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Baleias, golfinhos e dias sem sorte: a rotina de uma bióloga marinha

((o))eco participou de um dia de monitoramento de baleias e golfinhos realizado pela bióloga Liliane Lodi, referência na área de estudo do comportamento de mamíferos marinhos na costa do Rio

Jéssica Martins ·
27 de outubro de 2022 · 2 anos atrás

Era 07h20 da manhã de uma terça feira (04/10) quando o barco zarpou da Mureta da Urca, no Rio de Janeiro. O relógio digital da rua marcava 21°C, o tempo estava dando sinais de um sol tímido e não havia a incidência de ventos fortes. Na tripulação do Jequitibá, barco que buscou a equipe, havia duas mulheres e dois homens, todos biólogos ou estudantes de biologia, entre eles Liliane Lodi, bióloga que há mais de 30 anos trabalha com mamíferos marinhos e uma vez por semana embarca com sua equipe com o objetivo principal de realizar o avistamento de baleias e golfinhos do Rio de Janeiro, nome inclusive da página do grupo no Instagram

O trabalho da Liliane faz parte do Projeto Ilhas do Rio, uma iniciativa que teve início em 2011, com o intuito de monitorar a fauna e flora do Monumento Natural das Ilhas Cagarras, um arquipélago que fica a 5 km de distância da conhecida praia de Ipanema. O monitoramento de baleias e golfinhos na área costeira do Rio de Janeiro é realizado em longo prazo, pois os animais estudados têm expectativa de vida longa, a fêmea tem um único filhote a cada três anos, vivem em constante deslocamento e possuem extensas áreas de vida. Essas características trazem a necessidade de anos de estudo para obter conclusões efetivas dos dados encontrados.

Estar no barco era um misto de ansiedade e empolgação, olhar para a imensidão do mar, sabendo que a qualquer momento poderia surgir uma baleia ou golfinho. Desde 2011, cerca de 240 espécimes de golfinhos ou baleias foram avistadas pelo projeto. 

Monumento Natural das Ilhas Cagarras, na Baía de Guanabara. Foto: Jéssica Martins.

No meio disso, perguntei à Liliane sobre quando começou a vontade de trabalhar com animais marinhos. Ela afirmou que sempre soube que era isso que queria, antes mesmo de começar a faculdade. Apaixonada por animais grandes desde a infância, a escolha do curso foi natural para ela. “Gosto muito do que eu faço, meu trabalho é um prazer… Estar em campo, estar perto dos animais, meu trabalho é uma vocação que eu tenho“, diz. 

O campo do biólogo que trabalha com animais marinhos à primeira vista é pura diversão, mas a realidade costuma ser maçante. A jornada de trabalho costuma durar 7 horas no mar e os dias são imprevisíveis. Assim como as baleias e golfinhos podem aparecer, do nada, em alto mar, elas também são vistas mais perto da costa, dependendo da época do ano. Nada garante que um dia navegando fará a equipe avistar algum grupo. “Realmente não é fácil, é um trabalho que exige muita paciência e muita perseverança”, explica Liliane. 

O trabalho da equipe do projeto de avistamento de baleias e golfinhos do Rio de Janeiro consiste em usar o método de fotoidentificação. Toda semana a equipe tira fotos dos animais e compara com outras já tiradas e que estão no banco de dados do projeto. A identificação dos golfinhos ocorre pelas marcas e cicatrizes em sua nadadeira dorsal, enquanto na baleia é pela coloração branca e preta na parte de baixo da cauda. Dessa maneira é possível identificar se aquele animal já passou por aquele lugar antes, ou se é um forasteiro distante. 

O monitoramento também serve para realizar pesquisas de observação de comportamento dos animais e de problemas sérios que afetam a vida marinha. Por exemplo, atualmente a equipe realiza o monitoramento dos lugares de encontro com redes de pesca, para posterior mapeamento onde ocorre maior risco dos animais marinhos se acidentarem. 

A chamada “rede fantasma”, abandonada por pescadores no mar, é uma das principais responsáveis pela morte de animais marinhos em todo o mundo. 

O avistamento em que ((o))eco acompanhou durou cinco horas e, para nosso azar, naquela terça específica não apareceu nenhum mamífero marinho no nosso caminho. A única fauna presente foram as aves: fragatas e  atobás. 

Na volta foi impossível não notar a quantidade de lixo que boiava pelo mar. Inclusive a equipe do projeto resgatou uma “barra de contenção” de navio perdida e que navegava sem rumo. Nas cinco horas que passei embarcada com a equipe de biólogos, foi possível entender a paixão de trabalhar com aquilo e como diante das adversidades, a perseverança é primordial. 

Diferente dos documentários, nem todo dia você vai encontrar um evento raro e épico da natureza, às vezes é apenas um dia comum e sem encontros. Sem a presença dos repórteres “pé frio”, a equipe do projeto teve melhor sorte nesta última terça-feira (25), quando avistou golfinhos-de-dentes-rugosos (Steno bredanensis) na Baía de Guanabara. 

O golfinho é uma das 240 espécimes que já foram registradas pelo projeto na região marinha e costeira carioca. Um lembrete da rica biodiversidade que se esconde debaixo das águas.

  • Jéssica Martins

    Estudante de Ciências Biológicas, estagiária em ((o))eco, apaixonada pela natureza e comunicação.

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