Reportagens

Desastre sem precedentes

Óleo que vazou de navio chileno ameaça o litoral norte do Paraná, que concentra áreas de preservação, ecossistemas frágeis e espécies ameaçadas de extinção.

Romeu de Bruns Neto ·
17 de novembro de 2004 · 20 anos atrás

O Ibama e o Instituto Ambiental do Paraná (IAP) ainda não sabem precisar a extensão dos danos causados ao meio ambiente pela explosão do navio chileno Vicuña, na noite de segunda-feira, quando a embarcação descarregava metanol no Porto de Paranaguá. Mas já está claro que se trata de um desastre ambiental sem precedentes no litoral paranaense. Os primeiros indícios da proporção ambiental da tragédia foram os peixes, golfinhos e tartarugas encontrados mortos na região do acidente.

Ao fim da tarde de quarta-feira, a mancha de óleo combustível que vazou do navio já ultrapassava os 30 quilômetros de extensão, atingindo pontos das ilhas da Cotinga, das Cobras, das Peças, Piaçaguera, do Mel e das Palmas. Todas elas abrigam ecossistemas frágeis, protegidos por lei. Ainda não há notícias de praias cobertas de óleo, mas o vazamento atinge também partes dos manguezais nas baías de Paranaguá, Antonina e Guaraqueçaba.

Esses pontos estão localizados no litoral norte do Paraná, onde existe um complexo estuarino de 37 mil hectares repleto de pequenas baías, canais e enseadas que delimitam o maior remanescente de floresta atlântica de toda a costa brasileira. Ali, vivem espécies ameaçadas como o papagaio-de-cara-rôxa, a saracura de mangue e o gavião pega-macaco.

A pesca, proibida desde segunda-feira por uma portaria conjunta do Ibama e do IAP, é predominantemente artesanal e de subsistência, e, apesar do contínuo esgotamento de recursos, constitui a principal atividade econômica de 70% da população local. A região abriga ainda dezenas de sítios arqueológicos dos períodos pré-colonial e colonial (Guaraqueçaba e Paranaguá foram as portas de entrada dos europeus no Paraná).

Com a explosão, vazaram três substâncias do Vicuña: 1.150 toneladas de óleo combustível tipo bunker, 150 toneladas de óleo diesel e parte dos 5 milhões de litros de metanol que ainda não tinham sido descarregados da embarcação. Não se sabe precisar a quantidade de metanol que vazou e queimou durante o incêndio, que durou mais de 24 horas. O que mais preocupa é o vazamento de óleo, pois o metanol é altamente volátil, se dilui na água e não representa perigo no longo prazo.

O tenente Eduardo Pinheiro, relações públicas do Corpo de Bombeiros de Paranaguá e responsável pela comunicação do desastre, informou que foram colocados três quilômetros de barreiras de contenção na área do acidente. Disse também que parte do óleo já alcançou o mar aberto. Técnicos do Ibama e do IAP, no entanto, informaram que as barreiras só começaram a ser colocadas 12 horas após a explosão, forte indício de que tanto a empresa quanto a administração do porto não dispunham de um plano de contingência adequado. “Houve demora na contenção, que só começou na terça de manhã”, confirmou o engenheiro agrônomo José Joaquim Crachineski, coordenador da Área de Acidente Ambientais (Proatend) do Ibama, em Paranaguá.

Ambientalistas afirmam que a formação geográfica e o comportamento das marés na região podem fazer com que o óleo atinja os estuários e pequenas baías, dificultando ainda mais a limpeza. Por isso, as autoridades envolvidas já discutem a possibilidade de convocar voluntários, especialmente veterinários, para auxiliar no trabalho de resgate de animais.

A Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem (SPVS), que administra três reservas na região de Guaraqueçaba, ofereceu dois barcos para colaborar com essas ações. Na terça-feira à tarde, o diretor da entidade, Clóvis Borges, foi informado de que, na reserva do Itaqui, que tem 12 quilômetros de praia selvagem, havia mau cheiro, possivelmente devido à presença de óleo diesel na água do mar. “É um acidente que não se compara a nada que já tenha acontecido em Paranaguá”, afirma Borges. “A impressão que se tem é que a estrutura necessária para a contenção não existia”.

Segundo Lídia Lucaski, presidente da Associação de Proteção ao Meio Ambiente de Araucária (Amar), o fluxo da maré na região dificulta a saída de poluentes da baía, como ficou demonstrado em outros acidentes recentes. Só em 2004, este é o terceiro vazamento que ocorre no porto (veja abaixo). “A baía de Paranaguá já está bastante contaminada. Um desastre dessa magnitude só vem agravar a situação”. A Amar, a propósito, move contra a empresa de terminais Cattallini, a mesma em cujo píer aconteceu o acidente desta semana, uma ação civil pública que tramita na Segunda Vara Cível da Comarca de Paranaguá. A empresa foi autuada em 22 de abril de 1999 pelo vazamento de material tóxico (acrilato de butila e metacrilatos) no bairro do Rocio, que fica entre o porto e a Área de Proteção Ambiental (APA) de Guaraqueçaba. A Amar pede indenização para as famílias que foram obrigadas a deixar o local.

Outros acidentes em Paranaguá
(Fonte: Jornal O Estado do Paraná)

28 de outubro de 2000 – Cinco mil litros de óleo diesel vazaram de um oleoduto da Transpetro, da Petrobrás, localizada no porto.

18 de outubro de 2001 – Uma embarcação que carregava nafta, da frota da Transpetro, chocou-se com uma pedra na baía e o vazamento atingiu 5 mil metros quadrados.

12 de março de 2001 – Um navio que estava sendo abastecido teve as amarras da proa soltas e afastou-se do atracadouro. O óleo vazou para o mar.

6 de novembro de 2001 – Uma explosão destruiu um armazém de cereais no porto e deixou três funcionários mortos.

5 de agosto de 2004 – Um navio estava sendo abastecido com 850 toneladas de óleo combustível quando 900 litros transbordaram e vazaram para o mar. A mancha atingiu as ilhas das Cobras, Cotinga, Piaçaguera e do Mel.

8 de novembro de 2004 – Um incêndio destruiu parte de um armazém de 2.800 metros quadrados, que estava com carga de fardos de algodão.

10 de novembro de 2004 – Uma mancha de óleo de três quilômetros surgiu no terminal da Transpetro. Não foram descobertos a causa do vazamento, a quantidade e o tipo de produto. A mancha sumiu sem que as autoridades identificassem a causa do acidente.

* Romeu de Bruns Neto é jornalista formado pela UFPR. Trabalhou como repórter especial da Gazeta do Povo. Vencedor do Prêmio Esso Regional Sul 2000, atualmente colabora com reportagens para as revistas Amanhã (do Rio Grande do Sul) e Idéias (do Paraná).

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