Análises

Palestra boa pra cachorro

O biólogo Aldemar Coimbra Filho fez apresentação magistral sobre a domesticação de lobos. As numerosas raças de cães são resultado de mais de 40 subespécies de Canis lupus.

Carlos Gabaglia Penna ·
28 de julho de 2008 · 14 anos atrás

Adelmar Coimbra Filho proferiu recentemente palestra na sede da Associação dos Amigos do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Como de costume, sua apresentação foi original e muito interessante e seu discurso pontilhado de irreverências e iconoclastia. Assim é o biólogo Coimbra, primatólogo renomado, com profundo conhecimento de história natural, ecologia e evolução de espécies e um ícone da conservação da Natureza no Brasil. O Professor Coimbra não tem papas-na-língua: classifica de estupidez a forma insustentável de ocupação da Amazônia, acentuando que estupidez, para ele, é burrice criminosa. Considerando-se a quase absoluta ignorância sobre a biota desse bioma extraordinariamente rico, sua adjetivação soa bastante branda e suave…

O foco de sua exposição foi o processo de domesticação dos lobos, transformados, por seleção antrópica, em diversas raças de cães domésticos. Antes de entrar nesse tema fascinante, destaco alguns comentários paralelos em sua palestra. Coimbra foi enfático ao afirmar que desenvolvimento sustentável é uma falácia. Impacienta-se com tanta ignorância, que lhe parece infinita, tanto individual quanto coletivamente… Ora, desenvolvimento sustentável, no sentido de crescimento econômico com conservação ambiental é flagrante contradição. É mais que isso, é uma quimera, um embuste técnico-científico e econômico. Se os recursos naturais são finitos e se o crescimento da produção e do consumo – qualquer que seja a tecnologia adotada – gera poluição inevitável, como a expansão permanente da economia pode ser sustentável? O conhecimento elementar de ciências naturais reduziria essa discussão a zero.

Nas suas críticas ao febeapá que assola o país (saudoso Stanislaw), Coimbra – seguro de sua impressionante história – enfatiza que o “politicamente correto é insensatez. As questões ou são certas ou erradas”.

Utilizando-se de espantosa cultura biológica, ecológica e agronômica, Coimbra ainda referiu-se aos benefícios e danos propiciados pela introdução da jaqueira, árvore exótica há longo tempo plantada em áreas da Mata Atlântica, e à importância do papel proporcionado por centenas de espécies de eucaliptos, que, em mãos competentes, podem resolver questões ambientais de grande significado conservacionista. Fez também comentários sobre árvores nativas ameaçadas, alguma de grande importância, que continuam inexistentes nos nossos jardins botânicos, como as maçarandubas do Rio de Janeiro (Manilkara elata e M. salzmannii), e até sobre as imprescindíveis coragem e integridade de gerentes de unidades de conservação para enfrentar os agressores da natureza. Fala com a autoridade de quem conhece tais assuntos e de quem enfrentou desatinos de favelados, coletores de plantas ornamentais, palmiteiros e caçadores em áreas protegidas que administrou. “Se o administrador não é homem para enfrentar essas ameaças à natureza, então está no lugar errado”. Tem razão…

Em sua palestra, Coimbra fez breves comentários acerca da excelente adaptação do gado Nelore ao clima brasileiro, considerando a acentuada pigmentação com eumelanina de seu couro, que lhe confere proteção contra os fortes raios solares, e seu pelame branco, tonalidade que reflete a radiação solar. Contou ainda sobre a reintrodução de 22 jacarés-de-papo-amarelo nas lagoas da Tijuca, espécie atualmente ameaçada, e de diversas aves, notadamente de tucanos-de-bico-preto, nas matas do Parque Nacional da Tijuca, além outros animais. Em um país carente de conhecimento técnico de qualidade, a cultura de Coimbra Filho deveria ser muito mais aproveitada.

Como mostrou o palestrante, as numerosas raças de cães são resultado da domesticação de mais de 50 subespécies de Canis lupus, o lobo, que há alguns milhares de anos vem sendo realizada pelo homem. Canis lupus é uma espécie que ocorre em grande parte da região Holártica (a Neártica e a Paleártica). A forma nominal do lobo europeu, Canis l. lupus, própria da Europa, possuía muitas raças geográficas distribuídas pela Eurásia. Atualmente encontra-se praticamente desaparecida, sobrevivendo precariamente na maior parte da Europa, mas ainda existente nas montanhas da Itália, nos Pirineus, na Espanha, na Serra da Estrela, em Portugal, sendo mais abundante em florestas da Europa Oriental e em muitos lugares da Ásia.

Existe grande variedade de pesos e características morfológicas entre as subespécies. O C. lupus baileyi (México) pesa cerca de 30 quilogramas, e as raças mais boreais, como o C. l. occidentalis, do norte do Canadá, o C. l. alces, da península de Kenai, Alasca, o Canis l. pambasileus, do monte McKinley, Alasca, e o Canis l. tundrarum, Alasca, são todos raças com peso ao redor de 70 kg.

Os lobos são animais gregários, com fortes laços sociais, o que favoreceu sua domesticação, principalmente quando eventuais filhotes foram criados pelos homens, com os quais se identificavam, passando a ser membros da alcatéia. Este fato não ocorre com as demais espécies de canídeos sociais, como o Lycaon pictus (African hunting dog) da África negra e o Cuon alpinus (dhole) do sudeste asiático, que têm no regurgitamento de alimento para os filhotes o seu mais importante fator de união entre os indivíduos.

A notável seleção zootécnica de que foi alvo o Canis lupus resultou em mais de 400 raças de cães, várias ainda em formação e outras em fase de desaparecimento. Seja como for, todas essas raças são muito importantes para o bem estar da espécie humana, na opinião de Coimbra Filho. Como cientista, ele ressaltou o potencial científico de todas as espécies faunísticas e botânicas, tanto selvagens como domésticas, e citou uma experiência impressionante realizada recentemente com cães.

Pesquisadores da Fundação Pine Street, da Califórnia (EUA), testaram a capacidade de cães em apontar, através do faro, pessoas portadoras de cânceres de pulmão e de mama. A experiência, desenvolvida com cinco animais, indicou uma margem de acerto entre 88% e 97% na detecção dessas doenças, mesmo em pacientes assintomáticos. Como o andamento dessas pesquisas são, em geral, lentas, uma grande parcela desse potencial pragmático da biodiversidade corre o risco de se perder por causa da degradação dos ecossistemas globais.

  • Carlos Gabaglia Penna

    Professor de Engenharia Ambiental da PUC-Rio, pós-graduado em Gerenciamento Ambiental pela Universidade de Tufts (EUA) e mest...

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