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Brasil, o país sequestrado pela inversão de valores

Fora dos meandros da política, a sociedade brasileira é tão vibrante quanto a nossa biodiversidade. Mas vive na monotonia das más notícias.

15 de abril de 2013 · 9 anos atrás
  • Reuber Brandão

    Professor de Manejo de Fauna e de Áreas Silvestres na Universidade de Brasília. Membro da Rede de Especialistas em Conservaçã...

Congresso Nacional, Brasília. Foto: Shelley Bernstein
Congresso Nacional, Brasília. Foto: Shelley Bernstein

Às vezes a ironia é o único recurso que resta. Por isso, gostaria de manifestar meu completo e irrestrito apoio ao Congresso Nacional. Não sei por que a sociedade brasileira se queixa tanto. Acredito que todas as indicações feitas pelos partidos para as presidências das comissões do legislativo são muito bem pensadas. Tomemos por exemplo a presidência da Comissão Permanente de Meio Ambiente, Defesa do Consumidor e Fiscalização e Controle (CMA) do Senado Federal. Duvido que exista outro Senador mais adequado para ocupar a presidência desta comissão que o ilustre Sr. Blairo Maggi (ok, talvez a Senadora Kátia Abreu também pudesse ocupar esta vaga). Se o tema a ser discutido é Meio Ambiente – mesmo imprensado no meio da Defesa do Consumidor e Fiscalização e Controle – nada melhor que contar com alguém que realmente entende de desmatamento. Na prática. Nada como contar com a sabedoria de uma pessoa agraciada, pela sua ilustre atuação, com o prêmio mais importante na área, o Motosserra de Ouro.

A sociedade brasileira reclama demais. O Congresso Brasileiro sempre me surpreende com sua capacidade de mostrar objetividade e coerência.

O Senador Blairo Maggi é considerado um membro moderado da chamada bancada ruralista do Congresso Nacional. Acredito que o Senador Blairo é o Ronaldo Caiado que deu certo. E por razões muito simples. É mais inteligente que a média da bancada ruralista e ocupa uma posição política confortável no cenário nacional. Para ele, o silêncio é ouro. Além disso, percebeu que meio ambiente não é uma piada, como acreditam muitos dos seus companheiros de bunker político, e aparentemente trata o meio ambiente como uma demanda legítima e séria de grande parcela da sociedade brasileira. Sugerem isso suas ações mais recentes no Estado do Mato Grosso, onde promoveu a regularização dos imóveis rurais do estado.

Entretanto, é ingenuidade dizer que o Sr. Blairo mudou sua postura política. A bancada ruralista armou uma grande estrutura política dentro do Congresso, contando com a estoicidade quase cúmplice do Poder Executivo. Um político da envergadura e capacidade do Sr. Blairo precisa se blindar e blindar o grupo que representa. O que fica claro é que a preocupação do Governo Brasileiro com o meio ambiente é patética, permitindo ao Sr. Blairo (e a toda a bancada ruralista) diminuir o volume da voz e atuarem sossegados dentro dos meandros políticos

A precoce campanha política visando a recondução da Presidente(a) Dilma ao segundo mandato mostrou a debilidade das ações moralizadoras da máquina pública apresentadas pela Presidenta(e) na primeira metade de seu atual mandato. Como é mais importante garantir apoio de partidos e aumentar o horário eleitoral na TV, não me admira que certos políticos sejam conduzidos a posições tão adequadas ao seu perfil como o seria o hábito arborícola a um jabuti.

Congresso liberado

Com raríssimas exceções, a política é composta por criaturas de olhos espertos, olfato aguçado, dentes apurados e apetite voraz, capazes de roerem milhões e milhões de reais antes que a sociedade perceba.

Um exemplo ilustra a luta pelo apoio de diferentes partidos: ocupa a presidência da Comissão Permanente de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados o ilustre Deputado Federal Pastor Feliciano. Novamente, não entendo a razão de tantas manifestações contrárias ao Sr. Feliciano. Se um dos principais objetivos da comissão é propor políticas que diminuam as diferenças sociais e o preconceito contra as minorias da sociedade, nada melhor do que contar com um político que realmente entende de intolerância e preconceito, ora bolas.

Em minha opinião, o Sr. Feliciano é um bufão. Uma pessoa que não merece um milésimo da atenção que vêm recebendo. O melhor para pessoas com o nível de humanidade e relevância do referido falastrão é o completo e total desprezo. Quanto mais espaço se dá para criaturas assim, mais bobagem se houve. No entanto, a única coisa coerente que o ouvi dizer foi apontar mais outra contradição do nosso fabuloso Congresso Nacional: dois condenados pelo Supremo Tribunal Federal no escândalo do Mensalão são membros titulares da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. Alguma coisa errada com isso? Claro que não! A Presidência do Senado Federal ocupada por um político que paga a pensão alimentícia do filho nascido em aventura extraconjugal com dinheiro de empreiteira? O que há de mal nisso? Nada é proibido dentro do Congresso.

Ô povo chato, esses desocupados que saem pelas ruas carregando faixas e exigindo respeito. Por que simplesmente não ficam felizes com as obras da Copa e com a próxima edição do BBB? Chega de abaixo assinados. Ninguém vai dar a mínima mesmo. Lei da Ficha Limpa? Já estão trabalhando para modificá-la.

Com raríssimas exceções, a política é composta por criaturas de olhos espertos, olfato aguçado, dentes apurados e apetite voraz, capazes de roerem milhões e milhões de reais antes que a sociedade perceba. Tais criaturas são oportunistas. Sabem que, neste momento, o Brasil possui recursos. Sabem que essa é a hora de encherem suas panças e disseminarem suas sementes podres, por que a situação pode mudar. Se ainda existem recursos naturais que podem ser transformados em dividendos, vamos consumi-los agora, rápido! E da maneira mais porca possível.

Esse é o Brasil, o país da reversão de valores. Onde ética, respeito, coerência e honestidade são tratados como lixo. Detentor da biodiversidade mais vibrante do planeta, reduzido à monotonia das más notícias…

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