Reportagens

A dura rotina de uma expedição científica

Todas são duras, mas a Zogue-Zogue-Rabo-de-Fogo tinha um complicador: o roteiro itinerante numa região com grandes dificuldades logísticas.

Adriano Gambarini ·
10 de dezembro de 2013 · 8 anos atrás
Em plena Serra dos Parecis, nada de Cerrado, só soja. Foto: Adriano Gambarini
Em plena Serra dos Parecis, nada de Cerrado, só soja. Foto: Adriano Gambarini

Em expedições científicas o dia sempre começa ainda à noite. É o paradoxo de dormir pouco e andar ‘muito, muito’. Ao contrário da maioria das quais participei e diferente das que tenho notícia, a Expedição Zogue-Zogue-Rabo-de-Fogo lidou com um fator complicador: o roteiro itinerante, numa região com grandes dificuldades logísticas.

Uma dos principais obstáculos foi estarmos cercados por Terras Indígenas, o que impedia o trajeto mais racional e eficiente. Tínhamos que nos virar por estradas ‘inexistentes’ que circundavam as Terras Indígenas.

Não havia a possibilidade sequer de descarregar os carros e montar um acampamento por mais de 2 dias. Nestas duas semanas de viagem, percorremos estradas asfaltadas apenas no primeiro e no último dia. Todo o resto do tempo enfrentamos (ou melhor, Rosalvo e Ayslaner na direção dos seus respectivos carros) precárias estradas de terra que a cada dia pioravam devido às chuvas.

Os diálogos eram assim:
— Para chegarmos até a beira do Rio Guariba são uns sessenta quilômetros, exclama um.
— Quanto tempo?, pergunta outro.
— Umas duas horas no mínimo, conclui o terceiro.

Daí, caros leitores, vocês podem concluir o nível das estradas que enfrentamos!

À medida que nos aprofundamos nos confins desta Amazônia Meridional, maior foi a sensação de estarmos num canto esquecido do país. Este sentimento só era atenuado pela receptividade das pessoas que encontramos ou pelas brincadeiras constantes entre a equipe.

Como não sabíamos onde encontrar o zogue-zogue-rabo-de-fogo, as mudanças no planejamento, apesar de necessárias, nos impuseram longas e cansativas horas chacoalhando nos carros, nos alimentando e montando acampamento onde foi possível.

O profissionalismo da equipe logística da Maps Mut foi primordial para manter os ânimos e trazer soluções rápidas. E mais, o censo de coletividade da equipe só confirmou ainda mais um conceito que tenho tanto no âmbito profissional como pessoal: estamos neste mundo por um bem comum. E se um grupo de pessoas com histórias tão distintas se encontram para realizar algo por um bem comum, a resposta da providência só poderia ser positiva.

Fomos mais do que uma equipe, propusemos uma irmandade por um propósito maior: conhecer e buscar formas de proteger uma indefesa e desconhecida espécie da nossa rica biodiversidade. Solidariedade pelo próximo, pelo bicho, pelo mundo.

 

 

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Você pode acompanhar o trajeto percorrido pela expedição nos links abaixo:
O trajeto completo da expedição
O dia-a-dia da equipe
As principais ocorrências

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  • Adriano Gambarini

    É geólogo de formação, com especialização em Espeleologia. É fotografo profissional desde 92 e autor de 14 livros fotográfico...

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