Reportagens

O dendê não faz milagres

Produção de biodiesel a partir do dendê ainda é pequena no Brasil. E é melhor que seja assim, porque a planta se adaptou à Amazônia e pode ameaçar milhões de hectares.

Aline Ribeiro ·
12 de dezembro de 2006 · 15 anos atrás

Domingo, o jornal inglês The Independent noticiou a morte de pelo menos mil orangotangos provocada pelo pior incêndio florestal registrado na Indonésia em uma década. A causa do fogo foi o interesse de abertura de novas áreas para o plantio de palmeiras cujo óleo é cada vez mais valorizado no mercado do biodiesel.

Na onda dos cultivos de oleaginosas para produção de combustíveis aparentemente ecológicos, o dendê procura um lugar de destaque entre as demais plantas. Embora reduza a biodiversidade e quebre o equilíbrio da cadeia alimentar – conseqüências incontestáveis de qualquer monocultura – a palmeira tem a preferência de acadêmicos, que defendem suas vantagens ambientais.

Segundo Orlando Silva, pesquisador do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (IEE/USP), a palma do dendê seqüestra gás carbônico da atmosfera e permite a recuperação de áreas desflorestadas e desgastadas. A planta também se diferencia de outros cultivos, como a cana-de-açúcar, porque não precisa remexer tanto o solo. Cada palmeira produz frutos por 30 anos e não exige muitos defensivos agrícolas, o que diminui as chances de contaminação do solo e de lençóis freáticos. Do ponto de vista econômico, enquanto em um ano a mamona produz cerca de 500 litros de óleo por hectare, o dendê atinge os cinco mil litros. Portanto, é 10 vezes mais produtivo. Só tem um detalhe: as melhores terras para o cultivo do dendê são as tropicais úmidas. E, de acordo com a Embrapa Amazônia Oriental, o Brasil tem a maior área cultivável do mundo, 70 milhões de hectares nos estados do Pará, Amazonas, Acre, Bahia, Amapá, Rondônia, Roraima e Tocantins. Mais uma ameaça iminente à floresta amazônica.

Um dos motivos que justificam a lentidão nos investimentos em plantações de dendê é a legislação ambiental. Produtores reclamam do Código Florestal, que estabelece a manutenção da floresta nativa em pé em 80% dos terrenos das propriedades na Amazônia, o que limita o plantio em 20% da área. “Você conhece alguém que compra um apartamento de cinco quartos, concreta quatro portas e paga condomínio de tudo? É mais ou menos isso que acontece por aqui. Quem começou no passado [antes da MP 2.166-67, de agosto de 2001, que exige 80% de reserva legal], ficou. Agora é mais difícil entrar”, explica Marcello Brito, diretor comercial da Agropalma, maior produtora de óleo de palma da América Latina, no mercado desde 1982.

Exceção

Isoladamente, a Agropalma é um caso de sucesso. Localizada a 70 quilômetros da cidade de Tailândia (PA), tem hoje 34 mil hectares de área plantada, 77 mil hectares de reserva legal e emprega 10 mil funcionários direta e indiretamente no plantio e processamento do óleo de palma. Todo mês, 185 famílias da região são beneficiadas com o programa de agricultura familiar, que garante um salário fixo de R$ 1.800 para cada uma. Grande parte da produção de óleo de dendê da empresa, aproximadamente 75%, é destinada à indústria alimentícia. O restante é dividido entre os setores químico, oleoquímico (tintas e vernizes), cosmético, higiene pessoal, têxtil e siderurgia (laminação do aço).

Desde o início do ano passado, a Agropalma passou a investir também no diesel vegetal proveniente do dendê, graças a uma tecnologia desenvolvida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O palmdiesel, como foi batizado, é obtido a partir dos ácidos graxos residuais do processo de refino do óleo de palma. A planta da empresa em Belém (PA), com capacidade para produzir 20 milhões de litros do produto por ano, processa hoje oito milhões de litros – quantidade que a matéria-prima disponível permite. O volume é suficiente para substituir 100% do diesel convencional que a Agropalma utiliza hoje em seus tratores, veículos e implementos utilizados no cultivo da palma. E ainda há um excedente que é vendido para Petrobras e Vale do Rio Doce.

Mas ainda é pouco. A produção anual da Agropalma é tão pequena que não consiste em redução de emissões de carbono significativas. Muito menos para atender a demanda internacional. Ainda bem, pois para produzir o diesel de palma em larga escala e abastecer os mercados externos, a Amazônia provavelmente seria reduzida a passos largos. Somente a Agropalma, no início da construção de seu império, cortou 15 mil hectares de florestas para o cultivo do fruto.

O óleo de palma é o segundo tipo mais consumido no planeta, perde apenas para o óleo de soja. A produção mundial chega a 17 milhões de toneladas/ano e quem sustenta esta produção são os paises asiáticos. O Brasil tem uma participação de menos de 0,5% neste mercado internacional e se quiser brigar por um lugar mais competitivo deve pensar bem. A Malásia, por exemplo, obteve o título de maior produtora mundial do óleo de palma às custas da eliminação de quase toda sua mata nativa.

Leia também

Notícias
14 de janeiro de 2022

Thiago de Mello, conhecido como o “poeta da floresta”, morre aos 95 anos

Poeta e jornalista amazonense cantou em prosa e verso sua luta pela preservação da maior floresta tropical do mundo

Reportagens
14 de janeiro de 2022

Venenos usados na soja seguem prejudicando a produção de frutas no Rio Grande do Sul

Agrotóxicos contra pragas resistentes ao glifosato contaminam e destroem plantios de uvas e outras economias no estado. Questão aguarda decisão judicial há mais de 1 ano

Análises
14 de janeiro de 2022

Monitoramento do comércio de combustível de aviação ajuda no combate ao crime ambiental

Desregulamentação e desestatização não pode significar abandono total do controle da distribuição e revenda, sob risco de aumentar o descaminho do combustível e sua utilização em atividades criminosas

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Comentários 1

  1. Diego diz:

    Onde assisto ao filme? O link já era…