Reportagens

A hora e a vez do tuco-tuco

Pequeno roedor, típico da região Sul, está ameaçado pela degradação das dunas, seu habitat natural. Mas um grupo de tucólogos faz pesquisas para salvá-lo.

Carlos Matsubara ·
19 de janeiro de 2005 · 17 anos atrás


O
Projeto Tuco-Tuco, do Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), quer fazer crescer a população das quatro espécies deste roedor do bem presentes na região Sul.

Os “tucólogos”, como se autodenominam os pesquisadores do projeto, dizem que os principais riscos à sobrevivência do tuco-tuco são a crescente urbanização do litoral e destruição de seu habitat junto às minas de carvão. O professor Thales Freitas lidera a equipe e vem estudando as alterações genéticas das espécies litorâneas. O estudo “Desfragmentação das Dunas em Relação ao Tuco-Tuco” consiste na coleta de DNA dos roedores, que ainda podem ser encontrados espalhados pelos 600 quilômetros do litoral do Rio Grande do Sul.

O tuco-tuco é classificado como pequeno roedor fossorial porque vive em galerias escavadas nas areias das dunas e outros solos. Já foram recolhidas amostras em Atlântida, no litoral norte, e no Banhado do Taim, extremo sul. “Nossa intenção é estudar a migração de indivíduos de uma população a outra, através das amostras de DNA”, explica Freitas. Se a migração não estiver ocorrendo, significa que os animais estão cruzando entre si, favorecendo o surgimento de indivíduos mais fracos e mais suscetíveis aos efeitos provocados pela ação humana.

Um impedimento para a migração pode ser a degradação das dunas. “Quando alguém retira uma duna do seu local de origem, interrompe a passagem natural de uma comunidade para outra”,
afirma o pesquisador. Segundo os resultados preliminares do estudo, os pontos mais críticos para o tuco-tuco vão de Xangri-lá até Torres, na divisa com Santa Catarina. De acordo com um dos bolsistas do projeto, José Francisco Stolz, não há pontos onde a espécie esteja protegida. O “menos pior” seria a faixa que vai de Quintão a Palmares, já no litoral sul. Além dos problemas com a ocupação do seu habitat, os tuco-tucos têm outras pequenas desgraças. Enfrentam plantações de pinus na areia e o pisoteio de gente e de gado, freqüente principalmente na parte sul do litoral.

Em Imbé, uma das praias mais procuradas pelos veranistas, acabaram os tuco-tucos. Um calçadão cheio de bares e quiosques liquidou qualquer chance de sobrevivência. Em Atlântida, balneário igualmente badalado, eles encontraram uma saída: refugiam-se nos quintais gramados das mansões locais. “Durante o verão é comum alguns proprietários nos procurarem para saber o que fazer com eles”, conta Freitas. “Eles reclamam dos buracos feitos pelo bicho no gramado, dizem que transmite doenças. Isto revela um total desconhecimento – a espécie não é como o rato que se alimenta do lixo doméstico”.

O próximo passo dos tucólogos será ampliar as coletas para outros pontos do litoral e, ao final do projeto, previsto para 2007, apresentar às prefeituras praianas um plano de manejo para as espécies.

* Carlos Matsubara é paulista radicado em Porto Alegre. Formado em jornalismo pela Unisinos (RS), atualmente é o editor da Agência de Notícias Ambiente JÁ e repórter do Jornal JÁ Porto Alegre.

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