Reportagens

O desafio de conservar

Comitê de patrimônios naturais da humanidade revela dificuldades na gestão de parques como a Chapada dos Veadeiros.

Gustavo Vieira ·
2 de agosto de 2010 · 11 anos atrás
Chapada dos Veadeiros: patrimônio natural
(foto Gustavo Vieira)

Brasília – A 34a. Sessão do Comitê do Patrimônio Mundial, que termina nesta terça em Brasília, reuniu durante duas semana 800 pessoas de 187 países signatários da convenção. São estes delegados que analisam áreas que podem ser incluídas na lista de bens culturais e naturais protegidos, além de avaliar o estado de conservação dos bens já listados. Incluir ou remover um bem da lista de áreas de risco determina o apoio internacional para a preservação.

Até o momento, na reunião de Brasília, foram incluídos na lista de áreas ameaçadas a floresta tropical de Atsinanana no Madagascar e o Parque Nacional dos Everglades nos Estados Unidos. A Ilha de Galápagos no Equador, que havia entrado na lista em 2007, foi considerada fora de risco pelos membros do comitê. O Brasil tem 17 áreas já consideradas bens do Patrimônio Mundial e conseguiu nesta sessão incluir a Praça de São Cristóvão em Sergipe como a única construção feita durante o período em que Portugal e Espanha eram um só país.

Patrimônio no Cerrado

O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros a cerca de 250 kilômetros de Brasília foi estabelecido como patrimônio em 2001. É um bom exemplo das ameaças às quais os bens naturais estão sujeitos. A IUCN levou no dia 24 de julho um grupo de jornalistas à área protegida para discutir os desafios que ela enfrenta

O Cerrado da região norte do estado de Goiás inclui a nascente de muitos rios importantes para o país. Tocantins e Araguaia são os mais conhecidos. A lavoura de soja e a pecuária para exportação têm ocupado cada vez mais espaço na região que antes mantinha sua renda com a mineração de cristais e pedras preciosas de baixo refino. Sem indústrias próximas para agregar valor ao produto extraído, a atividade foi perdendo força para agropecuária e hoje só restam vestígios da mineração em lojas turísticas de cristais baratos e áreas de garimpo nas trilhas.

Com as plantações de soja e aumento das pastagem nas cercanias do parque, os incêndios na vegetação multiplicaram. Além disso, a área já teve seu tamanho diminuído 3 vezes. Hoje restam menos de 10% da área originalmente demarcada por JK em 1961. Eram 625 mil ha que viraram 65 mil ha pelo decreto 99.279 de junho de 1990 entre os municípios de Alto Paraíso de Goiás, Teresina e Colinas.

Os municípios do entorno do Parque da Chapada dos Veadeiros possuem Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) entre 0,525 e 0,621 – segundo o IBGE abaixo de 0,500 é baixo e acima de 0,800 é considerado elevado. A média de IDH do Estado é 0,776. A renda média per capita calculada pelo Produto Interno Bruto estava em 2005 entre R$ 2,600 e R$ 3,500, apresentando crescimento de 73% entre 1998 e 2002. Como outras cidades semelhantes, os programas governamentais de distribuição de renda e as atividades anexas ao agronegócio são as responsáveis pelo sentimento de melhoria de qualidade de vida na população, No entanto nos empregos dos nordestinos goianos ainda predominam atividades de baixa formação educacional e consequentemente pouca remuneração salarial.

Segundo Tilman Jaeger da União Internacional de Conservação da Natureza (IUCN), entidade de consulta técnica do Patrimônio Mundial, o estabelecimento legal de uma área como um bem natural tem poucos resultados no dia a dia das pessoas. “As pessoas que moram na área podem não saber o que é a convenção ou mesmo desobedecer as regras sem repressão merecida. O governo local é que deve ser responsável pela proteção. Ter pessoas na área cria um conflito de direitos, se dermos uma vida dura para os habitantes eles não vão dar o valor da conservação necessária a um bem que em tese deveria ser eterno?”, pondera.

José Fernandes Rebelo é o analista ambiental mais experiente de Veadeiros. No video abaixo ele conta quais são as dificuldades práticas enfrentadas por ele no cotidiano.

Novas atividades econômicas

“Estabelecer critérios de qualidade de vida sob o prisma regional é muito importante, pois é este valor que deve ser preservado como patrimônio mundial e todas as áreas da América do Sul são habitadas por populações tradicionais que conservaram a natureza até agora”, conclui João de Queiroz, chefe do escritório regional da IUCN, em Quito, Equador.

O trabalho de preservação brasileiro foi reconhecida pelo comitê do patrimônio. Uma das definições da 34a. sessão foi a de que ainda em agosto deste ano será realizada uma capacitação de 400 técnicos em 170 cidades históricas brasileiras e uma reunião entre representantes de 17 países que serão assistidos pelo órgão para melhorar a eficiência da sua gestão. No Parque dos Veadeiros, os desafios são resolvidos em parcerias estratégicas com outras entidades não responsáveis por conservação da natureza, ao menos não por princípio. Os visitantes são protegidos peo corpo de Bombeiros em uma parceria que aumenta com o período de maior quantidade de visitas aos atrativos do parque. Sérgio Collaço, do Instituto Chico Mendes da Conservação da Biodiversidade (ICMBio) nos conta no video ao lado como foi construída esta forma de oferecer segurança aos turístas sem o uso de recursos.

Manter as áreas do patrimônio intactas para sempre e oferecer usufruto seguro aos visitantes é um grande desafio, mas para que a conservação seja permanente e pouco conflituosa a resposta definitiva está clara para Tilman Jeoger. “O desafio permanente é compatibilizar o desenvolvimento com a preservação evitando a expansão da fronteira agrícola de commodities”, ele diz. Como exemplos ele cita “a palma africana, o óleo de Dendê para biodiesel, que tem prejudicado áreas do patrimônio em muitos países. As grandes obras de infraestrutura, rodovias, hidrelétricas, têm um alto impacto nos sitios de conservação. O valor da terra sobe a a corrida pelas mesmas afasta quem vive na área há mais tempo e conhece melhor o uso da biodiversidade da região”, lamenta.

As áreas naturais têm peixes, castanhas, produtos ecossistêmicos como sequestro de carbono ou produção de chuva. Temos que aumentar este valor para fazer frente às outras formas de obtenção de renda menos sustentáveis para compatibilizar as duas facetas do bem estar da população: preservação e conforto financeiro, explicou o membro da IUCN.

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