Dez e tanto da noite, soa campainha no quarto do hotel. Não é o tipo de coisa que se reconheça de estalo, muito menos no fim de um dia que os atrasos regulamentares da aviação comercial brasileira emendaram com a véspera.
Mas nem é preciso atender. Dado o toque, a porta abre sozinha e entra a arrumadeira, sobraçando uma pilha de toalhas imaculadas, com cara de quem acabara de ser convocada depois do expediente para um atendimento de emergência. Pede desculpas. Antes que se pergunte, responde que veio trazer a muda de toalhas. Troca em segundos as peças no banheiro. E sai com mais uma rodada de desculpas.
Parecia o teste da última palavra em acessório da hotelaria brasileira – aquele letreiro que, de uns anos para cá, quase sempre em duas línguas, convida o hóspede a “contribuir com a preservação ambiental”, dispensando “lavagens desnecessárias de sua toalha”. Querendo trocá-la a cada banho, basta jogá-la no chão depois de usar. E, para aderir à campanha para a preservação dos recursos naturais, é só deixá-la no toalheiro.
Isso, no papel. Na prática, pelo visto, alguém errara de toalheiro naquela noite, provando que essas coisas custam a pegar por aqui. Faz tempo que o apelo ao banho ambientalmente correto entrou, meio sem ser notado, no figurino básico dos salamaleques hoteleiros. É difícil entrar num hotel sem encontrá-lo por lá, grudado no azulejo ou de guarda ao pé da cesta com frascos de xampu e caixas de sabonete. Tornou-se tão comum que deixou de dar na vista, ao mesmo tempo indispensável e inútil. Nada mais infalível do que pendurar obedientemente sua toalha de manhã e encontrar uma nova, recém chegada da lavanderia, à noite.
Roteiros de Charme
Anos atrás, esse convite era marca registrada dos Roteiros de Charme. A moda popularizou-o, antes que o hábito, em si, pudesse pegar. Nos hotéis simples, ele pode ser lacônico. Nos caros, faz o possível para mostrar que também é cinco estrelas. Nas melhores versões, seu estilo exige alguns minutos de leitura, como acontece no hotel das Cataratas, em Foz do Iguaçu, onde os banhos mais prudentes deveriam exigir licença do Ibama e relatório de impacto ambiental.
“Por favor, compartilhe do nosso interesse pelo meio ambiente”, ele implora, bem mais persuasivo do que a média do gênero. Talvez por estar num parque nacional, praticamente debruçado sobre um monumento natural à fartura de água no planeta, o texto esclarece que, no planeta, “menos de 2% da água é potável”.
Antes que a Garganta do Diabo o convença do contrário, ele avisa que “a intensa falta de água tem ocasionado problemas em muitas partes do mundo”. E ensina que, para “garantir seu suprimento”, ainda não se inventou coisa melhor do que a boa e velha política da conversação. Didático, inclui uma tabela, trocando em miúdos o que cada um pode fazer contra a malversação dos tais 2%. Fechando “a torneira enquanto escova os dentes”, ele economizará “de cinco a dez litros por dia”. Dá para ganhar outros dez ou quinze litros no banho, desligando o chuveiro ao ensaboar-se.
Os homens conseguem melhorar a conta em mais “dez ou quinze litros” na hora de fazer a barba, enchendo a pia para enxaguar a espuma, em vez usar a bica correndo. E qualquer pessoa, constatando um vazamento, deve avisar “imediatamente” a gerência. Essa boa ação vale de “quatrocentos a três mil litros”. De quebra, se o freguês “estiver disposto a usar suas toalhas novamente”, reduz-se extraordinariamente “a quantidade de produtos químicos usados para lavar nosso enxoval”. Só falta a arrumadeira.
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