Reportagens

Londres: laboratório em direção às Olimpíadas de 2012

A capital inglesa é arrojada no planejamento urbano e nos novos hábitos urbanos que podem aproximar o consumo do lazer sustentável.

Natália Garcia ·
25 de novembro de 2011 · 10 anos atrás
Café Open, que fica dentro de uma área de horta urbana comunitária em Britxton, no sul de Londres. Foto: Natália Garcia
Café Open, que fica dentro de uma área de horta urbana comunitária em Britxton, no sul de Londres. Foto: Natália Garcia
do projeto Cidade para as Pessoas*

Em um domingo ensolarado do verão Londrino fui cedo, de metrô, até o sul da cidade. Saindo da estação Brixton, caminhei até o café Open. Lá me sentei ao lado do professor Robert Biel, especialista em agricultura urbana, que leciona em um programa de mestrado da University College of London. Degustamos um chá preto com leite enquanto ele me explicava que estávamos em um allotment, áreas urbanas destinadas à agricultura, criadas logo após a Segunda Guerra Mundial para garantir que as cidades fossem abastecidas com alimentos.

Allotments

Os allotments existem até hoje em Londres e outras cidades da Europa, mas são se restringem a apenas alguns bairros. Para criar um allotment é preciso pedir autorização ao governo britânico, que pode demorar até 8 anos. “Plantar em cidades resolve parte do problema de abastecimento de alimentos”, explica Biel. Segundo ele, áreas de plantio local de alimentos podem dar conta de pequenas demandas, mas, combinadas, diminuem a necessidade de fazê-los viajar grandes distâncias.

Mas a agricultura urbana também pode ser uma ferramenta de planejamento da cidade. “Ela pode funcionar como um cinturão verde, que fica ao redor da cidade impedindo seu crescimento desordenado”, explicou outro conviva, o professor Alexandre Apsan, também da University College of London. Segundo ele, as áreas de plantio de alimentos nas regiões do norte e nordeste de Londres possuem essa função de conter o crescimento da cidade. “Quando a plantação é feita dentro da cidade, outra vantagem é também ajudar a conter enchentes e alagamentos”, diz Apsan, que emenda dizendo que essa maneira de “permeabilizar” a cidade seria um boa pedida para um país como o Brasil, que sofre chuvas torrenciais.

De bicicleta em Londres, um caso de amor


Consumo Colaborativo

Peguei o metrô até o centro da cidade e aluguei uma Barclays, a bicicleta pública de aluguel de Londres. Com ela fui encontrar a brasileira Camila Haddad, que acabou de apresentar sua tese de mestrado na University College of London sobre Consumo Colaborativo e Confiança. A Barclays foi o gancho para começarmos nossa conversa sobre consumo colaborativo, que ela me definiu como sendo uma forma de consumo baseada no uso, não na posse. “São formas simples e tradicionais, como o empréstimo e o aluguel, que estão sendo reinventadas por causa das tecnologias de comunicação”, explicou Camila. Além das bicicletas (e também carros) de aluguel que existem em Londres, a modalidade tem “a vantagem de baratear o acesso e incentivar uma relação mais sustentável com esses produtos”, diz Camila.

Barclays, as bicicletas de aluguel de Londres. Foto: Natália Garcia
Barclays, as bicicletas de aluguel de Londres. Foto: Natália Garcia
O consumo colaborativo pode ocorrer de várias formas. Em Londres, uma delas é o People’s Supermarket, um mercado em que os consumidores pagam uma taxa de adesão para se tornarem “sócios” – o que lhes dá direito à margem de lucros, quando for o caso – e se comprometem em trabalhar 4 horas por mês voluntariamente. Em troca, eles têm acesso a produtos mais baratos do que em qualquer outro supermercado e fornecidos por produtores locais. “O que acaba acontecendo é que os moradores do bairro ficam sócios desse mercado, se locomovem menos para fazer compras e diminuem o impacto do abastecimento, já que são produtores locais”, explica Camila. Um terceiro modelo interessante e mais simples é a estante livre do café Store Street Espresso. Trata-se de uma estante de livros em que qualquer pessoa pode deixar um livro pessoal e retirar, em troca, um para si mesma.

