Análises

E se a FIFA comprasse a Amazônia?

Imagine se 10% do lucro colossal da Copa fosse destinado à compra e proteção permanente de florestas e outros ecossistemas tropicais ameaçados

Mauro Galetti ·
22 de junho de 2026

Durante um mês, o planeta para para assistir à Copa do Mundo. Bilhões de pessoas acompanham aos jogos, milhares de jornalistas cobrem cada gol e centenas de empresas disputam espaço nas transmissões e nas mídias. O futebol é o maior espetáculo esportivo e econômico da história da humanidade, superando inclusive os jogos Olímpicos. Nesse período esquecemos dos enormes problemas que afligem o mundo: guerras, destruição da natureza e mudanças no clima.

Alguns economistas estimam que a FIFA receberá uma receita da ordem de 8 a 13 bilhões de dólares nessa Copa do Mundo de 2026. É uma cifra tão grande que se torna difícil de pensar o que fazer com esse dinheiro. São aproximadamente 70 bilhões de reais, o suficiente para construir cidades inteiras, financiar escolas, universidades e hospitais por décadas, erradicar parte da fome e a pobreza e conservar ecossistemas ameaçados.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



A FIFA tem se comprometido a buscar soluções de sustentabilidade e mitigar as emissões dos seus eventos, mas e se uma pequena fração do dinheiro do lucro da Copa 2026 fosse destinada à conservação da Amazônia ou outros ambientes naturais em rápida destruição ou degradação? Imagine se 10% do lucro colossal da Copa fosse destinada à compra e proteção permanente de florestas e outros ecossistemas tropicais ameaçados. Isso ajudaria consideravelmente na mitigação das mudanças do clima e na proteção da biodiversidade. Seriam cerca de 7 bilhões de reais disponíveis para conservação da natureza.

Dependendo da região e do valor da terra, esse montante poderia comprar, por exemplo, entre 350 mil e 1,4 milhão de hectares de floresta amazônica, proteger até 15 mil espécies de plantas e mil espécies de vertebrados e evitar a emissão de até ~1 bilhão de toneladas de CO₂. Para termos uma comparação, o MapBiomas estimou que 1 milhão de hectares de florestas e cerrados foram desmatados em 2025. Em outras palavras, é difícil encontrar outra ação individual capaz de gerar um impacto tão grande para a biodiversidade e proteção do clima global.

Enquanto os cientistas e políticos discutem mecanismos complexos de mercado de carbono, mendigamos dinheiro para fundos internacionais e gastamos anos em negociações diplomáticas intermináveis, um único evento esportivo possui capacidade financeira para proteger extensas áreas da maior floresta tropical do planeta.

É inegável a importância esportiva e cultural das Copas do mundo de futebol e eu não estou sugerindo que a FIFA tenha a obrigação de salvar a Amazônia já que a responsabilidade é dos governos, das empresas e da sociedade como um todo, mas quando o assunto é proteger a natureza e o clima do mundo, ouvimos repetidamente que não há verba suficiente.

Resolver um dos maiores desafios ambientais do planeta não é ausência de tecnologia, nem ignorância científica e muito menos falta de recursos financeiros. A humanidade já produz riqueza suficiente para resolver boa parte dos problemas que ameaçam a biodiversidade e a estabilidade do clima. O que falta é decidir onde e como essa riqueza será investida. Talvez este seja o maior paradoxo do Antropoceno, a Era dos Humanos. Se apenas uma pequena parte da riqueza gerada pelo maior espetáculo esportivo do planeta fosse direcionada para a conservação da natureza, poderíamos proteger centenas de milhares de hectares de floresta tropical, salvar centenas de espécies e mitigar emissões de gases de efeito estufa, melhorando a qualidade de vida de milhões de torcedores. Isso deveria ser uma meta de todos os empreendimentos e pessoas que geram riqueza financeira exorbitante. No final, investir um pouco do lucro da Copa poderia mudar o mundo para todos e não apenas para os apaixonados pelo futebol. Isso seria o maior gol da Copa!!!

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Mauro Galetti

    Mauro Galetti é  um Naturalista no Antropoceno. É formado pela Universidade de Cambridge e professor do Departamento de Ecolo...

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Reportagens
17 de abril de 2023

Bolsonaro gastou apenas 0,16% do orçamento da União com Meio Ambiente

Número refere-se à média dos quatro anos de governo, mostra levantamento exclusivo do Inesc para ((o))eco. Militares receberam 7,30%

Notícias
24 de maio de 2022

Conservar 80% da Amazônia custa três vezes menos do que valor gasto com emendas parlamentares

Governo Bolsonaro gastou, em média, 34,8 bilhões/ano com emendas. Manter protegida uma área de 3,5 milhões de km² custaria cerca de R$ 10,8 bi/ano, mostra estudo

Salada Verde
10 de outubro de 2023

Em 20 anos, U$ 140 bilhões por ano foram gastos com danos causados por extremos climáticos

Pesquisadores afirmam que números ainda podem estar subestimados devido à falta de dados de países emergentes

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.