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Entre o fim de um mundo e a urgência de outro: a batalha pela nossa imaginação

Somos tão bombardeados por distrações que é mais fácil vislumbrar o fim do Planeta do que do uso dos combustíveis fósseis

27 de abril de 2026
  • Bruno Araujo

    É apresentador do Podcast Planeta A, geógrafo, mestrando em planejamento urbano com foco em clima, especialista em clima e políticas públicas, militante ecossocialista e criador de conteúdo socioambiental no @brunopeloclima

Santa Marta (Colômbia) – Dê uma olhada ao seu redor: do asfalto lá fora ao plástico que você segura agora, quase tudo o que nos cerca tem como origem um poço de petróleo. Nos acostumamos tanto com essa dependência que esquecemos que a vida existia antes dele e que precisa urgentemente existir depois.

O problema é que a vida é dura. No corre diário para pagar os boletos, encarar o transporte lotado e manter a cabeça fora d’água, somos bombardeados por estímulos e demandas que nos esgotam. George Simmel, sociólogo e filósofo alemão, descreveu isso como a “atitude blasé”: um mecanismo de defesa onde, para sobreviver ao caos e à intensidade da vida, a gente acaba se tornando indiferente. Essa anestesia emocional, necessária para não pirar no individual, acaba se materializando em uma profunda crise da imaginação no coletivo.

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Ficamos tão cansados para garantir o hoje que não sobra fôlego para projetar o amanhã e a catástrofe ambiental vira apenas um ruído de fundo em um sistema que já dá sinais claros de esgotamento.

Isso nos faz parecer mais fácil acreditar no fim do Planeta do que na possibilidade de uma economia que não dependa de queimar petróleo. Essa barreira é o que torna conferências como esta, aqui na Colômbia, tão fundamentais. Não se trata apenas de discutir metas técnicas de carbono, mas de forçar a nossa mente a desenhar caminhos, enfrentar as contradições e encontrar a beleza de um futuro que ainda não conhecemos, mas que é urgente.

O futuro já existe

Enquanto os debates entre as representações de governo não começam (serão nos dias 28 e 29 de abril), as atividades que reúnem os povos, movimentos e coletivos provam que para construir esse futuro urgente não se trata de inventar a roda, mas de conectar e escalar as iniciativas que já existem.

Aqui em Santa Marta, a presença de lideranças indígenas e comunidades tradicionais não é figurativa, ela é o alicerce. Eles são os guardiões de conhecimentos que nunca se desconectaram da terra e que agora servem de bússola para deixar os fósseis no chão.

No Brasil, o Instituto Terra Mar e o INESC têm sido vozes cruciais para alertar que nem tudo que se diz “verde” é justo. Eles denunciam como grandes projetos de energia podem repetir velhas violências se não respeitarem quem já vive no território.

Essa mesma resistência aparece no México, com o trabalho da Engenera e da organização Nuestro Futuro, que levam a disputa climática para o campo do direito e da proteção ambiental. No Chile, a articulação do Chile Sustentable e da rede Uno.Cinco mostra que a pressão para apagar as caldeiras a carvão precisa vir acompanhada de uma nova cultura política.

A dificuldade de imaginar um mundo sem o petróleo e seus derivados, que hoje cercam desde o nosso transporte até os fertilizantes da nossa comida, é real, mas ela é alimentada por um sistema que esmaga qualquer tentativa de alternativa. No entanto, organizações como Tierra Libre, Penca de Sábila e o Centro de Empresas e Direitos Humanos, na Colômbia, demonstram que é possível questionar esse poder gigante e propor gestões comunitárias da água e da energia.

Evento no sábado reuniu pessoas para discutir um mundo sem petróleo. Foto: Bruno Araújo.

Todas essas iniciativas se encontraram na noite deste sábado (26) sob o guarda chuva da Plataforma Futuros Positivos, mobilizada pela Fundação Heinrich Böll, durante a 1a Conferência Global pelo Fim dos Fósseis.

O que vi acontecer neste encontro foi algo mais profundo do que uma simples troca de contatos. A sabedoria acumulada de quem luta há décadas pela terra encontrou o fôlego de uma juventude que não aceita o pessimismo como destino. Eles não estão esperando uma solução mágica que venha de cima, mas construindo saídas e tecnologias há muito tempo desde os territórios.

O mapa interativo lançado pela Heinrich Böll em colaboração com organizações de mais de 30 países é a prova de que a saída existe e é diversa.

Nos próximos dias, a temperatura da Conferência deve subir com a chegada de ministros de Estado para discutir acordos de alto nível – a alta cúpula começa nesta terça-feira (28). O desafio desses governantes será sair da zona de conforto do “possível” e abraçar o que é necessário. O futuro já existe em pequenos fragmentos espalhados pela América Latina. O nosso papel é garantir que esses fragmentos se tornem a norma e não a exceção.

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