Reportagens

Eu, os gatos e Loirinho

Encontrei-o quando era um recém-nascido, amarrado em um saco de lixo com seus irmãozinhos. Todos sobreviveram, e eu ganhei um filho. Esta é a nossa história.

Cristina Matos Delayti ·
4 de agosto de 2005 · 16 anos atrás

Adoro bichos. De praticamente todas as espécies. Por isso, assim que pude, comecei a pegar os bichinhos que encontrava abandonados na rua. Isso sempre me deu muita pena. Meus vizinhos, sabendo do meu coração mole, às vezes batiam lá em casa, levando além de filhotes, bichinhos machucados, para que eu ajudasse. Cuidei de vários e consegui um lar para todos eles. Já ajudei até um porco-espinho a fugir da maldade de três adolescentes. Meu irmão mais novo me ajudou nessa.

Mas tenho uma queda especial pelos felinos. A agilidade, a independência e o jeito de olhar sempre me impressionaram. Uma noite, há quase seis anos, quando eu ainda morava no Alto da Boa Vista, ouvi uns miados que vinham de um terreno vazio que ficava ao lado da minha casa. Como já era muito tarde, e não havia iluminação no local, fiquei rezando para que eles agüentassem até de manhã, quando poderia encontrá-los. Já sabia que, naquele bairro, algumas pessoas afogavam filhotinhos ou simplesmente os abandonam à própria sorte.

No dia seguinte, ainda nem tinha amanhecido direito, fui ao terreno procurar de onde vinha o miado. Já estava bem mais fraco e isso me preocupava. Depois de andar um bocado e vasculhar quase tudo, reparei em um saco de lixo, daqueles pretos, que se mexia. Quando o abri, vi quatro filhotinhos lá dentro, todos sujos, claro, e ainda nem tinham os olhinhos abertos. Aqui, aproveito para manifestar minha raiva e indignação com as pessoas que nem ao menos conseguem ser piedosas e deixam filhotes indefesos para morrer de fome, sede ou falta de ar, o que acontecer primeiro. Isso é desumano e não tem justificativa.

Voltando aos filhotes, levei os quatro correndo para casa, dei banho de água quente e sabão de coco na pia do meu banheiro, enxuguei bem, lavei os olhinhos com água boricada e alimentei. Liguei para o veterinário que tinha na época, e ele disse que provavelmente não sobreviveriam. De tão pequenos, eles cabiam na palma da mão, e a saúde deles poderia já estar comprometida. Mas eu não costumo desistir fácil.

Cuidei deles da melhor forma que podia e em uma semana estavam todos fofinhos, espertos e alegres. Como filhotes devem ser. Dava gosto de ver. Eram dois machos e duas fêmeas.Uma delas, com a pelagem tigrada de amarelo, ficou para uma amiga da minha mãe. E se chama Princesa. A outra, toda tigrada em tons de cinza, ficou para meu namorado na época, que hoje é meu marido. O nome dela é Gwenivar e tem uma personalidade muito forte.Um dos machos, todo branco e com os olhos azuis, ficou para a filhinha de outra amiga da minha mãe. O nome dele é Amor. O quarto filhote, malhado de branco e amarelo, ficou para mim. Dei a ele o nome de Loirinho, porque meu pai já teve um gato, com a mesma pelagem, e esse nome. Esta é a história dele.

Eu já tinha uma filhinha, a Sofia, uma gata malhada em tons de amarelo, preto e marrom. Ela não deu muita confiança para o Loirinho, e sempre foi muito ciumenta, mas aos poucos se acostumou com ele. Meu filhote sempre foi muito esperto e brincalhão. Adorava correr pela casa e subir no muro, ficar dormindo no telhado aquecido pelo sol, escalar as árvores do jardim e tentar pegar os passarinhos desprevenidos. À noite, sempre dormia na cama comigo, todo enroscado (foto abaixo). A Sofia dormia no travesseiro ao lado do meu. Quando casei e me mudei, a casa ficou com quatro gatos: a Sofia e o Loirinho, a Gwenhywar do Mauricio, meu marido, e o Thor da Luciana, minha cunhada (foto).

No último dia 3 de junho, uma sexta-feira, tinha combinado de sair com o meu marido. Por volta das onze da noite, quando saí da redação do O Eco, liguei para ele avisando que estava chegando. Ele me pediu que subisse quando chegasse, ao invés de esperar por ele na entrada do prédio.

Achei estranho, mas fiz como me pediu. Quando entrei em casa, pela cara dele, percebi que tinha algo errado. Então ele me mostrou o Loirinho. Ele não conseguia andar com as pernas traseiras. Era como se estivessem mortas. Estava tentando se arrastar com as da frente. Fiquei apavorada. Nunca pensei que meus filhos pudessem ficar doentes.

Liguei para o veterinário deles, que a essa altura já era outro. Ele disse para levá-lo para o Inpa (Instituto Nacional de Proteção Animal), que fica aberto 24 horas e possui clínica para internação e cirurgia, se fosse preciso. Enrolei meu filhote em uma toalha e fomos correndo para lá. Eu já chorava muito e não queria acreditar que algo grave pudesse estar acontecendo. Achei que ele tivesse tido algum problema muscular, decorrente de uma brincadeira com os outros gatos. Só isso.

