De Paulo Lemelle
Prezado Sr. Marcos Correa,
O Niger é realmente um país interessante.
Quando lá esteve em novembro de 1976, visitando uma mina de urânio em Arlit, de propriedade da empresa francesa Pechiney e localizada no meio do Sahara, observei um fenômeno inesperado: assim que um corpo mineralizado, explorado a céu aberto, esgotou-se, a cava formada encheu-se de água fóssil, proveniente de lençol existente, formado em era geológica mais ou menos recente (na escala geológica, por óbvio). Não mais sendo necessário esgotá-la por bombeamento para permitir a operação de lavra, ela se acumulou, formando um pequeno lago.
Quase imediatamente foi notada a presença no local de pássaros migratórios, que lá pousavam para beber e prosseguir a viagem. Imagina-se que houve um “desvio de rota” da corrente migratória causado pela sutil elevação da umidade do ar e, o que é mais desconcertante, que os pássaros foram capazes de perceber isto. Anteriormente à existência do “lago”, jamais fora observada vôos de pássaros sobre a região.
A ironia é que a exploração mineira, que sempre gera impactos ambientais negativos de difícil mitigação, resultou em um benefício, pelo menos para as aves. Há ainda dois outros pontos que comento abaixo:
1. já naquela época, encontrei-me, em Niamey (capital do país), com um consultor da FAO a serviço do governo local, o que mostra o interesse do país no desenvolvimento da agricultura;
2. lá vivi minha primeira percepção do que mais tarde seria chamado de “globalização”: o avião da Air Afric aterrissou ao som de “Garota de Ipanema”; no cinema em Arlit passava um filme chamado “Bresil, Pays de l’ Aventure”; os franceses faziam “siesta” após o almoço, comiam queijo e bebiam vinhos (franceses, naturalmente!) sob um calor sahariano; e jantei em um restaurante vietnamita, cujo proprietário fugira da Guerra do Vietnam (perguntei-lhe qual era a razão da escolha do Niger, mas ele não quis me responder).
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