Nas últimas semanas, circulou nas redes sociais um vídeo que comoveu internautas. A cena documentada com celular mostra um grupo de macacos-pregos-galegos cruzando pelo chão na frente de maquinários e caminhões que abrem ali mesmo uma rodovia. No vídeo, de quase 3 minutos de duração feito por um dos trabalhadores, é possível contar facilmente mais de 90 primatas fazerem a travessia pela terra batida de uma das margens da floresta até a outra. O local do registro é uma área recém-desmatada na Paraíba, por onde o governo estadual decidiu abrir uma rodovia, à revelia dos alertas de especialistas – tanto dos responsáveis pelos Estudos de Impacto Ambiental da obra, quanto do ICMBio –, de que a área desmatada faz parte de um relevante corredor ecológico para fauna, inclusive de espécies ameaçadas, como o macaco-galego filmado.
A obra faz parte do “Complexo Rodoviário Ponte do Futuro”, composto por duas pontes e um conjunto de rodovias, que irá conectar três municípios da grande João Pessoa: Cabedelo, Santa Rita e Lucena. No meio do caminho, o empreendimento do governo paraibano cruza uma área formada por um mosaico de remanescentes florestais de Mata Atlântica de suma importância para biodiversidade onde, de acordo com o Estudo de Impacto Ambiental (EIA), abriga ao menos 22 espécies da fauna ameaçadas de extinção. Neste mosaico está o Corredor Gargaú-Utinga, que faz a conexão entre a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Engenho Gargaú e a Mata da Utinga.
O corredor foi plantado há 20 anos, justamente para garantir a conectividade do ambiente para os ameaçados macaco-prego-galego (Sapajus flavius) e o guariba-de-mãos-ruivas (Alouatta belzebul).
O licenciamento ambiental da obra foi conduzido pela Superintendência de Administração do Meio Ambiente do Estado da Paraíba (Sudema-PB).
A reportagem de ((o))eco teve acesso a uma nota técnica enviada pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas (CPB/ICMBio) para Coordenação-Geral de Avaliação de Impactos do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) em dezembro de 2024. No texto, o CPB analisa os impactos dos possíveis traçados da Ponte do Futuro sobre áreas e populações de primatas ameaçados presentes em fragmentos de Mata Atlântica da Paraíba.
A nota alerta que todas as alternativas que comprometem a conectividade desse mosaico de remanescentes de Mata Atlântica, “trará impactos negativos irreversíveis para a fauna local” que não poderiam ser compensados. Os prejuízos incluem dificultar ou mesmo impedir a passagem dos animais entre os fragmentos, o aumento do risco de atropelamentos, a maior vulnerabilidade da fauna aos riscos da caça, e a degradação ambiental dos fragmentos. “Tudo isso trará como consequências o isolamento demográfico e genético das populações de fauna, além de redução populacional por perda de indivíduos”, completa o texto do CPB/ICMBio.
Diante desse contexto, os especialistas do órgão federal sugeriram um traçado alternativo para o complexo rodoviário. Ao todo, durante o processo de licenciamento ambiental, foram apresentadas seis alternativas locacionais, cinco apresentadas no EIA e uma pelo CPB/ICMBio. Apenas duas exigiam desmatar o corredor ecológico. A decisão, porém, foi feita sem debate com os especialistas nem transparência.
“Quando fizemos o estudo, já era para Licença de Operação. A Licença de Instalação foi feita com um estudo que foi somente bibliográfico”, conta o pesquisador Pedro Estrela, responsável pelo levantamento de mastofauna do EIA/RIMA. “E fomos orientados de que não estávamos ali para discutir traçado, porque isso já havia sido autorizado na Licença de Instalação. Estávamos discutindo apenas as medidas mitigatórias”, completa.
O professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) foi um dos que alertou para os impactos de deixar a rodovia cruzar o corredor ecológico.
“O principal problema é que eles fizeram esse traçado passando do lado de uma das matas mais importantes que nós temos, não somente da Paraíba, mas de toda a Mata Atlântica, porque ela tem elementos únicos. Não tem ponte ou infraestrutura que justifique. Leva séculos para você ter uma mata como aquela”, desabafa.
A área afetada pelo empreendimento abriga alguns dos maiores remanescentes florestais do Centro de Endemismo Pernambuco, como é chamada a Mata Atlântica ao norte do rio São Francisco, que vai de Alagoas ao Rio Grande do Norte. Essa região, com uma rica e única biodiversidade, já foi reduzida a menos de 5% da sua cobertura original.
Primatas ameaçados
O macaco-prego-galego (Sapajus flavius) é avaliado como Em Perigo de extinção pelo ICMBio. A espécie, 100% brasileira, ocorre apenas em poucos fragmentos de Mata Atlântica e Caatinga nos estados do Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas. A estimativa é de que a população total do macaco seja de apenas 2 mil indivíduos.
