Análises

Fantasia macabra

As bordas prateadas da Lagoa parecem anunciar o Carnaval carioca. Espetáculo anual, as toneladas de peixes mortos chegam ao mar e enchem o céu de gaivotas.

Carlos Secchin ·
27 de janeiro de 2005 · 21 anos atrás

No sábado passado, os helicópteros não voaram. É estranho, porque me acostumei com o barulho dos rotores e dos hélices dessa ruidosa e maravilhosa engenhoca.

Aqui na praia, muitas vidas, anualmente, são salvas. Os banhistas, vítimas das valas, são retirados dentro de puçás, agarrados às redes, de fato mais mortos de vergonha do que afogados.

Mas, neste sábado, havia silêncio no ar. Havia, também, pássaros grandes. As maiores gaivotas que são vistas por qualquer um, de qualquer ponto, no céu do Rio de Janeiro.

Fregatas magnificens. O seu sobrenome nos diz o que ela é. Sua forma se assemelha às longínquas aves que conhecemos petrificadas como fósseis. São exímias pescadoras, que utilizam o bico em forma de gancho para capturar em vôo, na superfície, suas presas.

O macho adulto da espécie chega a medir dois metros de envergadura. Elegante e ágil, é capaz de fazer manobras desafiantes com múltiplos e independentes movimentos das asas. A que eu mais gosto de ver é quando balança a cauda em forma de tesoura, sacudindo o corpo inteiro, feito um cachorro molhado. Acho até que é irreverência, porque nunca vi outras fazendo.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Entre as aves marinhas que conheço é a que tem mais nomes: fragata, tesourão, pirata, catraia e joão grande. Geralmente, voam em correntes ascendentes em largos e concêntricos círculos até que o alimento localizado faça com que elas desçam.

No mês de setembro, o macho infla um saco vermelho cobrindo parte do peito e pescoço. Eles ficam sobre as ilhas mais altas do Rio, atraindo as fêmeas. São aves arredias à aproximação humana e procuram os paredões mais escarpados para construir os ninhos.

Muitas toneladas de precioso alimento: peixes agonizantes e mortos passaram, no sábado passado, do canal da lagoa para o mar. Guardando as proporções, assim como os ursos ficam à espera do cobiçado salmão, que depauperado pelo esforço reprodutivo se deixa levar pelas águas geladas das corredeiras, vi, próximo à areia da praia de Ipanema, as fragatas mergulhando o bico e capturando toda sorte de peixe sem valor comercial.

Ainda bem, porque todo ano é sempre o mesmo espetáculo de desperdício de alimento no país campeão em criação de slogans contra a fome. Vexame ou não, o fato é que a nossa lagoa borda sua borda com escamas de prata, como se anunciasse o carnaval da cidade com a sua fantasia macabra.

No calendário dos fenômenos naturais da cidade inclui-se, definitivamente, a morte. O nosso céu se cobre com a espécie de ave grande, negra e pescadora de movimentos admiráveis que leva pelo ar e para longe parte da culpa dos que se culpam por aquilo que não conseguem realizar — um simples projeto de oxigenação de águas quentes e estagnadas. E os helicópteros, nesses dias, em respeito às aves, não decolam para que elas, por direito, transportem, junto com a Comlurb, a nossa incúria para outro lugar.

* Carlos Secchin é autor dos livros Mar do Rio – Fronteira Azul da Cidade e Narcosis – Histórias de Mergulhador.

  • Carlos Secchin

    Carlos Secchin é engenheiro e fotógrafo, Carioca, vive no Cerrado onde se dedica a conservar uma pequena porção deste rico bi...

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Notícias
17 de junho de 2026

Novo ataque na Serra da Chapadinha destrói e queima residência de ambientalistas

ICMBio foi ao local após denúncia de fogo e encontrou muros destruídos e imóvel queimado em mais um episódio de violência contra casal que lidera luta por criação de UC

Notícias
17 de junho de 2026

Consulta pública sobre nova UC no Pantanal tenta combater desinformação sobre a proposta

A criação do Refúgio de Vida Silvestre Delta do Salobra, com 60,7 mil hectares em Mato Grosso do Sul, será debatida na tarde desta quarta-feira (17) com moradores e atores locais

Reportagens
17 de junho de 2026

Dois anos após inundações históricas, 36 municípios gaúchos têm leis que fragilizam APPs urbanas

Entre as cidades inspiradas pela lei federal que reduz salvaguardas socioambientais em cenários de crise climática está Porto Alegre, uma das mais impactadas pelas chuvas em 2024

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.