Quando chegamos à clínica, fomos atendidos imediatamente. Pelos sintomas visíveis — falta de movimento nas pernas traseiras e roxidão nos dedinhos destas pernas — o dr. César, veterinário de plantão, achou que o problema era na circulação. Foi feita logo uma radiografia, que mostrou um aumento muito grande no tamanho do coração. Com os outros exames, de sangue, ecocardiograma e eletrocardiograma, o diagnóstico foi feito. Meu filho teve uma tromboembolia e o coágulo formado tinha se alojado exatamente na bifurcação da artéria que leva o sangue para as pernas. Este trombo, ou coágulo, formou-se a partir do atrito do fluxo sangüíneo com a parede inchada do coração.

Meu filhote tinha um problema congênito, uma má formação no coração que, com os anos, o fez aumentar de tamanho. E ele teve sorte, porque o coágulo normalmente fica alojado no próprio coração ou vai para o cérebro. E é fatal. Segundo estatísticas norte-americanas, apenas 2% dos gatos sobrevivem após as primeiras 48 horas da formação do trombo. Nas estatísticas brasileiras, o percentual é de 1%. E mesmo se recuperando dessa, sempre haveria o risco de ele formar novos trombos e ter morte súbita. Ou seja, por melhor que tudo corresse, ele poderia um dia acordar, beber água e simplesmente morrer. Mas eu só queria que ele ficasse bom e pudesse voltar para casa comigo.

Fiquei na clínica até por volta das 4 da manhã, chorando muito e rezando para que ele ficasse bom. Meu marido estava lá comigo, assim como minha cunhada e o namorado dela, a quem avisamos. Quem tem filhos, vai entender como me senti quando vi o Loirinho na gaiolinha dele, no CTI, tomando o medicamento na veia. Ele tomou remédios para eliminar o coágulo e desobstruir a corrente sanguínea. Havia o risco de ele não voltar a andar e até de ter que amputar as pernas. Deram também um calmante, para que ele não ficasse muito agitado por estar em um lugar estranho. Ele parecia tão indefeso e assustado…

Tive que voltar para casa sem ele. Só podia ir visitá-lo durante uma hora, duas vezes ao dia. Foram dias terríveis. Ele estava zangado, por se sentir abandonado. Levamos a escovinha dele, a ração preferida e as toalhinhas onde ele dormia. E, graças a Deus, ele superou as primeiras 48 horas, e passou por mais 48 horas. A cor dos dedinhos já estava mais rosada e isso indicava uma melhoria no fluxo sangüíneo. Ele já começava a ficar mais sentado, apoiado nas pernas traseiras, mas ainda não conseguia andar. E já estava comendo e bebendo água, coisa que não fez nos primeiros dias. Na sexta-feira seguinte, Loirinho pôde ir para casa.

Depois de uma semana de incertezas, que alegria foi ter meu filhote em casa de novo! Mas os cuidados médicos continuaram. Ele tinha que tomar vários remédios em horas certas, fazer fisioterapia 3 vezes ao dia em casa e acupuntura uma vez por semana na clínica. Fiz um plano de saúde para ele, o que ajudou a cortar o custo dos exames e tratamentos pela metade. Só naquela primeira semana eu gastei por volta de 1.200 reais. Ele também passou a comer só ração especial para gatos com problemas renais (no Brasil não há ração específica para gatos cardíacos). Não podia ficar sozinho, para não correr o risco de se machucar, e tinha que ter cuidado nos movimentos. Nada podia ser brusco e nada de sustos. Eu, meu marido e minha cunhada alteramos nossos horários e nossa vida em função dele. Tudo pelo seu bem-estar. Aliás, agradeço aos meus chefes, que me deram liberdade de organizar meu horário para ficar com ele.

E a recuperação foi espantosa. Os médicos ficaram surpresos e acharam o caso dele único. Uma exceção à regra. Todos já o conheciam e paparicavam quando ele chegava na clínica para a acupuntura. Na última semana de junho, Loirinho começava a dar os primeiros passinhos. Nossa, ficamos tão contentes! Apesar de os médicos nos lembrarem que sempre haveria o risco da morte súbita, a melhora nos enchia de esperança e aqueles dias de angústia estavam ficando para trás. Mas, por mais que a gente deseje e se esforce, algumas coisas não estão nas nossas mãos.

Meu filhote morreu no dia 9 de julho. Foi num sábado de manhã. Eu estava sozinha, ele estava em cima das almofadadas dele ao lado da minha cama. Dei o remédio a ele e fui à cozinha pegar água. Quando voltei, ele estava deitado de lado no chão, se esforçando para respirar. Lembro que senti uma dor gelada no coração, se é que isso existe. Corri para ele e o coloquei na cama. Fiquei falando com ele ao mesmo tempo em que ligava para a clínica para pedir uma ambulância, mas não tinha nenhuma naquela hora que pudesse nos buscar. Coloquei a primeira roupa que vi e corri com ele para lá. No caminho, continuei falando com ele, pedindo que não morresse, que não me deixasse. Mas também não dependia dele. Quando cheguei lá, ele já tinha partido. Todos na clínica ficaram muito tristes. Avisei para o Maurício e para a Luciana. Eles vieram logo, assim como um casal de amigos, que nos deram muita força.

Foi um dos dias mais tristes da minha vida. Passei por cinco semanas super difíceis e, apesar de ele não ter sobrevivido ao segundo trombo, sou grata por este tempo extra e não me arrependo de nada. Sei que ainda vou passar por muitas perdas, mas meu filhote era especial e eu o amava muito. Ele foi enterrado lá na casa do Alto da Boa Vista, onde corria, brincava e ficava esparramado ao sol. Ainda hoje choro por ele e sinto uma saudade enorme, mas sei que ele está bem e que está cuidando de mim lá do céu dos gatos.

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