A fragmentação e degradação do habitat por conta da expansão agrícola e urbana é a principal ameaça ao primata, atualmente restrito a 45 áreas, muitas delas remanescentes isolados. E pouco mais da metade das áreas (23) está na Paraíba.
O numeroso bando flagrado durante a abertura da rodovia não causa surpresa. Pesquisadores já documentaram grupos de até 160 indivíduos.

O guariba-de-mãos-ruivas (Alouatta belzebul) é outro primata ameaçado que vive nas matas da região. Classificado nacionalmente como Vulnerável ao risco de extinção, a espécie ocorre em parte da Amazônia e na Mata Atlântica nordestina.
A Paraíba concentra as maiores populações de ambas as espécies de primatas. O maior fragmento é justamente a RPPN Gargaú, com 1.060 hectares, que se soma por meio do corredor florestal à Mata da Utinga, uma área de Reserva Legal de cerca de 1.500 hectares.
Em comunicado emitido em março, o CPB/ICMBio destaca que se manifestou durante o processo de licenciamento ambiental e sugeriu que fossem adotadas rotas alternativas para o traçado da rodovia, com as quais não haveria necessidade de desmatamento.
“Isso garantiria a manutenção da escassa conectividade de habitat ainda existente para os primatas da região, e seria altamente relevante para prevenir ou reduzir os impactos sobre essas populações e aumentar as suas chances de sobrevivência em longo prazo”, pontua o texto.
Ademais, o CPB/ICMBio destaca a importância e necessidade de adoção de medidas compensatórias e mitigadoras adequadas. “O ICMBio/CPB se colocou à disposição daqueles órgãos para contribuir tecnicamente com a implementação de tais medidas, não tendo sido convidado para tal até o momento”.
Processo ignorou especialistas
A repercussão do vídeo da “travessia dos macacos” trouxe à tona as falhas no processo de licenciamento ambiental do empreendimento, feito a toque de caixa, sem ouvir especialistas e que invalidou os dados apresentados no próprio Estudo de Impacto Ambiental, conforme apurado pela reportagem de ((o))eco, que consultou documentos e informações levantadas pelo Grupo de Pesquisa do CNPq/UFPB Desenvolvimento Planejamento e Turismo e do Projeto de Extensão Pedagogia Urbana da UFPB.
“A área possui espécies que não são encontradas em outros fragmentos amostrados, o que atesta da insubstituibilidade da área”, alertou a equipe responsável pelo estudo de mamíferos sobre a escolha do traçado da rodovia. “A realização de obras de infraestrutura nesta área se coloca claramente como um dilema moral mais do que um dilema ético. O dilema é moral na medida em que poucas ações de mitigação podem reverter impactos em espécies que, resumindo o amplo conjunto das informações científicas levantadas aqui e presentes na literatura, ‘estão à beira da extinção, só existem aqui e não tem para onde fugir’”, resumem os pesquisadores no EIA.

A professora Andréa Porto Sales, do Departamento de Geociências e do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente da UFPB, aponta que o fato do fluxo inicial de trabalho de concepção e viabilidade, projetos físicos, estudos para licenciamento e audiência pública ter se desenrolado em menos de um ano “revela atropelamento e falta de um debate democrático”.
“O ‘atropelamento’ dos prazos não é um erro de percurso, mas uma estratégia para consolidar o projeto como um fato consumado antes que a mobilização social e o debate técnico profundo possam se estruturar”, denuncia a professora.
Uma evidência disso, destaca ela, é a emissão de uma Licença Prévia para o empreendimento ainda em 2023, antes do Acordo de Cooperação Técnica (celebrado em janeiro de 2024) com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e da Sustentabilidade (SEMAS-PB), responsável pela elaboração do EIA/RIMA.
A Licença Prévia foi obtida com apenas um Estudo Ambiental Simplificado, apresentado em dezembro de 2023, que apenas lista a presença das espécies ameaçadas como parte do inventário da fauna.
E em 17 de dezembro de 2024, o Conselho de Proteção Ambiental do Estado da Paraíba (COPAM) deu parecer favorável à emissão da Licença de Instalação do complexo rodoviário, que autorizou o início das obras.
Segundo cronograma do governo, a previsão de conclusão das obras, que seguem o ritmo acelerado de ano eleitoral, é dezembro de 2026.

Sem medidas de mitigação e pouca compensação
As medidas para amenizar os danos à fauna e flora em função de empreendimentos são exigidas no Estudo de Impacto Ambiental e precisam ser implementadas antes, durante e depois das obras. A principal recomendação mitigadora do EIA da Ponte do Futuro foi justamente a mudança do traçado para evitar a área da Mata da Utinga e do Gargaú, com o objetivo de minimizar os impactos sobre a fauna.
