têm uma mentalidade condicionada sobre o tema e nem de perto têm tanto poder de decisão ou influência. O programa vai, portanto, direto ao que interessa. Ou melhor, a quem interessa.
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