As maravilhosas bicicletas de carga de Copenhague

O cerne da pesqusa de Camila é na forma como o consumo colaborativo gera confiança. Nesse caso, os exemplos mais emblemáticos são os dos sites que reúnem vizinhos de bairro que possuem algum recurso ocioso: vai de aspirador de pó, a carro, roupas ou até mesmo tempo. Há sites que colocam as pessoas em contato trocar e emprestar recursos. “É uma forma online de aproximar as pessoas no mundo off line”, diz Camila. “O consumo é uma desculpa para aqueles que moram perto um do outro se encontrem e estabeleçam relações mais interessantes entre si”. O portal Colaborative Consumption lista, por categoria, sites de consumo colaborativo.

Jogos de 2012

Hackney Wick: bairro que está se transformando com os jogos olímpicos de Londres. Foto: Legacy Co.
Hackney Wick: bairro que está se transformando com os jogos olímpicos de Londres. Foto: Legacy Co.
Após a conversa com Camila, meu dia terminou na zona Leste de Londres, a área mais pobre da cidade. O plano era conhecer o parque das olimpíadas, que vai receber os jogos de 2012. A região está passando pela maior transformação já vivida em Londres nos últimos 50 anos. O estabelecimento do parque olímpico em uma região pobre foi uma decisão estratégica, para que os jogos deixem um legado na cidade. Criou-se a empresa Olympic Park Legacy Company, que apresentou um projeto de planejamento para dar uma reviravolta no bairro de Hackney Wick e arredores. O projeto começa, claro, com a construção dos estádios, quadras, velódromo e demais obras para os jogos olímpicos. Ao redor do parque, serão criados 5 novos bairros:

1. Na região Norte haverá um bairro residencial familiar, onde devem ser construídas, na primeira leva, 11 mil casas, sendo 35% a preços mais acessíveis (embora a Legacy Company não saiba ainda precisar quando, ao certo, custarão, mas há uma preocupação em manter a região um espaço misto de diferentes classes sociais convivendo). Será um bairro com diversos playgrounds públicos, boas calçadas para caminhar, espaços comunitários, hospitais e enfermarias.

2. A oeste do Hackney Wick fica uma área comercial, com espaços para empresas um centro de imprensa e um centro de difusão para a instalação de emissoras de rádio e televisão. Nessa área ficarão, também, escolas, bibliotecas e espaços culturais.

3. Mais ao sul, perto de Stratfod City, haverá uma área com restaurantes, cafés, bares, galerias e shoppings, que ficará em volta de um centro aquático – a ser utilizado primeiro nos jogos olímpicos, depois pela população.

4. A sudeste, o bairro será quase completamente coberto de áreas verdes.

5. No extremo sul ficará o water front (nome dado à margem urbanizada de um rio ou canal) com cafés, restaurantes e áreas de lazer.

A Legacy prevê, no projeto, 11 escolas, três centros de saúde (com hospitais e faculdades de medicina), 9 linhas de transporte público, de metrô e ônibus, que vão servir a região, 2 mil árvores plantadas e 35 quilômetros de ciclovias e 6,5 quilômetros de waterways – vias de rios e canais que serão urbanizadas.

Se tudo der certo, o planejamento estratégico feito para os jogos olímpicos de 2012 impulsionará Londres para um novo patamar de qualidade de vida. Para nós, que financiaremos e sediaremos os jogos de 2016, é uma chance de observar o que dá certo no laboratório inglês.

* a jornalista Natália Garcia criou o projeto Cidades para Pessoas. Durante um ano ela vai viajar por 12 cidades do mundo e morar por um mês em cada uma delas em busca de boas ideias de planejamento urbano que tenham melhorado essas cidades para quem mora lá. Veja mais em www.cidadesparapessoas.com.br

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