A partir do não cumprimento dessa recomendação, foram exigidas medidas como o monitoramento da fauna, de atropelamentos e da implementação em pontos estratégicos de passagens de fauna. Além disso, exigiu-se a instalação de placas e avisos de limites de velocidade e redutores de velocidade. Não há registros da execução de nenhuma dessas medidas.
“As medidas mitigadoras visam reduzir a magnitude ou a intensidade dos impactos negativos de um empreendimento, sendo uma obrigação inerente ao custo da obra. Já a compensação é uma destinação de recursos para o fortalecimento do sistema de áreas protegidas face aos impactos residuais significativos, aqueles que persistem mesmo após todas as medidas de mitigação”, explica a professora da UFPB.
Vídeo: Arquivo Pedagogia Urbana
De acordo com o relatório, o orçamento de compensação ambiental seria de R$ 2,32 a R$ 4,65 milhões, e prevê a implantação de três corredores ecológicos além da ampliação do próprio Corredor Gargaú-Utinga, contraditoriamente recortado pelo empreendimento. As áreas que serão reflorestadas com a compensação já foram desapropriadas e fazem parte do mesmo mosaico onde a rodovia está sendo construída.
“É fundamental superar a interpretação equivocada do Princípio do Poluidor-Pagador como uma ‘autorização para poluir mediante pagamento’. Deve-se priorizar o Princípio da Prevenção e a Hierarquia de Mitigação, onde o impacto deve ser, prioritariamente, evitado. Se um dano for considerado irreversível ou afetar processos ecológicos críticos de forma que não há ponto de retorno, a viabilidade ambiental do projeto deve ser questionada, pois nem todo dano é passível de compensação”, defende Andréa.
Na última quarta-feira (11), o Ministério Público Federal (MPF) solicitou que o governo do estado da Paraíba esclarecesse informações sobre a situação ambiental das obras e apresentasse documentos sobre as medidas adotadas para proteção da fauna na área do empreendimento e se elas estão sendo cumpridas como previstas no licenciamento ambiental.
O MPF solicitou ainda informações detalhadas sobre o estágio atual de implementação dos corredores ecológicos previstos no licenciamento ambiental, especialmente entre a RPPN Engenho Gargaú e a Mata da Utinga.
A reportagem de ((o))eco questionou a Superintendência de Administração do Meio Ambiente (Sudema-PB) sobre qual a justificativa do órgão licenciador para seleção desta alternativa locacional que exigia maior desmatamento, quais as medidas mitigatórias e compensatórias previstas e o estágio de implementação dessas ações, com ênfase nas espécies ameaçadas de extinção afetadas pelo empreendimento. A secretaria limitou-se a responder que “o processo de licenciamento ambiental foi conduzido de forma técnica e dentro dos parâmetros legais, e todas as informações solicitadas já foram encaminhadas ao Ministério Público Federal”.
Em paralelo, a ONG Instituto Protecionista SOS Animais e Plantas se prepara para protocolar uma ação no Ministério Público, cobrando o governo estadual e a empresa sobre a instalação das medidas de mitigação e compensação, assim como a reavaliação do valor destinado a essas ações, considerado insuficiente diante dos impactos ambientais.
“É impossível que o MPF-PB não enxergue tudo isso, pois até os vídeos que circulam entre as denúncias da rede social deixam muito claro que nem as medidas mitigadoras a serem tomadas no ato da instalação da obra, reforçadas pelo ICMBIO que não eram suficientes para reverter o dano biológico, foram aplicadas”, pontua a professora Andréa Sales.
O presidente da Rede de Especialistas em Ecologia de Transportes (REET), Vagner Reis, destaca que por serem consideradas utilidade pública, as rodovias já possuem benefícios e maior agilidade no processo de licenciamento ambiental, e reforça a importância do cumprimento das condicionantes ambientais impostas. “É necessário qualificar a área, entender as populações que habitam aquele espaço. Mas as ações ambientais não se limitam apenas a isso. Estamos falando de um conjunto de ações para segurança ambiental visando reduzir as perdas, por exemplo: estrutura de drenagem para garantir que um rio não seja assoreado, cobertura de vegetação, segurança viária com passagens de fauna, para garantir a segurança dos usuários e da fauna”, explica.
“Então, quando há uma fragilidade no licenciamento, onde simplesmente o órgão vai declarar aquilo que ele acha interessante, isso abre brecha para uma série de problemas futuros”, completa o presidente da REET, que alerta para um cenário potencialmente ainda mais frágil diante das alterações feitas com a nova Lei Geral de Licenciamento Ambiental aprovada pelo Congresso no ano passado e que entrou em vigor em fevereiro.
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